O homem que precisou pedir emprestado o próprio nome

por Sérgio Trindade foi publicado em 26.jul.26

Um candidato existe para disputar eleição. Há, porém, aqueles que disputam uma herança e os que, incapazes de construir uma identidade própria, resolvem alugar uma personalidade. O anúncio de que Cadu passará a se apresentar oficialmente como “Cadu de Lula” não é um gesto de força e, sim, uma confissão de fraqueza, pois quem possui história não precisa de sobrenome emprestado. Quem possui liderança não precisa de muletas eleitorais. Quem possui carisma não precisa esconder o próprio nome atrás da fotografia de outro.

A política brasileira conhece esse filme.

Em 2018, Fernando Haddad transformou-se em “o candidato de Lula”. Não havia alternativa. Lula estava preso, impedido de concorrer à Presidência da República e o PT apostou todas as fichas na transferência de prestígio eleitoral. Haddad aceitou o papel de procurador político de um líder popular. Sua identidade foi engolida pela do padrinho. O resultado é conhecido: apesar de chegar ao segundo turno, jamais conseguiu deixar de ser visto como uma extensão de Lula, nunca cresceu a ponto de ser um projeto político autônomo.

Antes dele, Dilma Rousseff percorreu caminho semelhante em 2010. A diferença é que Dilma havia participado diretamente do governo, ocupava a Casa Civil, possuía protagonismo administrativo e teve uma história de militância política. Mesmo assim, sua campanha foi inteiramente construída sobre a frase “a candidata de Lula”. Seu capital político era derivado.

A história eleitoral ensina uma lição incômoda: quem vive na e da sombra dificilmente aprende a caminhar sob o sol.

Cadu parecia um boneco e agora isso está ainda mais evidente. A mudança do nome procura facilitar a identificação do eleitor e busca substituir uma marca frágil por outra consolidada. Isso, meus três ou quatro leitores, não é marketing; é transplante de identidade.

Toda candidatura apresenta um currículo ao eleitor. Uns oferecem obras, outros apresentam ideias, alguns outros exibem liderança e há os que contam uma biografia capaz de inspirar confiança. Quando a principal novidade de uma campanha é acrescentar “de Lula” ao próprio nome, o recado implícito é devastador: acredita-se que “Cadu” sozinho não basta. Isso talvez explique por que o debate pouco gira em torno de suas propostas, de sua trajetória ou de sua capacidade de liderança. Fala-se do presidente. Discute-se Lula. Compara-se Lula. Mede-se Lula. O candidato transforma-se em nota de rodapé do padrinho.

Imagem feita com auxílio de IA

Já li e ouvi jornalistas políticos louvando e se entusiasmando com a estratégia cadusista. Julgo a estratégia uma inversão curiosa. Em vez de um líder pedindo votos para um candidato, cria-se um candidato cuja principal função é lembrar constantemente quem é o verdadeiro protagonista.  E a política, saibam, não perdoa os simulacros. O eleitor pode admirar um líder, mas dificilmente se entusiasma por uma cópia. A autenticidade continua sendo uma das moedas mais valiosas da democracia. É por isso que grandes lideranças deixam sucessores, mas raramente conseguem fabricar substitutos.

Ninguém votava em Ulysses Guimarães pensando em Tancredo Neves. Ninguém votava em Brizola pensando em Jango. Ninguém votava em Covas pensando em Montoro. Eram homens que possuíam voz e brilho próprios. Quando a principal estratégia consiste em substituir a própria assinatura pela assinatura de outro, a candidatura deixa de ser uma afirmação e passa a ser uma procuração. Talvez até funcione eleitoralmente, afinal a transferência de votos existe e faz parte da política. Mas uma transferência de votos não é uma transferência de personalidade. Votos podem ser emprestados, história não. Carisma, tampouco. E identidade política jamais se imprime na urna apenas porque foi acrescentada ao nome de campanha.

Ao escolher apresentar-se menos como Cadu e mais como “de Lula”, o candidato faz uma escolha simbólica. Renuncia ao protagonismo antes mesmo de conquistá-lo. Diz ao eleitor, sem precisar pronunciar uma palavra, que sua principal qualidade não está nele, mas naquele cujo nome vem depois da preposição. É uma estratégia eleitoral compreensível, mas é também a mais eloquente demonstração de que, até aqui, o candidato ainda não conseguiu convencer o eleitor de que basta ser simplesmente… Cadu.

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