A república dos abraços e dos tapinhas nas costas
Logo que vieram à tona as peripécias financeiras do Banco Master e as relações de Daniel Vorcaro com gente que deveria, por ofício, estar do outro lado do balcão, apareceu em Brasília uma palavra que remete ao passado recente e que soa perigosa: Lava Jato. Perigosa não porque a Lava Jato tenha sido perfeita no combate à corrupção, até porque não foi, mas porque, no Brasil, certas palavras adquirem uma capacidade extraordinária de despertar paixões, medos, fantasmas e conveniências.
O que está sobre a mesa, entretanto, não é uma nova Lava Jato. É algo mais elementar, a saber, a velha pergunta sobre quem fiscaliza os fiscais.
A Polícia Federal encontrou no celular de Vorcaro mensagens que apontam para uma relação próxima e marota entre o banqueiro e Alexandre de Moraes. Segundo o relatório, o banqueiro teria procurado o ministro às vésperas de sua prisão, inclusive perguntando se deveria deixar o país. Há ainda registros de contratos milionários entre o Banco Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro. Um deles chega à casa dos R$ 131 milhões. Não é, meus três ou quatro leitores, pouca coisa, e justamente por não ser pouca coisa, não pode ser tratada como fofoca de esquina, tampouco como batalha de torcidas políticas.
Também apareceu o nome do procurador-geral da República, Paulo Gonet. Mas aqui convém separar o trigo do joio: os documentos divulgados até agora mostram referências a Gonet em conversas de Vorcaro com terceiros e pedidos relacionados a autoridades; não demonstram, por si sós, que o procurador tenha cometido corrupção ou recebido qualquer vantagem. O problema ficou ainda mais delicado quando o próprio Gonet, enredado com Vorcaro, pediu a nulidade da parte da investigação que alcançou as conversas envolvendo Moraes, argumentando que André Mendonça teria extrapolado sua competência ao determinar o aprofundamento da apuração. É uma discussão jurídica legítima, que precisa ser examinada, no entanto há uma ironia política que ninguém deveria ignorar: justamente quando surgem indícios envolvendo as mais altas autoridades da República, o impulso institucional não pode ser simplesmente fechar a porta da investigação.
Montesquieu imaginou a separação dos poderes porque desconfiava do homem investido de poder. Não porque achasse todos os homens maus, mas porque sabia que o poder tem uma inclinação quase natural para se proteger. Lord Acton resumiu a suspeita numa frase que atravessou os séculos: o poder tende a corromper, e o poder absoluto tende a corromper absolutamente. A democracia nasceu, em boa medida, dessa desconfiança. Por isso é estranho demais ver pessoas que se diziam sérias repetirem que estamos diante de uma reedição da Lava Jato, como se investigar ministros do Supremo Tribunal Federal, procuradores ou autoridades da Polícia Federal fosse uma espécie de conspiração contra a República. Não é. A República não se enfraquece quando investiga os poderosos e, sim, quando decide que determinados poderosos não precisam ser investigados.

Imagem feita com auxílio de IA
Moraes e Gonet não devem ser condenados em provas. Ninguém deve. Mas exatamente por isso as suspeitas precisam ser apuradas com transparência, independência e método.
Vorcaro, estejamos certos disso, não era um cidadão qualquer pedindo informação sobre o trânsito. Era um banqueiro investigado por graves suspeitas de fraude financeira, capaz, segundo as mensagens reveladas, de circular com extraordinária desenvoltura entre autoridades dos três poderes e instituições decisivas do Estado.
O que assusta não é apenas a possibilidade de haver alguma irregularidade. É a naturalidade do trânsito entre dinheiro e poder e a República não pode funcionar como clube onde os mesmos homens se abraçam de dia, negociam à noite e depois aparecem diante do cidadão para explicar que tudo não passou de coincidência.
Se nada houver, que se demonstre nada haver. Mas se indícios houver, que se investigue, afinal a questão não é Moraes, Gonet ou Vorcaro. A questão é maior: quem vigia aqueles a quem entregamos o poder de vigiar?
É pergunta antiga e continua sem resposta satisfatória no Brasil.
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Numa provocação nas redes sociais, apontei que Moraes deve ser investigado. Houve concordância, desde que Flávio Bolsonaro também seja. Ora, uma República só é sã se não houver privilégios. A democracia só é virtuosa se e somente se os fanáticos abandonarem o fanatismo e cobrarem de seus líderes decência. Por ora, lulistas e bolsonaristas não o fazem, porque estão irmanados no coreto aplaudindo os seus líderes e aliados dos seus líderes – e posando de paladinos da virtude.