A vitória pertence a quem define a realidade

por Sérgio Trindade foi publicado em 21.jun.26

Estive analisando os dados de vários institutos de pesquisa do Rio Grande do Norte (dei atenção maior, nos últimos dias, à pesquisa da Metadata, sobre a qual vou escrever posteriormente), todas interseccionadas no Agregador de Pesquisas do Instituto Potiguar de Pesquisas Estatísticas (Insppe) e tenho percebido, por parte de políticos, juristas, analistas e cientistas políticos, entre outros, certo incômodo com os dados disponibilizados. Muitos creem, sem qualquer base sólida para tal, e isso é típico das crenças, que tais dados induzem o eleitor. Há muito pano para manga aí (e também escreverei sobre um dia), mas não é sobre isso que escrevo, ainda que o tema do artigo tangencie o assunto.

Pesquisas políticas e eleitorais determinam estratégias de campanha e os caminhos da comunicação dos candidatos.

A maioria dos políticos( e dos eleitores) acredita que a comunicação existe para explicar aquilo que foi feito. Quando descobrem que a população não percebe os seus feitos com o mesmo entusiasmo, recorrem a apresentações intermináveis, relatórios, números, gráficos e justificativas. Falam mais alto, empostam a voz, repetem mais vezes e produzem mais propaganda. O resultado costuma ser decepcionante, porque comunicação política não serve para explicar e, sim, para definir como os fatos serão vistos e/ou interpretados.

Os fatos evidentemente importantes. Uma ponte construída continua sendo uma ponte, uma escola inaugurada continua sendo uma escola, uma estrada recuperada continua sendo uma estrada, um hospital bem equipado continua sendo um hospital, mas os fatos, isoladamente, não possuem voz própria. Eles não caminham sozinhos até a consciência popular. Precisam de contexto, significado, direção e sentido.

Imagem feita com auxílio de IA

A política nunca foi uma disputa de fatos. Sempre foi uma disputa de narrativas. Quem compreende isso conquista multidões. Quem ignora acumula obras e perde eleições, porque o cidadão comum não organiza sua visão de mundo por meio de planilhas. Organiza-a por meio de histórias. Histórias que explicam quem são os responsáveis pelos problemas, quais obstáculos impedem a solução e para onde a sociedade deve caminhar. Por isso toda narrativa política forte possui cinco elementos facilmente identificáveis:

1) Nada mobiliza uma sociedade em torno de um tema confuso; o povo precisa compreender o que está errado.

2) É necessário um obstáculo definido. Sem ele não existe conflito, e sem conflito não existe interesse. Ou seja, alguém ou alguma coisa precisa representar aquilo que impede o avanço.

3) Deve haver um propósito mobilizador, pois as pessoas não seguem administradores. Elas seguem causas, objetivos capazes de despertar esperança, orgulho, vaidade ou indignação.

4) É preciso mostrar resultados concretos. A narrativa não pode viver apenas de promessas. Ela necessita de evidências que reforcem a história contada.

5) Aponte o futuro. Nenhuma liderança prospera olhando o mundo apenas pelo retrovisor. O eleitor quer acreditar que amanhã será melhor do que hoje.

Sem esses cinco elementos pode haver gestão, eficiência administrativa, equilíbrio fiscal, obras e serviços, mas não haverá liderança percebida. E a política é feita, sobretudo, de percepção.

Os adversários mais perigosos nem sempre são aqueles que administram melhor. Quase sempre são aqueles que contam melhor a história, aqueles que definem o significado das realizações perante a opinião pública. É uma lição antiga que muitos insistem em ignorar.

A política não recompensa necessariamente quem fez mais. Muitas vezes recompensa quem conseguiu convencer a sociedade de que compreendeu seus problemas, enfrentou seus obstáculos e oferece um futuro plausível, porque a realidade não fala por si mesma. Ela, a realidade, é interpretada e quem não constrói essa interpretação entrega ao adversário o privilégio de fazê-lo.

Poucas imprudências custam tão caro quanto essa.

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