A cesta eterna: a partida definitiva de Oscar Schmidt

por Sérgio Trindade foi publicado em 18.abr.26

Saí do trabalho por volta da 17h de ontem e, chegando em casa, fui sacudido pela notícia da morte de Oscar Schmidt, o Mão Santa – que, segundo ele, nada tinha de santa, e sim de treinada.

Imagem feita com auxílio de IA

Varei a noite assistindo lances geniais do maior jogador de basquete que o Brasil já produziu e lendo matérias sobre ele. E depoimentos de lendas do basquete e de atletas de outras modalidades, de jornalistas, etc.

Não há o que dizer, exceto que Oscar figura na prateleira daqueles homens que, sem pedir licença, transformam a própria travessia em espetáculo.

Oscar não atravessou a quadra, ele fundou um território.

Lembro – ou finjo lembrar, porque a memória também inventa suas delicadezas – do som seco da bola no piso, quase uma vírgula entre o silêncio e o destino. Antes do arremesso, havia sempre um país em suspenso. Não era apenas esporte. Era uma pausa nacional, um daqueles instantes raros em que o Brasil, tão disperso em si mesmo, parecia caber dentro de um gesto, da parábola de um arremesso e do chuá.

Chamaram-no de Mão Santa. E é bonito, sem dúvida. Mas talvez fosse pouco. A santidade sugere milagre, e Oscar, ao contrário, era teimosamente humano. Sua grandeza não vinha do inexplicável, mas da insistência. Havia ali disciplina, repetição, um certo cansaço acumulado que só os obstinados conhecem, uma quase teimosia. O talento, nele, não caiu do céu; foi arrancado do chão, gota por gota, suor por suor.

Enquanto o mundo olhava para a NBA como quem olha para um altar estrangeiro, ele escolheu ficar. Há nisso uma espécie de patriotismo silencioso, que não precisa de discurso. Vestir a camisa amarela, para Oscar, não era um detalhe, mas o próprio enredo. E com ela escreveu capítulos que os números tentam, em vão, traduzir. Porque números, convenhamos, são frios, e Oscar era febre.

Mais de mil pontos em Olimpíadas. Quase cinquenta mil na carreira. Impressiona, claro. Mas o que permanece não cabe em estatística. Permanece a sensação – essa troço impreciso e teimoso – de que, por alguns segundos, o impossível era apenas uma questão de cálculo e coragem. Aquela final do Panamericano de 1987 contra os Estados Unidos, em Indianapolis, não foi somente uma vitória. Foi uma espécie de declaração: o Brasil podia. E podia sem pedir licença, sem abaixar a cabeça, sem traduzir seus sonhos para caber no idioma alheio.

Depois veio o tempo, um adversário invencível que não se deixa driblar. E veio a doença, que não respeita biografia nem talento. Oscar lutou como sempre jogou, até o último segundo, como se cada instante fosse decisivo. Há uma dignidade nisso que comove. Não a dignidade das palavras bonitas, mas a dos gestos firmes, repetidos, comedidos, quase silenciosos.

Agora, dizem, é o fim. Mas há fins que são apenas mudanças de lugar. Não é o silêncio da ausência que se instala, e sim aquele silêncio respeitoso que antecede o aplauso. Em algum lugar, talvez numa quadra vazia, talvez na imaginação de um menino, ainda é possível ou vir a bola quicar e depois acompanhá-la subindo, limpa, precisa e obediente. Como se o gesto permanecesse no ar, recusando-se a cair – mas cai, inevitavelmente. E cai onde sempre caiu: no lugar certo. Porque há homens que erram, e há aqueles que transformam o acerto em hábito. Oscar foi destes. E, por isso, escapa ao esquecimento, o grande cemitério dos comuns.

Hoje, o Brasil perde um corpo, é verdade. Mas ganha uma permanência. Porque certos homens não se aposentam; continuam jogando na memória dos outros. No menino que segura uma bola e acredita. No adulto que, por um instante, volta a acreditar também.

Talvez seja isso o que importa. Não o número de pontos, nem as vitórias acumuladas, mas a capacidade de deixar acesa uma chama. Oscar deixou. E ela não se apaga com a morte, pois como toda boa chama, ele aprende a viver no invisível.

Em paz segue aquele que nunca jogou apenas por si. A quadra pode até estar vazia. Mas o jogo, meus caros, não acabou.

posts relacionados
Logo do blog 'a história em detalhes'
por Sérgio Trindade
logo da agencia web escolar