A política, a roleta das almas e o ocaso da esperança
Houve um tempo, provavelmente mais lírico e certamente menos vertiginoso, em que o destino do brasileiro médio era selado no bilhete da loteria federal ou na fé cega de que o amanhã, esse eterno retardatário, finalmente chegaria trazendo a bonança. O Brasil de hoje trocou o sonho do progresso pela miragem do algoritmo e o que assistimos, sob o sol forte de um governo que tenta conciliar o pragmatismo da Fazenda com o simbolismo do Palácio, é uma peça em três atos, encenada em telas de cristal líquido por homens que trabalham com as mãos, mas sonham com o clique.
A hipótese que levanto aqui é talvez audaciosa e, por isso mesmo, dolorosamente verossímil: a queda da popularidade do terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva não se explica apenas pelos juros de um Banco Central austero ou pelos ruídos de uma base parlamentar fisiológica. Ela reside, também, no bolso furado de um novo tipo de excluído, a saber, o homem endividado pela jogatina virtual, o apostador de Bets. O perfil é nítido como uma fotografia de alta resolução. Trata-se do trabalhador, aquele que ostenta o crachá no peito ou o volante nas mãos, mas que viu sua realidade ser sequestrada por uma promessa de multiplicação rápida do dinheiro que os manuais de economia de outrora não previam.

Imagem feita com auxílio de IA
Ao analisar os números frios dos últimos doze meses, percebe-se um descompasso crescente entre a narrativa oficial de pleno emprego e a alma atormentada do eleitorado masculino. O instituto Quaest, em sua rodada de abril de 2026, apontou que a desaprovação do governo Lula atingiu a marca simbólica de 51%, superando pela primeira vez a aprovação, que murchou para 44%. Não é um fenômeno isolado. O Ipec, herdeiro das tradições do antigo Ibope, confirmou a tendência ao registrar que a avaliação “ótima ou boa” do governo caiu para 33%, enquanto o “ruim ou péssimo” escalou para os mesmos 33%, um empate técnico que, na prática, soa como derrota para quem já desfrutou de hegemonia quase messiânica. Se olharmos para a pesquisa CNT/MDA, o cenário se repete: a avaliação positiva do desempenho pessoal do presidente caiu de 54% para 49% em um intervalo curto. O que esses institutos captam, entretanto, é apenas a espuma de um mar muito mais profundo e revolto. O cruzamento desses dados com os indicadores de endividamento da Confederação Nacional do Comércio (CNC) e do Serasa revela a anatomia do descontentamento. A CNC reporta que cerca de 78% das famílias brasileiras estão endividadas, mas é no recorte masculino que a ferida se torna purulenta. Homens entre 25 e 50 anos, majoritariamente empregados, são os principais vetores do consumo de apostas online, um mercado que, segundo o Banco Central, drena cerca de 30 bilhões de reais mensais da economia real.
É uma dinâmica de transferência psicológica quase machadiana. O apostador, movido pela culpa secreta de ter dilapidado o patrimônio da família, muitas vezes apostando escondido da mulher, como indicam as sondagens qualitativas, encontra no governo um bode expiatório providencial. Se o preço da carne está alto, a culpa é de Brasília; se o transporte é precário, a culpa é do Presidente da República. A impossibilidade de admitir o próprio fracasso diante da tela do celular transmuta-se em um voto de protesto, em uma rejeição visceral a quem promete, mas não consegue evitar que a sorte lhe escape por entre os dedos. O governo torna-se o culpado por uma pobreza que, embora induzida pelo vício, é sentida como uma traição do Estado. O Datafolha, ao mergulhar na percepção econômica, descobriu que 48% dos brasileiros acreditam que a situação econômica do país piorou. Ora, como conciliar isso com um desemprego em mínimos históricos (há certa maquiagem no dado governamental, mas o número está aí)? A resposta está na corrosão do poder de compra não pela inflação, mas pelo endividamento por cliques. O homem que perdeu o dinheiro do aluguel em uma aposta de escanteio no campeonato brasileiro ou cazaque não olha para o espelho com honestidade; ele olha para o televisor e amaldiçoa o governante de turno. A desaprovação de Lula entre os homens é sistematicamente 5 a 7 pontos percentuais maior do que entre as mulheres, um hiato de gênero que se explica pela exposição masculina ao risco financeiro descontrolado.
