Sócrates no Beco da Lama

por Sérgio Trindade foi publicado em 29.maio.26

Chovera torrencialmente na noite anterior e naquela manhã de sábado caía uma chuva miúda. Não dessas chuvas dramáticas que fazem o sujeito pensar na morte ou telefonar para antigas namoradas. Era uma água cansada, fina, quase sem vontade de cair e que escorria pelas vitrines e fachadas das lojas, pingava nos toldos, corria lenta pelas calçadas e pelas ruas e deixava a cidade com um brilho sujo de peixe velho.

Entrei no bar para fugir dela.

O bar tinha um cheiro antigo de gordura requentada, cigarro esquecido nas paredes, conversa perdida e amores proibidos. Havia um toca-discos atrás do balcão, daqueles que tocavam músicas de dor-de-cotovelo e ao seu lado um rádio que transmitia notícias de um país condenado há muitos anos. O dono do estabelecimento secava copos com um pano escuro e olhava para a televisão, pregada na parede, como quem olha para uma enchente devastadora. Passei mais vagarosamente a vista pelo lugar e vi um velho sentado num canto. Usava sandálias franciscanas, carregava uma tosse seca e tinha os olhos fatigados dos homens que já fizeram perguntas demais na vida. Mexia devagar o café frio, como quem procura alguma resposta no fundo da xícara. Fez um gesto com a mão em minha direção. Fui até ele e me sentei num tamborete.

Ele perguntou:

– Você ainda acredita na democracia?

Achei curioso. Hoje ninguém pergunta mais se o sujeito acredita em Deus, na honestidade, na lealdade ou no amor. A pergunta mudou. Querem saber em quem você votou. O brasileiro olha primeiro para o partido do homem; o caráter vem depois, se sobrar tempo.

Olhei melhor para o velho e o reconheci: era Sócrates. Não o doutor da bola. O outro. O grego, aquele homem condenado porque fazia perguntas numa cidade cheia de certezas.

A televisão mostrava um deputado discursando contra a corrupção com indignação tão perfeita que chegava a emocionar. Debaixo da imagem corria a notícia de uma investigação envolvendo o mesmo cidadão. Logo apareceu outro parlamentar defendendo a família brasileira com voz patriótica e dedo em riste. Tinha amante, assessor fantasma, cunhado preso e filho propineiro.

Sócrates sorriu daquele jeito triste que alguns velhos têm diante da juventude.

– Atenas mentia menos – disse.

O brasileiro transformou a hipocrisia numa espécie de artesanato nacional. Rouba em nome da moral, trapaceia em nome da pátria, mente para defender a verdade e mata sem motivo dizendo que o fez para defender a vida. E faz tudo com um ar solene, como se estivesse ajudando uma senhora a atravessar a rua.

No fundo do bar, um homem de boné discutia política com um apontador de jogo do bicho. Perto da porta, um rapaz explicava economia internacional enquanto apertava o ketchup num pastel murcho e sem qualquer recheio. O dono, que estava no caixa, assistia a tudo com olhar bovino. Depois de mostrar todos a Sócrates, falei que agora todos opinam sobre tudo. Guerra, vacina, inflação, filosofia, fim do mundo, inteligência artificial, Roma Antiga, bolsa de valores. O sujeito lê duas frases na internet e sai por aí corrigindo historiador, médico, astrônomo, engenheiro, advogado.

Sócrates levou a mão ao rosto. Parecia cansado.

– Foi exatamente isso que temi – murmurou.

Pensar dá trabalho. Obriga o homem a desconfiar da própria cabeça. Ninguém gosta disso. O brasileiro prefere escolher um lado e torcer. Transformamos a política numa final de campeonato. Cada grupo possui seus santos, seus mártires e seus canalhas favoritos. As pessoas já não conversam. Mostram os dentes. Outro dia li um sujeito escrevendo na internet que era preciso salvar a democracia destruindo os inimigos dela. Achei uma frase bonita de tão absurda. Lembrou aqueles maridos violentos que dizem bater por amor.

Sócrates ouviu calado. Depois pediu mais café.

O dono do bar, um senhor alto e magro, de rosto cansado e ombros curvados, trouxe a garrafa e despejou o conteúdo na xícara sem pressa. Trabalhava desde os 12 anos. Hoje, com mais de 60 anos, não tinha mais energia para gastar em discussões que considerava inúteis. Para ele, o país perdera a compostura. Sócrates agradeceu olhando-o nos olhos Isso o impressionou, afinal os homens hoje já não olham nos olhos de ninguém. Olham para telas, brigam com telas, amam e odeiam através de telas e vivem apenas e tão-somente para as telas.

