A fadiga Bolsonaro
Há instantes singularmente curiosos nas democracias de massa. Aquele em que um político deixa de inspirar raiva e começa a produzir cansaço é uma deles. A raiva mobiliza, enquanto o cansaço dissolve. Um líder pode conservar militantes inflamados, defensores apaixonados, multidões digitais trabalhando dia e noite em sua absolvição moral e uma elite política disposta a segui-lo se identificar no adversário dele um risco. Ainda assim, alguma coisa se desloca no humor coletivo se o eleitor olhar para aquele personagem e concluir, silenciosamente, que talvez já tenha problemas demais na vida para adotar mais um. As pesquisas divulgadas na segunda quinzena de maio de 2026 sugerem que o senador Flávio Bolsonaro entrou justamente nessa fase delicada da trajetória política, aquela em que o candidato ainda preserva fervor no núcleo duro, mas começa a provocar desconforto nos arredores da própria base.
O detonador da crise foi a revelação, pelo The Intercept Brasil, de áudios e mensagens envolvendo o senador e o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. As conversas tratavam da cobrança de recursos destinados ao financiamento de um projeto cinematográfico biográfico chamado Dark Horse. O conteúdo não produziu um terremoto institucional, não derrubou ministros, não abriu processos espetaculares, não gerou panelaços, mas fez algo mais sutil e talvez mais perigoso: introduziu dúvida.
Política presidencial costuma funcionar como mercado financeiro. O investidor não abandona um ativo apenas quando ele quebra. Abandona quando percebe perda de confiança no ambiente. Foi isso que os levantamentos começaram a captar.
A sucessão de números divulgados por AtlasIntel/Bloomberg, Datafolha, BTG/Nexus e Indexa revelou um movimento relativamente homogêneo: o presidente Lula consolidou vantagem, enquanto Flávio Bolsonaro perdeu terreno. O detalhe mais interessante reside menos na queda em si do que no destino desses votos evaporados. Eles não migraram majoritariamente para Lula. Espalharam-se por candidaturas laterais da direita e do centro-direita, como as de Romeu Zema, Ronaldo Caiado e até figuras improváveis como Renan Santos.
O AtlasIntel foi o primeiro a perceber o fenômeno. Entre abril e maio, Flávio recuou de 39,7% para 34,3%. Lula apareceu com 47%. Em condições normais, uma queda de cinco pontos numa campanha ainda distante da votação poderia ser tratada como oscilação estatística com excesso de interpretação jornalística. O problema é que os demais institutos enxergaram movimento semelhante, com o Datafolha confirmando o refluxo: Lula, 40%; Flávio, 31%. Nove pontos de distância. O dado produziu impacto político porque coincidiu com o auge da repercussão do caso Vorcaro. Brasília passou a funcionar naquele velho estado de excitação em que dados, conversas e análises são vazados para jornalistas, parlamentares fazem contas frenéticas, possíveis aliados começam a olhar para os lados em busca de alternativas menos arriscadas e adversários organizam baterias para alvejar o adversário.
As campanhas presidenciais brasileiras costumam ser construídas sobre duas estruturas paralelas: intenção de voto e rejeição. A primeira mede entusiasmo. A segunda mede medo. Em muitos casos, a rejeição possui peso maior. O eleitor pode até simpatizar moderadamente com um candidato, entretanto votará em outro se acreditar que o primeiro produz instabilidade, ameaça, radicalização ou fadiga.
Foi nesse terreno que a situação de Flávio Bolsonaro começou a adquirir contornos preocupantes, de acordo com os dados de levantados após o escândalo, com o senador atingindo a marca de 50% de rejeição em alguns cenários testados. Em outros, oscilou entre 46% e 50%, sempre no topo da lista. No quesito, é bom ressaltar, Lula não está bem na foto; aparece logo atrás, variando entre 45% e 47%. O país segue dividido quase ao meio, mas com uma diferença importante: o petismo já convive há vinte anos com rejeição elevada. O bolsonarismo ainda cultivava a narrativa de força insurgente, menos contaminada pela lógica tradicional do poder. O episódio Vorcaro atingiu exatamente esse ponto sensível.
Há uma ironia discreta no destino das forças moralistas da política brasileira. Elas costumam envelhecer depressa. Nascem prometendo higienização ética e terminam soterradas por negociações nebulosas, proximidade empresarial, corrupção escancarada e justificativas cinicamente constrangidas. Foi assim com udenistas, janistas, colloridos, petistas, lavajatistas e agora parece ocorrer, em alguma medida, com o bolsonarismo.
A reação do eleitorado ajuda a compreender o alcance da crise. O Datafolha incluiu perguntas específicas sobre o episódio. Sessenta e quatro por cento dos entrevistados que conheciam o caso disseram considerar errada a atitude de Flávio Bolsonaro ao pedir dinheiro a Vorcaro. Setenta e dois por cento enxergaram proximidade efetiva entre o senador e o banqueiro. São números ruins para qualquer candidato que construiu parte da própria identidade política na retórica contra os vínculos promíscuos entre poder e dinheiro.
