Entre o grito das redes e o silêncio das antigas praças de interior
Na praça antiga das cidades de interior havia bancos de madeira, de cimento, de pedras… Neles, os velhos se sentavam ao fim da tarde para conversar sobre chuva, filhos gratos e ingratos, dores no joelho e política. Ninguém saía dali convertido, mas todos saíam humanos, porque conversar não era vencer e, sim, repartir silêncio e palavra, amores e desamores, vitórias e derrotas, alegrias e sofrimentos.
Hoje, as praças mudaram de tamanho, de formato e de material. São feitas de vidro luminoso e cabem no bolso e na palma da mão. Não têm árvores, nem pássaros, nem bancos, nem gente passeando, e nem o cheiro morno do chão depois da água da chuva. Têm notificações. Nelas, multidões se reúnem para falar sem olhar, condenar sem ouvir e aplaudir sem pensar. São praças sem bancos: ninguém se senta e todos se atropelam.
Vi, dia desses, mais uma dessas discussões que nascem prontas para não dar fruto. De um lado, a indignação justa contra toda forma de humilhação dirigida às mulheres. De outro, o temor de que a lei, ao vestir armadura demais, acabe ferindo a liberdade que pretendia proteger. Dois sentimentos legítimos, ambos filhos de dores reais. No entanto, quando chegaram à praça de vidro, vieram armados como exércitos. Logo, a palavra misoginia apareceu como espada e a palavra democracia foi sacada como escudo. E, no choque entre espada e escudo, ninguém perguntou o essencial: Que ferida humana está por trás de cada grito?
Há homens que desprezam mulheres e vice-versa. Há mulheres que carregam séculos de cansaço. Há leis necessárias e há abusos possíveis. Há ideias conservadoras honestas e há ideias progressistas generosas. Há também canalhas em todos os partidos da alma. O problema começa quando trocamos pessoas por rótulos, como quem cola etiquetas em potes e julga conhecer o conteúdo. Quando chamamos alguém de inimigo, deixamos de escutar, e quando isso ocorre, a inteligência fecha as janelas.
Sempre me espantou a facilidade com que pessoas amam prisões, desde que sejam construídas para os outros. Há quem deseje prender os que ofendem e há quem deseje calar os que denunciam. Ambos acreditam estar salvando o mundo. Talvez estejam apenas decorando celas, porque, ora, a liberdade é um pássaro delicado, que morre tanto nas mãos da tirania declarada quanto nos dedos bem-intencionados do moralismo. Ela precisa de cuidado, não de gritos; de responsabilidade, não de revanche; de gente capaz de sustentar a tensão de conviver com opiniões que detesta, sem por isso abrir mão de combatê-las com palavra, argumento, tolerância e exemplo. Isto, meus três ou quatro leitores, dá trabalho. E nosso tempo prefere botões e cliques. Aperta-se um botão e alguém é cancelado. Aperta-se outro e alguém vira mártir. Aperta-se outro e uma multidão repete slogans como crianças que decoraram a tabuada sem saber para que servem os números.
As redes sociais nos prometeram voz e entregaram eco. Talvez por isso sinto saudade dos bancos de praça de muito antes. Neles, se um homem dissesse tolices sobre mulheres, uma senhora de coque poderia corrigi-lo com a firmeza de quem já lavou muita roupa e criou muitos filhos. Se outro defendesse censura, um aposentado lhe contaria histórias de tempos em que se cochichava por medo. Havia menos teoria e mais biografia. Menos pose e mais cicatriz.
O mundo seria melhor se aprendêssemos a discutir como quem cuida de um jardim. Arranca-se o mato, sim. Sem destruir, porém, a roseira. Poda-se o excesso, sim, sem arrancar a raiz. Corrige-se a injustiça, sim, sem fazer da justiça um novo nome para a vingança. Não sei qual lei resolverá nossos impasses. Desconfio das leis que prometem curar a alma humana, porque a alma costuma driblar códigos e sentenças. Sei apenas que nenhuma sociedade floresce quando mulheres são humilhadas e maltratadas e nenhuma democracia amadurece quando opiniões viram caso de polícia apenas por serem opiniões.

Imagem feita com o auxílio de IA
Entre o insulto e a mordaça existe um caminho estreito e difícil: o da civilização. E ele exige paciência, virtude raríssima. Exige escuta, dom quase extinto. Exige coragem para responder palavras com palavras, e violência com lei justa – não com desejo de vingança.
Já cometi erros de vingança por agressão sofrida, quando deveria ter sacado a lei ou silêncio misericordioso. Não sou vestal e, por isso, não digo que nunca mais cometeria o erro. Policio-me, e não o cometerei por açodamento, é certo.