A neo-Bruzundanga: da fraude honesta à democracia de algemas

por Sérgio Trindade foi publicado em 15.abr.26

Depois de reler partes da biografia de Luís Carlos Prestes, escrita pelo professor Daniel Aarão Reis, fui assistir noticiários na TV e vi que o relatório da CPI do Crime Organizado foi derrotado por 6 a 4. Procurei algo na internet e vi que o relator indiciou três ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e o Procurador Geral da República. Incontinenti, Gilmar Mendes e Dias Toffoli, dois dos ministros indiciados, foram a campo com ameaças e tal. Não discuto a qualidade do trabalho do relator da CPI (não o li e, portanto, não tenho como opinar sobre o que não conheço), mas tenha sido o trabalho bom ou ruim, caberia à Comissão derrotá-lo, como o fez. Se tivesse sido aprovado, haveria outras etapas, não cabendo ao STF, como instituição, tampouco os ministros individualmente qualquer manifestação sobre o caso.

Como o Brasil perdeu prumo há um bom, tempo, ministros do Supremo ameaçam parlamentarem – e fica por isso mesmo.

A leitura da biografia de Prestes e o evento envolvendo membros da CPI e ministros do STF me levaram a matutar sobre como o sistema político brasileiro piorou, desde a república velha – muito criticada, açoitada e vilipendiada, mas que tinha um sistema político muito mais saudável.

Antes que me perguntem, por qual motivo os dois assuntos me empurraram para a república velha, explico.

A aura prestista pouco tem a ver com o histórico de Prestes no Partido Comunista, e sim com a liderança (o comando era de Miguel Costa) que ele exerceu na Coluna batizada com o seu nome e que andou pelo país inteiro combatendo a república velha. Pensando isso, fui buscar na estante Os Bruzundangas, de Lima Barreto, aquele mulato (serei cancelado por usar o termo?) magnífico e desesperado, que olhou para o Brasil da república velha e viu uma nação que vivia uma chanchada de fraque e cartola. Ele riu um riso de quem tem o fígado corroído pela lucidez. Ao reler a República dos Bruzundangas, um país de trapalhadas e encrencas institucionais, sinto nostalgia lancinante. Que saudade daquela pseudodemocracia de outrora, pois vejam bem, meu três ou quatro leitores, e que aquele pessoal da rede neuronial bipolar formada por burguesia e proletariado não me interrompa: na república velha, o sujeito podia chamar o Presidente da República de coronel de opereta e terminar a noite num botequim, afogado em parati. Hoje, o Brasil descobriu o inquérito perpétuo, a investigação que não termina, que não descansa, que não dorme e que tem a vitalidade de um vampiro de subúrbio. Vivemos a era da democracia de cristal, na qual qualquer sopro de crítica é tratado como um atentado terrorista contra as instituições.

​Lima Barreto zombava do federalismo de fachada, da hegemonia de Minas Gerais e São Paulo, os estados do boi e do café. Era um sistema de cartas marcadas, sim. Havia a degola das oposições na Comissão de Verificação de Poderes. Mas era tudo tão… humano e tão escancaradamente mambembe, que é possível rir. O coronelismo tinha a honestidade da fraude boba. O sujeito fraudava a urna, empastelava jornais, espancava jornalista, mas não tentava reescrever a gramática ou prender o pensamento.

​Naqueles tempos, a perseguição política era um duelo de cavalheiros embriagados. O governo perseguia? Sim. O marechal Hermes da Fonseca, aquele de uma ignorância monumental, podia até se irritar, mas Lima Barreto continuava escrevendo, cutucando o “falso brilho” das elites com sua caneta de gênio. Ele chamava as instituições de “pretensamente democráticas” e ninguém ousava dizer que ele estava “atentando contra o Estado Democrático de Direito”. Hoje, ah, hoje somos mais sofisticados. Temos o Supremo Tribunal Federal (STF), esse Olimpo de toga onde o arbítrio se veste de códigos e hermenêutica. Sob o comando de figuras como Alexandre de Moraes, o país mergulhou numa espécie de suspense judiciário que faria Hitchcock parecer um amador. Criou-se o crime de opinião sem corpo de delito. O tiranete contemporâneo não precisa de exércitos nas ruas, visto ele ter a caneta, o algoritmo e o inquérito do fim do mundo.