O governo, percebendo que o “tigrinho” e suas variantes se tornaram adversários eleitorais tão ou mais perigosos que a oposição parlamentar, ensaia uma reação que parece, a um só tempo, tardia e desesperada. As recentes declarações de Lula, flertando com o proibicionismo, são o reconhecimento de que a economia doméstica foi invadida por um cavalo de Troia. A ideia de proibir apostadores inadimplentes de utilizarem o programa Desenrola é, ao mesmo tempo, uma medida de sanidade financeira e um grito de desespero político. Ocorre que o remédio pode ser amargo demais para um paciente que já não acredita na cura. A economia real sofre um baque que o varejo já sente na pele. O comércio murcha, as cidades perdem o viço e o descontentamento social se cristaliza em torno de uma sensação de estagnação. O governo Lula, que sempre se fiou no binômio “comida no prato e dinheiro no bolso”, descobre que o dinheiro no bolso hoje tem vida curta, pois dura apenas o tempo de uma conexão 5G.
O Serasa indica que o número de inadimplentes no Brasil ultrapassou a casa dos 72 milhões, e o crescimento mais acelerado ocorre justamente entre aqueles que possuem renda fixa, mas cujos débitos em cartões de crédito e empréstimos pessoais foram inflados para cobrir perdas em jogatinas. É o endividamento do desesperado, daquele que tenta recuperar o que perdeu dobrando a aposta, num ciclo que os cassinos conhecem bem, mas que a República nunca soube gerir.
O que se desenha no horizonte brasileiro é um desafio que extrapola a ideologia. Não é uma questão de esquerda ou direita, mas de uma erosão civilizatória. O homem que desconta sua raiva no governo por estar endividado nas Bets é o símbolo de um país que perdeu a noção de projeto coletivo e de meritocracia do trabalho. Estamos nos tornando uma nação de jogadores solitários, cada um em sua cela digital, amaldiçoando o Rei por não nos ter dado a mão vencedora. Lula, o velho líder de massas, encontra-se agora diante de uma massa que ele já não compreende totalmente. Uma massa que não quer apenas o aumento do salário-mínimo, mas a chance de dobrar o salário em uma aposta. Se o governo não conseguir domar essa fera invisível que devora a renda e o humor do povo, poderá descobrir, tarde demais, que a política, tal como a jogatina, é um campo onde a casa, no final das contas, sempre ganha; neste caso, a “casa” pode ser, porém, o caos social e a irrelevância política.
Eis a lição: o populismo econômico morre onde o algoritmo do azar floresce. E o Brasil, eterno país do futuro, parece ter decidido apostar o próprio futuro em uma rodada de pôquer na qual as cartas já vêm marcadas contra ele. O destino de um país que trocou o suor do trabalho pelo brilho incerto do jackpot virtual é o de uma ressaca prolongada, cuja conta será paga não por quem girou a roleta e, sim, por toda uma geração que viu a política ser reduzida a uma mera questão de azar ou sorte.
A tragédia se completa quando observamos que o sentimento de exclusão agora é digital. O homem que antes se sentia parte de uma classe trabalhadora ascendente agora se sente um pária financeiro, e sua única forma de agência política é o botão da rejeição nas pesquisas de opinião. Os números da Quaest e do Ipec são estatísticas de popularidade e, também, o termômetro de uma febre social que o governo tenta baixar com aspirinas retóricas. Enquanto os bilionários das plataformas de apostas, sediados em paraísos fiscais, contabilizam seus lucros, o Palácio do Planalto contabiliza seus prejuízos eleitorais. É uma conta que não fecha, um déficit de esperança que nenhuma manobra fiscal será capaz de sanar se o cidadão comum continuar a buscar a salvação no aplicativo que o escraviza.
A queda da popularidade de Lula é, portanto e também, meus três ou quatro leitores, o sintoma de uma enfermidade nacional: a substituição do cidadão pelo apostador, e da política pela sorte.