O debate que coube no estado e o estado que coube no debate

por Sérgio Trindade foi publicado em 10.ago.26

Vi ontem, na Band, o debate entre os candidatos a governador do Rio Grande do Norte e, hoje cedinho, no Youtube, o debate entre os candidatos a governador de São Paulo.

A televisão, por uma dessas ironias que a política brasileira cultiva com uma devoção quase religiosa, pôs diante do eleitor dois retratos diferentes da mesma democracia: num estúdio, a política parece discussão; no outro, parece apenas uma sucessão de frases que procuram ocupar o silêncio. Foi assim, na noite de domingo, quando os eleitores do Rio Grande do Norte e de São Paulo puderam assistir aos seus candidatos ao governo em debate, uma coincidência de calendário que produziu, mais do que uma comparação entre nomes, uma comparação entre maneiras de compreender aquilo que deveria ser, antes de tudo, a política: o exercício público da palavra.  No Rio Grande do Norte, estavam frente a frente Allyson Bezerra, Álvaro Dias, Cadu Xavier e Robério Paulino, num debate organizado pela Band; em São Paulo, o confronto entre Tarcísio de Freitas e Fernando Haddad concentrou praticamente toda a disputa estadual, transformando o encontro numa espécie de prévia das grandes batalhas políticas nacionais que se projetam sobre São Paulo.

O que se viu no debate potiguar foi, antes de qualquer coisa, a dificuldade de transformar a eleição em conversa pública sobre o Estado, seus problemas e seu futuro, porque frequentemente a palavra parecia descer ao terreno mais fácil das acusações, das respostas prontas e daquela velha liturgia eleitoral segundo a qual o adversário precisa ser desqualificado antes que seja feito o trabalho de explicar ao eleitor o que se pretende fazer. Não se trata de dizer que candidatos devam ser cordiais, nem que um debate político precise parecer uma reunião de condomínio em que todos concordam sobre a necessidade de pintar a fachada; ao contrário, o debate existe justamente porque há divergências, interesses incompatíveis, projetos distintos e responsabilidades que precisam ser cobradas, mas a divergência, quando não consegue produzir uma ideia, transforma-se em ruído, e o ruído, quando toma conta do estúdio, acaba fazendo uma coisa terrível: deixa o eleitor sozinho diante de sua própria ignorância sobre aquilo que realmente está sendo disputado. E talvez seja essa a maior pobreza do debate potiguar: não a existência de ataques, porque ataques fazem parte da política desde que a política descobriu que o adversário é também um excelente personagem eleitoral, mas a dificuldade de elevar o ataque à condição de argumento, de substituir a frase feita pela demonstração, a suspeita pelo fato, a acusação pela pergunta que obriga o outro a responder.

O Rio Grande do Norte não é um estado pequeno nos seus problemas, embora seja pequeno no mapa, e seria razoável esperar de seus candidatos uma conversa proporcional à dimensão das dificuldades que terão pela frente: educação, saúde, segurança, saneamento, infraestrutura, desenvolvimento econômico, equilíbrio fiscal, geração de emprego, desigualdades regionais e a velha incapacidade potiguar de transformar potencial em riqueza duradoura. Entretanto, quando a política se satisfaz com a troca de acusações, o estado desaparece do debate, como aquele personagem secundário que entra em cena apenas para lembrar que a peça, apesar dos atores, ainda deveria ter uma história.

São Paulo, por sua vez, ofereceu uma experiência diferente, ainda que não necessariamente mais virtuosa em tudo. Tarcísio de Freitas e Fernando Haddad fizeram um debate mais encorpado, mais preparado, mais técnico, com números, comparações, políticas públicas e uma disposição maior para disputar a interpretação da realidade, e isso faz diferença. A cobertura posterior mostrou que ambos cometeram erros ou apresentaram números discutíveis em temas como educação, saúde e impostos, o que demonstra que nível técnico não é sinônimo de verdade absoluta. Mas até o erro, quando ocorre dentro de uma discussão substantiva, é mais útil ao eleitor do que a pobreza argumentativa, porque pode ser conferido, contestado, corrigido e confrontado.

Haddad e Tarcísio também fizeram aquilo que parece elementar, mas que a política brasileira frequentemente esquece: discutiram governos. Um atacou o outro a partir de números, decisões administrativas, investimentos, impostos, educação, saúde e segurança; o outro respondeu tentando defender sua gestão e deslocar a responsabilidade para adversários, inclusive levando a disputa para o terreno nacional. A análise da imprensa observou justamente essa nacionalização do confronto, com referências ao governo Lula, ao bolsonarismo e às perspectivas políticas que ultrapassam o Palácio dos Bandeirantes.

É aí que a diferença se torna interessante. O debate paulista teve seus vícios, suas imprecisões, sua inevitável teatralização e até aquele excesso de números que transforma política em campeonato de estatísticas, mas havia uma disputa de conteúdo suficientemente visível para que o eleitor pudesse sair do sofá levando alguma pergunta consigo. No debate potiguar, em vários momentos, a impressão foi outra: a de que os candidatos estavam mais interessados em vencer o minuto seguinte do que em construir a explicação daquilo que pretendiam fazer durante quatro anos. E uma eleição para governador não é uma eleição para ganhar cinco minutos de televisão e, sim, uma eleição para governar um território inteiro, inclusive aquele território que não cabe na propaganda, não cabe no discurso e não responde ao aplauso da militância.

Imagem feita com auxílio de IA

A diferença provavelmente esteja no tamanho político dos problemas. São Paulo obriga seus candidatos a falar como quem administra uma máquina gigantesca, uma economia monumental, uma população imensa e um orçamento que transforma qualquer promessa em compromisso financeiro. O Rio Grande do Norte, menor e mais pobre, não pode se dar ao luxo de discutir pequeno. Deveria justamente fazer o contrário: quanto menores os recursos, maior deveria ser a precisão; quanto maiores as carências, mais objetiva deveria ser a cobrança; quanto mais estreita a margem de erro, mais sério deveria ser o debate.

A democracia não é simplesmente permitir que quatro pessoas falem diante de câmeras, nem consiste em colocar dois adversários frente a frente para que descubram quem consegue interromper melhor o outro. Democracia também é qualidade da palavra pública. Quando a palavra empobrece, a política empobrece junto. E talvez tenha sido essa a imagem mais triste da noite potiguar: um Estado cheio de problemas grandes demais para caber em frases pequenas, sendo discutido por uma política que, por vezes, parece ter desaprendido a falar grande.

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