Nem tudo, porém, se moveu contra o senador. O mesmo levantamento revelou que 67% dos eleitores que já votavam em Flávio antes das revelações afirmaram não ter alterado a confiança nele. Est’aí fidelidade afetiva, provavelmente a característica mais marcante e decisiva da política contemporânea, confirmando uma evidência extremamente relevante: o eleitorado ideológico não opera mais apenas pela análise objetiva dos fatos. Ele interpreta ataques ao líder como ataques ao grupo social e político ao qual pertence. É daí que nasce a blindagem parcial do bolsonarismo.
Existe ainda outro detalhe relevante: 36% dos entrevistados declararam desconhecer completamente o escândalo. O dado mostra como crises políticas frequentemente produzem uma espécie de ilusão ótica nas elites urbanas hiperconectadas. Jornalistas, parlamentares, artistas e usuários obsessivos de redes sociais imaginam que determinado assunto domina o país inteiro, quando parte considerável da população segue preocupada com prestação da casa e do carro, preço da carne, aumento das contas de águas e energia, fila no posto de saúde, etc.

Imagem feita com auxílio de IA
Mesmo assim, algo mudou. O eleitor moderado de direita começou a circular politicamente e essa circulação aparece de forma nítida nos índices de rejeição dos demais candidatos. Caiado registrou 32% e Zema, 34%. Até nomes exóticos do cardápio presidencial, como Cabo Daciolo, apareceram abaixo dos polos tradicionais. Rejeição baixa funciona como terreno vazio em avenida valorizada, abrindo espaço para projeção de desejo. O eleitor começa a imaginar possibilidades menos desgastadas. E foi exatamente assim que o bolsonarismo cresceu em 2018, não apenas pela força própria, mas pela saturação do sistema político anterior.
Atualmente, parte da direita parece procurar alguém que consiga conservar oposição ao PT sem carregar junto o ruído permanente do clã Bolsonaro. Zema, um personagem conhecido da imaginação liberal brasileira, encarna o tipo, afinal é um gestor silencioso, discreto, avesso ao espetáculo, adepto da planilha; Caiado representa outra tradição nacional, a saber, a do conservador regional de fala dura e previsível. Nenhum deles possui musculatura eleitoral comparável à de Lula ou do bolsonarismo. Nenhum mobiliza multidões emocionadas. Ainda assim, ambos oferecem algo raro no Brasil atual: baixa temperatura e, portanto, menor risco de instabilidade e radicalismo.
Essa talvez seja a maior novidade captada pelas pesquisas de maio. O eleitorado parece fatigado da combustão contínua. Lula já havia percebido isso. Aos oitenta anos, o antigo líder sindical deixou de vender esperança transformadora e passou a vender normalidade relativa. Não fala mais como quem promete reinventar o país e, sim, como quem oferece estabilidade suficiente para impedir o colapso cotidiano. Faz isso governando sob desaprovação elevada um país dividido, como apontam os números da Indexa: 50% desaprovam o governo; 46% aprovam. Em circunstâncias normais, um presidente com números assim encontraria oposição organizada e competitiva. Lula não encontra porque direita continua forte socialmente, mas dispersa emocionalmente.
O Datafolha percebeu esse impasse quando simulou um cenário alternativo substituindo Flávio Bolsonaro por Michelle Bolsonaro. Michelle apareceu com rejeição menor e 22% das intenções de voto, mas incapaz de absorver integralmente o eleitorado bolsonarista. O resultado desmontou duas teses opostas que circulavam em Brasília: a de que Michelle seria automaticamente mais competitiva e a de que seria eleitoralmente irrelevante. Ela parece ocupar um meio-termo desconfortável, confirmando um dado desalentador para a direita brasileira: ela continua dependente do sobrenome Bolsonaro e simultaneamente cansado dele. Eis a sinuca.
Flávio Bolsonaro ainda pode recuperar terreno. Escândalos evaporam com rapidez no Brasil, um possui que tem um metabolismo tropical da memória pública. Crises enormes desaparecem soterradas pela próxima turbulência. A nossa história recente ou remota oferece exemplos abundantes de políticos considerados acabados que reapareceram meses depois liderando pesquisas.
Algumas crises, todavia, deixam resíduos invisíveis. Embora não destruam imediatamente um candidato, alteram sua atmosfera. O sujeito continua competitivo, mantém militância, preserva recursos partidários, aparece forte nas redes sociais. Perde a sensação de expansão, aquilo que campanhas presidenciais mais necessitam.
Até as ligações de Flávio Bolsonaro para Daniel Vorcaro virem à tona, o senador do PL parecia representar a continuidade inevitável do bolsonarismo nacional. No momento, parece apenas seu herdeiro disponível. A diferença entre uma coisa e outra talvez decida a eleição presidencial deste ano.