Leonila Félix: a flor de ferro no chão da Natal de 1935

por Sérgio Trindade foi publicado em 22.mar.26

Interessei-me há quase duas décadas por José Praxedes, um dos membros da junta comunista que “governou” o Rio Grande do Norte em 1935, porque o sapateiro fôra aluno, na segunda década do século XX, Escola de Artesãos e Artífices do Rio Grande do Norte e, à época do meu interesse, eu ingressara como professor no então Centro Federal de Educação Tecnológica do Rio Grande do Norte (Cefet-RN), hoje Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte (IFRN), um dos inúmeros nomes que a escola de Praxedes teve.

José Praxedes é um personagem interessante, sem dúvida. Mas muito mais interessante é a jovem Leonila Félix (Leonila Octávia de Almeida), jovem casada com Epifânio Guilhermino (Epiphanio Guilhermino) e que aparece, de passagem, em páginas e páginas de livros e artigos sobre o movimento comunista que virou o Brasil de pernas para o ar. Epifânio, ressalto, era motorista de táxi e o responsável por reunir carros e caminhões para os revoltosos.

Depois de me deparar com várias menções a Leonila, parei um pouco as leituras sobre Praxedes e fui buscar informações sobre essa mulher perdida nos escaninhos da História e descobri que ela está nas páginas de João Medeiros Filho (82 horas de subversão – Intentona Comunista de 1935), de Homero Costa (A insurreição Comunista de 1935: Natal – O Primeiro Ato da Tragédia), de Graciliano Ramos (Memórias do Cárcere), entre outros.

A Natal de 1935 tinha o hábito de dormir cedo sob o manto das brisas atlânticas, mas acordou, no meio da noite de um dia de novembro, com o estampido seco da história. Não era o ensaio de um bloco de Carnaval, nem o foguetório de Santo Antônio. Era a “Intentona”, nome de batismo pesado, carregado de uma heresia política, dado à insurreição comunista que pretendia tingir de vermelho o azul do Potengi. No centro desse turbilhão, entre o fardamento de praça de Epifânio Guilhermino e o sonho de um mundo sem donos, estava Leonila. Graciliano Ramos assim se refere a ela: “Duas mulheres achegaram-se, uma branca, nova, bonita, uma pequena cafuza de olhos espertos. Fiquei sabendo que a primeira se chamava Leonila e era casada com Epifânio Guilhermino. (…) Naquele momento o meu desejo era evitar a presença de Leonila e Maria Joana, livrar-me dos restos do vestuário pesado. Em tal situação, o recurso melhor seria pedir aos passageiros machos que formassem diante de mim uma espécie de cerca humana e, protegido por ela, despir-me, arranjar-me convenientemente. Devo ter feito isso, não me lembro. Sei que me achei metido no pijama. Dobrei cuidadosamente a calça e o paletó, arrumei-os sobre a maleta e conservei os meus troços à vista, pois eram tudo quanto eu possuía e ali dentro começavam a representar enorme valor. (…) As duas mulheres passavam, depois desapareciam além das cortinas estendidas ao fundo. Nenhuma comunicação conosco. O riso acolhedor de Maria Joana lhe banhava o rosto negro, mas Leonila tinha uma sisudez fria de metal. Sertaneja, provavelmente, educara-se e vivera no horror ao homem. Ausência de palestras, de familiaridade. Escondia-se, levava a outra para a fornalha, iam assar, frigir-se, derreter-se na temperatura medonha”.

Epifânio Guilhermino foi figura proeminente da Insurreição Comunista de 1935, na qual Natal foi o ato 01 da tragédia, como bem referencia o professor e pesquisador Homero de Olivera Costa, numa das de obras mais importantes sobre aquele evento histórico. Era comandante de um grupo e é apontado, em alguns trabalhos e nos depoimentos prestados por muita gente à polícia, como frio e brutal. Leonila, sua mulher, vestia roupas de homem e andava armada. Era, portanto, tão revolucionária quanto o marido.

