O homem que vendia a própria sombra

por Sérgio Trindade foi publicado em 05.abr.26

A cidade estava cheia de homens importantes, mas poucos eram tão importantes quanto Honor Seven, pelo menos segundo Honor Seven.

Ele não nascera assim. Fora batizado com um nome respeitável, daqueles que parecem exigir gravata: George Andrade Nabuco Gilmord. Os íntimos, porém, chamavam-no de Gang, o que era apropriado por duas razões. Primeiro, porque o nome formava a sigla perfeita para alguém que se movia em bando – ainda que o bando fosse apenas ele, quatro ou cinco próximos e as ideias roubadas de terceiros. Segundo, porque seu método de trabalho lembrava mesmo um pequeno assalto.

Honor Seven era um bandoleiro de ideias.

Roubava-as com a delicadeza de um ladrão de galinhas: sem violência, sem testemunhas e com um ar de absoluta naturalidade. O sujeito dizia uma coisa interessante numa mesa de bar, numa reunião de trabalho, numa palestra esquecida ou num grupo de WhatsApp e dias depois lá estava Honor Seven apresentando a mesma coisa como se fosse um achado de sua inteligência. Fazia isso com tanta convicção que, ao fim, todos tinham a sensação de que talvez a ideia fosse mesmo dele.

A cidade tem dessas coisas: quem fala primeiro nem sempre leva o crédito. Quem fala com esperteza, sim.

Honor Seven era esperto. Muito esperto. Bem esperto. Não era eloquente, sua voz tinha um chiado curioso, como se tivesse engolido um apito na infância e o objeto permanecesse alojado em algum ponto obscuro da garganta. Quando se empolgava, as palavras saíam com um assobio agudo e uma pequena chuva de saliva que atingia os ouvintes mais próximos.

Ele cuspia ideias dos outros e cuspia saliva nas pessoas.

Fisicamente, também era uma figura difícil de ignorar. Tinha uma cabeça imensa, coroada por uma calva redonda que parecia uma pequena lua doméstica no centro do coco. O corpo, em compensação, era curto e ligeiramente torto, como se tivesse sido montado às pressas por um fabricante distraído. Quando caminhava, dava a impressão de que a cabeça ia um pouco à frente, puxando o resto do organismo.

Apesar disso, ou talvez por causa disso, tinha uma confiança invejável.

Honor Seven acreditava sinceramente ser um gênio.

Não foi sempre assim. Houve um tempo em que ele era apenas um rapaz ambicioso, desses que anotam frases em cadernos e sonham com reconhecimento. O problema é que as frases que anotava eram melhores quando escritas pelos outros.

Um dia percebeu uma coisa simples: era mais fácil apropriar-se de uma ideia boa do que produzir uma. A descoberta o libertou. Deixou de sofrer com a angústia criativa e passou a dedicar-se ao que realmente sabia fazer: marketing de si mesmo.

Foi assim que nasceu Honor Seven.

O nome apareceu numa dessas conversas em que alguém dizia que certas pessoas vendiam tudo por sete moedas, Até a própria honra. Um Judas (Is)Cariotes, como um dia o chamou um sertanejo. Outro comentou que havia quem vendesse por setenta. Um terceiro lembrou que existiam indivíduos capazes de negociar a honra por setecentos.

Honor gostou da escala: sete, setenta, setecentos. Parecia uma progressão aritmética moral.

Na mesma noite anunciou que adotaria um pseudônimo artístico. Chamaria a si mesmo Honor Seven. A escolha parecia profunda, quase filosófica, embora ninguém tivesse entendido muito bem o motivo. Honor explicou que era uma referência simbólica ao valor da honra num mundo mercantilizado. Na verdade, era apenas um slogan.

Honor Seven vendia tudo o que podia vender. Ideias, opiniões, projetos, artigos, discursos, conceitos. Se alguém lhe pedisse um pensamento original sobre qualquer assunto (filosofia, economia, comportamento humano, culinária vegana), ele produzia imediatamente um raciocínio que, por coincidência, já havia sido dito antes por outra pessoa. Mas com uma diferença: ele dizia chiando, cuspindo, mastigando das palavras.

Não necessariamente mais bonito. Mas mais convincente. Acrescentava um gesto teatral, uma pausa estratégica, uma frase de efeito no final. E pronto: a plateia aplaudia.