Lá fora passou uma motocicleta fazendo um barulho infernal. Um cachorro latiu na chuva. A televisão continuava despejando escândalos com a tranquilidade burocrática de um ventilador. Então o velho começou a falar de sua cidade, dizendo que os atenienses antigos gostavam de discursos inflamados. Bastava um homem subir numa pedra e prometer grandeza, heroísmo, vingança e prosperidade para a multidão começar a delirar. Pouco importava se o orador era honesto ou um pulha. A multidão nunca teve muito interesse pela verdade. Ela gosta de esperança barulhenta.

Enquanto o velho falava, o bar foi enchendo. Entraram dois rapazes discutindo eleição. Depois surgiu um sujeito de camisa verde reclamando do Supremo Tribunal Federal (STF). Logo apareceu um professor indignado com o capitalismo. Um motorista de aplicativo berrava contra os impostos. Um estudante falava em revolução sem conseguir pagar o próprio cigarro. E uma mulher lançava vitupérios contra todos dos homens, os quais, dizia, eram assediadores e estupradores.

Todos falavam ao mesmo tempo. Ninguém escutava ninguém. Era curioso ver como cada um carregava sua verdade com o orgulho de quem transporta uma santa milagrosa em procissão.

Sócrates olhou aquilo em silêncio e comentou:

– Uma cidade começa a adoecer quando perde o gosto pela dúvida.

Achei bonito aquilo, pois a dúvida anda desprestigiada. As pessoas hoje desejam respostas rápidas, certezas compactas, opiniões que caibam num vídeo curto e análises tão profundas quanto um prato raso. O algoritmo transformou cada ignorante num pequeno profeta eletrônico. Ele abre um canal e passa a dizer todas as suas certezas.

Conheci um rapaz que, depois de assistir a meia dúzia de vídeos, resolveu explicar Platão para um professor aposentado de filosofia que passara a vida estudando… Platão. Falava com a segurança de um ministro da Fazenda. Citava frases inventadas. Misturava Grécia Antiga com coaching financeiro. Terminou dizendo que Sócrates teria feito sucesso nas redes sociais.

Olhei para o velho. Ele estava sério. Talvez imaginasse a própria desgraça reduzida a frases motivacionais sobre liderança e autoconhecimento.

Era possível, quem sabe, dizer a tragédia política nunca mudou muito. Mudam os nomes, as roupas, os discursos e os slogans, o homem, porém, continua sendo um animal facilmente hipnotizado por raiva coletiva. A multidão é corajosa porque é plural. Sozinho, o sujeito hesita. Em grupo, perde o medo e a lucidez. Já vi homem pacato virar fera por causa de política. Já vi amizade acabar por causa de candidato. Família deixar de se falar. Filho tratar pai como inimigo histórico. Tudo isso diante de políticos que, terminado o discurso, entram juntos no mesmo restaurante. A esquerda fala em amor carregando pedras nos bolsos; a direita fala em moralidade enquanto se refestela em propinas. E o povo vai pulando de salvador em salvador como quem troca de remédio milagroso.

Já era tarde quando perguntei a Sócrates se ainda havia alguma esperança para a democracia.

Ele demorou a responder. Olhou primeiro para o dono do bar, que recolhia pratos vazios enquanto um deputado na televisão prometia um futuro grandioso para o país. Depois falou baixo:

– A democracia presta quando faz os poderosos temerem homens assim.

Fez um pequeno gesto na direção do rapaz.

– O desastre começa quando homens assim passam a temer os poderosos.

Imagem feita com auxílio de IA

Ninguém no bar ouviu. Todos continuavam discutindo, berrando, vociferando e repetindo frases retiradas da internet como rezas de uma religião nervosa.

Sócrates levantou-se devagar e pagou o café.

Na televisão, outro político discursava sobre ética com um entusiasmo quase religioso. Atrás dele apareceu um assessor carregando uma mala escura pelo corredor. Desta vez, maior.

O velho ajeitou as sandálias e saiu para a chuva fina.

Fiquei olhando a porta aberta por alguns segundos.

Depois o garçom veio limpar a mesa.

A cidade continuava lá fora, acesa, barulhenta e perdida, cheia de homens absolutamente convencidos de que estavam certos.

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