Falar de Leonila não é tarefa para historiadores de gabinete, presos a datas e decretos. É tarefa para quem entende o silêncio das mulheres que, na sombra dos maridos insurgentes, sustentaram o peso do mundo quando o sonho ruiu. Se Epifânio era o braço armado, o sargento que via na insurreição a redenção da caserna e do operariado, Leonila era a estrutura invisível. A bibliografia sobre o 35, de Hélio Silva a Glauco Carneiro, costuma ser generosa com os generais da derrota, mas avarenta com as mulheres da base (pouco aparecem ela, Amélia Gomes, Chica Pinote, Chica Gaveta, entre outras).

​Na ficção, Leonila poderia ser uma personagem de Os Subterrâneos da Liberdade, aquela figura que guarda o panfleto sob o colchão e o segredo no peito. Ou a Maria Moura, de Rachel de Queiroz. Mas a Leonila de Natal é mais real que as personagens de Jorge Amado e tão ou mais telúrica do que a personagem-título da obra de Rachel de Queiroz. Ela não habitava o realismo socialista ou os campos das páginas de papel. Não. Ela habitava as ruas de uma Natal que, por quatro dias, acreditou ser o centro de uma revolução mundial.

Imagem feita com auxílio de IA

​Diz-se, nas entrelinhas dos depoimentos colhidos pelo Tribunal de Segurança Nacional, que a casa do casal Guilhermino era o porto seguro das conspirações. Enquanto Epifânio articulava com Giocondo Dias e os sargentos do 21º BC, Leonila geria a escassez e o perigo. No movimento de 35 em Natal, o único lugar onde os rebeldes de fato tomaram o poder e formaram um “Governo Popular”, uma mulher foi fio de prumo, afinal Leonila não era apenas a “esposa do militante”. No código de ética da clandestinidade, a mulher era a inteligência logística. Era quem percebia a aproximação da polícia pelo som dos passos no calçamento.

​Quando o sol de novembro se pôs sobre o fracasso do movimento e as tropas legalistas subiram a ladeira de Cidade Alta, o destino de Leonila e Epifânio selou-se no ferro. A repressão de Vargas não conhecia a fidalguia potiguar. Epifânio e Leonila, os rebeldes, enfrentaram o cárcere. E Leonila ainda enfrentou o pior dos exílios, a saber, a solidão do estigma, afinal ser mulher de comunista em 1935, na pequena e provinciana Natal, era carregar uma letra escarlate invisível.

​O que aconteceu no café da manhã de Leonila quando os canhões silenciaram? A memorialística de Graciliano Ramos, expressa em Memórias do Cárcere, dá-nos o tom do desespero dos que ficaram. Leonila sobreviveu na resistência do cotidiano. Se a história oficial a esquece nos rodapés, a memória afetiva da cidade a guarda como a personificação daquela dignidade silenciosa de quem apostou tudo numa utopia e perdeu o jogo, mas não a honra.

​Leonila é a metáfora da Natal insurgente. Uma cidade que, de tempos em tempos, tenta romper com as oligarquias e o conservadorismo, para logo em seguida ser devolvida ao seu lugar de Presépio. Ela e Epifânio foram o verso e o reverso de uma mesma moeda cunhada no idealismo. Ele, o fogo do levante; ela, a brasa que permaneceu acesa sob as cinzas da derrota, cuidando para que o nome Guilhermino não fosse apenas um prontuário no DOPS, mas uma lembrança de que, um dia, o povo de Natal ousou subir as escadas do Palácio do Catete, começando por aqui, com um cravo vermelho na mão.

​Ao fim e ao cabo, Leonila permanece como uma dessas sombras, uma mulher que não pediu licença para ser história, mas que a história, em sua pressa masculina, esqueceu de documentar com a devida justiça.

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