A cidade começou a conhecê-lo e logo surgiram convites para palestras, debates, mesas-redondas, entrevistas. Honor Seven aceitava tudo com a generosidade de quem se considera indispensável ao mundo. Falava sobre inovação intelectual, criatividade disruptiva e a importância de pensar fora da caixa. Era curioso ouvi-lo falar dessas coisas, afinal ele próprio jamais saíra da caixa. Limitava-se a abrir caixas alheias e transferir o conteúdo para uma embalagem mais vistosa.

Com o tempo, Honor Seven começou a acreditar na própria farsa. Esse é o destino de muitos impostores bem-sucedidos: repetem a mentira tantas vezes que acabam aceitando-a como autobiografia.

Passou a comportar-se como um moleque. Mas não um moleque alegre, desses que fazem travessuras inocentes, mas um moleque traiçoeiro, especializado em puxar o tapete dos colegas enquanto finge ajudar a varrer o chão. Quando percebia alguém com uma ideia realmente boa, aproximava-se com entusiasmo, elogiava, pedia detalhes e prometia colaboração. Dias depois, a ideia reaparecia num artigo assinado por Honor Seven – ou inscrito num congresso, num seminário, num simpósio.

Ele explicava aquilo com naturalidade. No fundo, dizia, as ideias pertencem ao espírito do tempo. O importante é quem sabe interpretá-las. Ele, evidentemente.

Houve um momento em que começou a vender até a própria honra.

Primeiro por sete. Depois por setenta. Mais tarde por setecentos.

Não que a honra tivesse muito valor de mercado. Mas Honor possuía uma habilidade rara: conseguia transformar qualquer coisa em produto. Inclusive a ausência de caráter.

Criou cursos sobre ética intelectual. Deu palestras sobre integridade. Publicou um ensaio intitulado A coragem de ser original, no qual defendia a importância da autenticidade no pensamento contemporâneo. O texto era uma colagem tão engenhosa de ideias alheias que alguns críticos o chamaram de mosaico brilhante.

Honor Seven agradeceu o elogio. O sucesso subiu-lhe à cabeça, o que, no caso, era uma distância curta. Sua cabeça já ocupava boa parte da paisagem. Passou a circular pela cidade com um ar de menino que acabara de descobrir onde o pai guarda a carteira.

Em certas ocasiões, parecia realmente uma criança. Uma criança com MBA em trapaça.

Havia nele um prazer quase juvenil em enganar os outros. Não era apenas interesse financeiro. Era diversão. Como aqueles garotos que soltam bombinhas na porta da vizinha e correm para assistir à confusão pela janela.

Honor Seven soltava ideias roubadas e aguardava o aplauso.

Imagem feita com o auxílio de IA

Mas toda comédia guarda um pequeno núcleo trágico.

Com o tempo, começou a perceber uma coisa estranha. As ideias que roubava já não provocavam o mesmo entusiasmo. As pessoas ouviam, acenavam educadamente e mudavam de assunto.

Era como se o truque tivesse perdido a graça.

Honor reagiu dobrando a aposta. Intensificou o marketing. Criou slogans mais ousados. Produziu textos mais longos, palestras mais dramáticas, gestos mais largos. Sua voz chiava mais alto e a saliva voava mais longe. Nada, porém, funcionava.

A cidade aprendera alguma coisa. Não muito, afinal cidades raramente aprendem muito, o suficiente, entretanto, para suspeitar de um homem cuja cabeça parecia conter mais vento do que pensamento.

Um dia Honor Seven percebeu que estava sozinho numa mesa do restaurante do shopping. Não havia ninguém interessado em contar-lhe novas ideias. Nem mesmo as ideias antigas pareciam disponíveis. Foi um momento silencioso. Ele olhou para o copo, para a calva refletida no vidro e para a cidade que seguia indiferente lá fora. Pela primeira vez em muitos anos tentou produzir um pensamento próprio. Não conseguiu e descobriu, com uma espécie de espanto infantil, que sua cabeça imensa era como um cofre vazio: grande por fora, oca por dentro. Nada ali se propagava, porque ali só havia o vácuo.

Ainda assim, manteve a postura. Endireitou o corpo pequeno, limpou o queixo e saiu dali calmamente. Caminhava com a cabeça à frente, como sempre, procurando no ar alguma ideia distraída que pudesse capturar. Porque Honor Seven tinha uma convicção profunda:

enquanto existissem ideias no mundo e pessoas distraídas o suficiente para produzi-las, haveria trabalho para um bandoleiro. E Honor Seven, o homem que vendia tudo, continuaria vendendo.

Mesmo que fosse apenas a própria sombra.

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