Duvidam do que digo?

​Vamos aos fatos, que são o terror dos visionários. Na república velha, tínhamos o episódio tenebroso de Clevelândia do Norte, para onde eram mandados os rebeldes. Era o inferno no Oiapoque. Uma mancha, sem dúvida. Mas havia um limite: o crime era a revolta armada, o levante, o canhão. Hoje, a caça é mais sutil e, por isso mesmo, mais perversa. Não se manda o dissidente para o Amapá, retira-se o seu ar digital. Cassam-se redes sociais, suspendem-se blogs e portais de notícias, bloqueiam-se contas bancárias, decreta-se a morte civil do indivíduo com um clique. O opositor de hoje não é um revolucionário de barricada, e, sim, um sujeito que, num excesso de zelo ou de bílis, postou um adjetivo impublicável numa rede social. E por esse adjetivo, o STF cai sobre ele com o peso de dez mil toneladas de mármore de Carrara.

Comparando as eras, percebemos que a liberdade de expressão na república velha era um campo aberto, embora esburacado. Hoje, é um campo minado onde o Supremo é o dono das minas e do mapa. Lima Barreto podia ridicularizar o sistema institucional inspirado no modelo norte-americano e dizer que era uma farsa. Se Lima Barreto vivesse hoje e descrevesse a Bruzundanga atual, com seus ministros que agem como deuses vingativos, ele não estaria no hospício e, sim, com a conta bancária bloqueada e uma tornozeleira eletrônica no tornozelo de gênio.

​​O livro de Lima Barreto, Os Bruzundangas, é a certidão de nascimento da nossa incapacidade de sermos sérios. Ele retratou um país onde os títulos valiam mais que a cultura, onde o Doutor era uma entidade mística. Mas nem Lima, no seu delírio mais alcoólico, poderia prever uma democracia onde se defende a liberdade… censurando. Onde se protege o debate… calando o debatedor.

​A ironia é que a república velha, com a sua política dos governadores e seu voto de cabresto, era mais transparente na sua imperfeição. Sabia-se quem mandava e por que mandava. Hoje, vivemos sob o império da subjetividade jurídica. O que é desinformação? O que é ataque às instituições? Ninguém sabe. Depende do humor matinal de um ministro. É a tirania da interpretação.

​O contraste é claro, cristalino. Na república velha, governo era formado por uma oligarquia de fazendeiros que queriam dinheiro. Se você não atrapalhasse o café, podia escrever o que quisesse. Na nova república de hoje, o poder é uma oligarquia de burocratas que querem o monopólio da verdade. Se você questionar a narrativa oficial, você é um perigo para a democracia.

​A conclusão é óbvia, meus caríssimos leitores.

Imagem feita com auxílio de IA

​O que Lima Barreto nos ensinou, e que hoje esquecemos, é que as instituições brasileiras são, por natureza, uma paródia. Quando o STF se arroga o direito de caçar e cassar quem se opõe ao poder de plantão sob o pretexto de salvar a república, ele está apenas encenando o último ato dessa comédia de erros que é o Brasil.

​A pseudodemocracia da república velha era, sim, mais democracia que o nosso regime atual. Porque nela, o cidadão ainda tinha o direito ao grito, à vaia e ao deboche. Hoje, a vaia pode custar a liberdade, e o deboche é tratado como crime de lesa-pátria. Estamos todos potencialmente no inquérito imorrível. O Brasil de Lima Barreto era um país que fingia ser sério. O Brasil de hoje é um país que finge ser livre. E, entre a farsa de ontem e a desfaçatez de hoje, eu fico com o boteco do Lima, onde se podia falar mal do governo sem que um oficial de justiça brotasse do chão para nos levar o pão e a palavra.

​O resto é silêncio. Ou melhor: o resto é censura prévia, com selo de garantia do Judiciário. Que Lima Barreto nos perdoe, afinal nós conseguimos ser piores do que a caricatura que ele desenhou.

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