O problema de Lula
A política brasileira parece, em vários momentos, uma dessas velhas repartições públicas nas quais ninguém sabe exatamente quem manda, mas todos sabem quem assina. O problema é que, na política, a conta chega ao eleitor e ele, ao contrário do funcionário da repartição, costuma cobrar.
As suspeitas envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, ganharam uma materialidade incômoda com o que foi divulgado até aqui pela Folha de São Paulo. Não sei se fará um petista ou simpatizante deixar de votar em Lula. Provavelmente não. O eleitor apaixonado costuma perdoar (quase) tudo, entretanto existe o eleitor menos apaixonado, menos militante e mais pragmático e é esse que pode fazer a diferença numa eleição apertada. No outro polo ideológico, o adversário de Lula, Flávio Bolsonaro, também carrega suas próprias suspeitas, e algumas bastante diretas.
A eleição presidencial brasileira tem dessas ironias: de um lado, um filho do presidente sob suspeita; de outro, um candidato cuja família também não inspira propriamente confiança monástica. O eleitor, nesse caso, fica com a delicada tarefa de escolher não o santo, mas o menos pecador.

Imagem feita com auxílio de IA
Não é Lulinha, porém, o problema fundamental de Lula. O problema de Lula é Lula, mais precisamente a avaliação que o eleitorado faz do governo. A matemática, uma antipática descritora que não costuma respeitar narrativas partidárias, apresenta números preocupantes, porque mostram uma deterioração evidente da percepção do eleitorado sobre o governo. Em março de 2023, pouco depois de iniciado o terceiro mandato, Lula tinha 38% de ótimo/bom e 29% de ruim/péssimo. Em agosto de 2026, aparece com 33% de ótimo/bom contra 41% de ruim/péssimo.
A tabela, montada com dados do Datafolha conta uma história que os discursos oficiais podem tentar esconder, mas não conseguem apagar:
| Data | Ótimo/Bom | Ruim/Péssimo |
| 31/03/2023 | 38% | 29% |
| 14/06/2023 | 37% | 27% |
| 14/09/2023 | 38% | 31% |
| 07/12/2023 | 38% | 30% |
| 21/03/2024 | 35% | 33% |
| 18/06/2024 | 36% | 31% |
| 03/08/2024 | 35% | 33% |
| 11/10/2024 | 36% | 32% |
| 17/12/2024 | 35% | 34% |
| 14/02/2025 | 24% | 41% |
| 04/04/2025 | 29% | 38% |
| 12/06/2025 | 28% | 40% |
| 30/07/2025 | 29% | 40% |
| 09/09/2025 | 33% | 38% |
| 04/12/2025 | 32% | 37% |
| 07/03/2026 | 32% | 40% |
| 11/04/2026 | 29% | 40% |
| 16/05/2026 | 30% | 39% |
| 22/05/2026 | 32% | 38% |
| 20/06/2026 | 32% | 38% |
| 24/07/2026 | 32% | 38% |
| 21/08/2026 | 33% | 41% |
A política costuma transformar números em torcida. Mas número não torce, apenas está ali, indiferente à retórica do palanque.
Lula é um político extraordinariamente experiente. Venceu três eleições presidenciais das seis que disputou, e conseguiu eleger o poste Dilma Rousseff duas vezes e levar o poste Fernando Haddad ao segundo turno em uma. Tem máquina, partido, experiência, exposição e uma biografia eleitoral que nenhum de seus adversários consegue emparelhar. E, ainda assim, está encontrando dificuldades para abrir vantagem sobre Flávio Bolsonaro, um candidato fraquíssimo e sem história alguma – e isso é mais significativo do que parece, porque talvez estejamos diante de uma das manifestações mais claras da polarização brasileira: um presidente experiente, no exercício do cargo, enfrentando um adversário que, em condições normais, pareceria incapaz de ameaçá-lo seriamente. Flávio pode ser visto como despreparado, pode estar cercado de suspeitas, pode não contar com o mesmo apoio político e institucional, no entanto existe uma palavra que, em eleição, costuma ser mais poderosa do que currículo: mudança.
Para uma parcela importante do eleitorado, Lula representa continuidade e Flávio representa mudança. Se essa mudança será boa ou ruim, é outra conversa. O eleitor não precisa contratar o candidato para uma consultoria administrativa antes de votar nele. Basta querer que o outro vá embora. É assim que muitas eleições são ganhas: não pelo amor ao candidato, mas pelo cansaço com quem está no poder. E é aí que mora o perigo para Lula.
A discussão sobre Lulinha pode ocupar jornais, redes sociais, discursos e CPIs, mas se a avaliação do governo estivesse próxima dos 40% de ótimo/bom, provavelmente o assunto teria outro peso eleitoral. O escândalo seria escândalo, mas não necessariamente terremoto. Quando o governo está mal avaliado, porém, qualquer escândalo encontra terreno fértil.
Não esqueçamos ainda o fator rejeição. Se Lula tem 45% de rejeição e Flávio chega a 46%, nenhum dos dois pode dormir tranquilo. O eleitorado não parece apaixonado por nenhum deles. Talvez esteja apenas tentando descobrir de qual dos dois tem menos medo. Esse detalhe é importante. As pesquisas indicam que há mais temor da volta dos Bolsonaro do que entusiasmo pela permanência de Lula. É uma diferença sutil, mas decisiva. O voto brasileiro frequentemente nasce menos da esperança do que do medo.
Dadas as circunstâncias, Lula não precisa apenas atacar Flávio. Precisa melhorar a percepção sobre seu próprio governo, convencendo o eleitor de que a continuidade vale mais do que a mudança, afinal, meus três ou quatro leitores, eleição não é julgamento e não concurso de biografia. E, no julgamento eleitoral, a sentença não será dada pelo Supremo Tribunal Federal, nem por ministros, procuradores, jornalistas, militantes ou influenciadores e, sim, por aquele eleitor que, diante da urna, poderá olhar para os números e perguntar, com a brutal simplicidade que a política odeia: “Está bom assim ou vamos mudar?”.
É essa pergunta, mais do que Lulinha, que deveria tirar o sono do Planalto.