Gramática de Toga: o Supremo corrige o sujeito e esquece o predicado

por Sérgio Trindade foi publicado em 23.abr.26

Há um Brasil oficial, o das togas bem passadas, dos gabinetes refrigerados e das frases em latim, e há o Brasil real, onde o verbo raramente concorda com o sujeito e a crase é uma miragem. O problema começa quando o primeiro resolve rir do segundo sem perceber que vive, justamente, para julgá-lo.

O mais recente capítulo desse descompasso ganhou forma no entrevero entre o ex-governador Romeu Zema e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes. Zema, em franca pré-temporada presidencial, decidiu fazer o que todo aspirante ao Planalto faz: bater no STF como quem bate ponto na trabalho. Elevou o tom, mirou decisões, criticou posturas e, como manda o figurino, tentou se apresentar como a voz da sensatez contra os excessos da corte. Até aí, nada de novo sob o sol. O roteiro é conhecido, gasto, previsível e quase normal.

A novidade  (ou nem tanto) veio na resposta. Gilmar, em vez de entrar no mérito, resolveu fazer troça do português de Zema. Um comentário aqui, outro ali, aquele ar de professor cansado corrigindo redação de aluno desatento. E pronto: o debate institucional virou aula de gramática com plateia.

É curioso, meus três ou quatro leitores. Porque, se a régua é o português escorreito, o Brasil inteiro estaria reprovado, inclusive boa parte de seus protagonistas políticos. O próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva já protagonizou um desfile considerável de tropeços linguísticos ao longo da carreira. Trocas de palavras, construções tortas, concordâncias que pedem socorro, nada exatamente raro num país onde a norma culta é mais aspiração do que prática cotidiana. E, no entanto, nunca se viu o ministro transformar isso em chacota pública. Isso vale para a governadora Fátima Bezerra, cujo português, por vezes, também escapa pelas bordas da formalidade acadêmica. Expressões populares, pronúncias carregadas, pequenos deslizes, tudo absolutamente comum no Brasil profundo que elege seus representantes. Mas, de novo, silêncio respeitoso.

E quando o erro vem de dentro? Quando decisões judiciais, inclusive no próprio Supremo, aparecem com deslizes de redação, digitação ou construção? Nem por isso Gilmar abriu a temporada de ironias contra colegas como Alexandre de Moraes. A toga, ao que parece, também funciona como corretor automático.

O ponto não é defender o erro. Ninguém está propondo a abolição da gramática, muito embora ela, coitada, já viva em estado comatoso há décadas. O ponto é outro: a seletividade, pois há algo de profundamente revelador quando o rigor linguístico aparece apenas como instrumento de desqualificação política. Não é sobre o português e, sim, sobre quem pode ser ridicularizado sem custo – e quem não pode.

Imagem feita com auxílio de IA

O Brasil é um país onde milhões mal dominam a leitura básica. Onde a escola pública, em larga medida, falhou em entregar o mínimo. Onde a norma culta virou símbolo de distinção social, não de comunicação eficiente. Rir disso, vindo de quem ocupa o topo da estrutura institucional, não é exatamente espirituoso. É, no mínimo, um pouco desconectado. Ou, sendo mais direto: é fácil fazer graça com o erro alheio quando se fala do alto. Mais difícil é reconhecer que esse “erro” é, na verdade, a língua viva de um país desigual. Um país que não cabe na gramática normativa, mas insiste em existir, com suas concordâncias improváveis e seus verbos insurgentes.

Zema pode até estar jogando para a plateia, e provavelmente está. Mas a resposta de Gilmar revela outra coisa, a saber, uma certa incapacidade de distinguir o essencial do acessório. Em vez de rebater o argumento, corrige-se a vírgula. Em vez de discutir o conteúdo, ri-se da forma. Um dos supremos do Supremo corrige o sujeito e esquece o predicado, corrige a fala dos outros e esquece seus atos

No fim das contas, sobra a impressão de que o Brasil oficial ainda não entendeu o Brasil real. Ou pior: entendeu, mas prefere rir dele. E talvez esse seja o verdadeiro erro – não de português, mas de percepção.

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