A cesta eterna: a partida definitiva de Oscar Schmidt
Saí do trabalho por volta da 17h de ontem e, chegando em casa, fui sacudido pela notícia da morte de Oscar Schmidt, o Mão Santa – que, segundo ele, nada tinha de santa, e sim de treinada.

Imagem feita com auxílio de IA
Varei a noite assistindo lances geniais do maior jogador de basquete que o Brasil já produziu e lendo matérias sobre ele. E depoimentos de lendas do basquete e de atletas de outras modalidades, de jornalistas, etc.
Não há o que dizer, exceto que Oscar figura na prateleira daqueles homens que, sem pedir licença, transformam a própria travessia em espetáculo.
Oscar não atravessou a quadra, ele fundou um território.
Lembro – ou finjo lembrar, porque a memória também inventa suas delicadezas – do som seco da bola no piso, quase uma vírgula entre o silêncio e o destino. Antes do arremesso, havia sempre um país em suspenso. Não era apenas esporte. Era uma pausa nacional, um daqueles instantes raros em que o Brasil, tão disperso em si mesmo, parecia caber dentro de um gesto, da parábola de um arremesso e do chuá.
Chamaram-no de Mão Santa. E é bonito, sem dúvida. Mas talvez fosse pouco. A santidade sugere milagre, e Oscar, ao contrário, era teimosamente humano. Sua grandeza não vinha do inexplicável, mas da insistência. Havia ali disciplina, repetição, um certo cansaço acumulado que só os obstinados conhecem, uma quase teimosia. O talento, nele, não caiu do céu; foi arrancado do chão, gota por gota, suor por suor.
Enquanto o mundo olhava para a NBA como quem olha para um altar estrangeiro, ele escolheu ficar. Há nisso uma espécie de patriotismo silencioso, que não precisa de discurso. Vestir a camisa amarela, para Oscar, não era um detalhe, mas o próprio enredo. E com ela escreveu capítulos que os números tentam, em vão, traduzir. Porque números, convenhamos, são frios, e Oscar era febre.
Mais de mil pontos em Olimpíadas. Quase cinquenta mil na carreira. Impressiona, claro. Mas o que permanece não cabe em estatística. Permanece a sensação – essa troço impreciso e teimoso – de que, por alguns segundos, o impossível era apenas uma questão de cálculo e coragem. Aquela final do Panamericano de 1987 contra os Estados Unidos, em Indianapolis, não foi somente uma vitória. Foi uma espécie de declaração: o Brasil podia. E podia sem pedir licença, sem abaixar a cabeça, sem traduzir seus sonhos para caber no idioma alheio.
Depois veio o tempo, um adversário invencível que não se deixa driblar. E veio a doença, que não respeita biografia nem talento. Oscar lutou como sempre jogou, até o último segundo, como se cada instante fosse decisivo. Há uma dignidade nisso que comove. Não a dignidade das palavras bonitas, mas a dos gestos firmes, repetidos, comedidos, quase silenciosos.
Agora, dizem, é o fim. Mas há fins que são apenas mudanças de lugar. Não é o silêncio da ausência que se instala, e sim aquele silêncio respeitoso que antecede o aplauso. Em algum lugar, talvez numa quadra vazia, talvez na imaginação de um menino, ainda é possível ou vir a bola quicar e depois acompanhá-la subindo, limpa, precisa e obediente. Como se o gesto permanecesse no ar, recusando-se a cair – mas cai, inevitavelmente. E cai onde sempre caiu: no lugar certo. Porque há homens que erram, e há aqueles que transformam o acerto em hábito. Oscar foi destes. E, por isso, escapa ao esquecimento, o grande cemitério dos comuns.
Hoje, o Brasil perde um corpo, é verdade. Mas ganha uma permanência. Porque certos homens não se aposentam; continuam jogando na memória dos outros. No menino que segura uma bola e acredita. No adulto que, por um instante, volta a acreditar também.
Talvez seja isso o que importa. Não o número de pontos, nem as vitórias acumuladas, mas a capacidade de deixar acesa uma chama. Oscar deixou. E ela não se apaga com a morte, pois como toda boa chama, ele aprende a viver no invisível.
Em paz segue aquele que nunca jogou apenas por si. A quadra pode até estar vazia. Mas o jogo, meus caros, não acabou.