Quando o dinheiro voltou a valer no Brasil
Quem viveu adolescência e/ou era adulto entre a segunda metade da década de 1970 e a primeira metade da década de 1990 sentiu na pele o que era morar num país carcomido pela pressão inflacionária. Era um tempo em que o brasileiro acordava mais pobre do que havia dormido. Não era metáfora, embora parecesse. O dinheiro tinha uma espécie de doença terminal: perdia valor rapidamente enquanto permanecia parado. O salário entrava pela porta e a inflação o expulsava pela janela. Comprar imediatamente era uma forma de economizar. Deixar para comprar amanhã o que poderia comprar hoje era uma imprudência.
Em 1993, o Brasil já conhecia essa rotina com uma intimidade que beirava o desespero. A inflação anual chegou a 2.477% (IBGE) a 2.708% (FGV). O número, por si só, já era uma extravagância estatística. Mas os números, quando chegam a determinados tamanhos, perdem a capacidade de explicar o que acontece na vida comum. Era preciso voltar ao supermercado, à feira, ao contracheque, ao balcão da padaria, à loja de departamento para compreender o que significava aquela inflação.
O problema era que o governo parecia tão incapaz de dominá-la quanto o cidadão comum. Itamar Franco, Presidente da República por circunstância e por sucessão, havia herdado um país traumatizado pelo governo Collor e por sucessivas experiências de estabilização experimentadas durante os governos de José Sarney e de Fernando Collor. Em menos de um ano, Itamar nomeara três ministros da Fazenda. Cada troca parecia anunciar uma solução e cada solução terminava incorporada ao problema.
O Brasil já tentara quase tudo. Mudara moeda, congelara preços e salários, descongelara preços e salários, criara tablitas, índices, mecanismos de correção, fiscais da Sunab, etc. O Plano Cruzado, em 1986, chegara acompanhado da euforia popular e terminara desorganizado pela própria inflação que pretendia destruir. Vieram depois outras tentativas, outros ministros, outras fórmulas. A experiência ensinara uma coisa, embora ninguém tivesse ainda encontrado o modo definitivo de executá-la: não bastava mandar a inflação parar. Era necessário desmontar o mecanismo que a fazia continuar. E foi exatamente nesse ponto que uma palavra de aparência inofensiva começou a ganhar importância: inércia.
A inflação brasileira não era apenas resultado de uma emissão descontrolada de moeda ou do déficit público. Havia uma engrenagem que fazia a inflação de ontem alimentar a de hoje. Preços eram reajustados porque os custos haviam subido, salários eram corrigidos porque os preços haviam subido, contratos eram indexados, tarifas eram reajustadas, empresas antecipavam a inflação futura e repassavam-na aos preços. A inflação tornara-se uma memória automática, fazendo o passado mandar no presente.
Na primeira metade dos anos 1980, economistas ligados sobretudo à PUC do Rio de Janeiro haviam estudado justamente esse fenômeno. Entre eles estavam Pérsio Arida, André Lara Resende, Edmar Bacha, Francisco Lopes e outros. Uma proposta que ficaria conhecida como Larida, associada a Pérsio Arida e André Lara Resende, imaginava uma maneira engenhosa de desmontar a memória inflacionária: criar uma unidade de conta estável, paralela à moeda que continuaria sofrendo a erosão dos preços, uma ideia que tinha uma espécie de elegância que os planos anteriores não possuíam. Em vez de obrigar os preços a permanecerem congelados, seria possível permitir que eles encontrassem uma nova referência. Em vez de fingir que a inflação não existia, a proposta procurava neutralizar seus efeitos.
Uma boa ideia, no entanto, pode esperar anos até encontrar o momento político em que deixa de ser apenas uma boa ideia e esse momento começou a aparecer em 1993, mais precisamente no dia 19 de março. Naquele dia, Fernando Henrique Cardoso estava em Nova Iorque quando recebeu o telefonema do Presidente Itamar Franco, o qual queria saber se o então chanceler aceitaria assumir o Ministério da Fazenda. FHC recusou inicialmente. Não era uma pasta tranquila. Era, naquele momento, quase uma cadeira elétrica. Itamar insistiu. A escolha não era apenas pessoal. Havia nela uma tentativa de reunir duas coisas que raramente convivem em Brasília: autoridade política e competência técnica. Fernando Henrique aceitou, mas estabeleceu condições: queria liberdade para montar a equipe e não admitiria um novo congelamento de preços.
A segunda condição dizia muito sobre o que se aprendera nos anos anteriores. O congelamento era sedutor porque oferecia uma imagem imediata de ordem: decretava-se que os preços não subiriam e, durante algum tempo, eles não subiam. O problema vinha depois. Os preços relativos se desequilibravam, produtores perdiam estímulo, consumidores corriam para as prateleiras e o mercado encontrava maneiras de desobedecer ao decreto, entre os quais o sumiço de produtos e a criação do ágio. A proposta da equipe econômica de FHC era diferente, não congelando preços e salários e reorganizando as referências econômicas.
FHC reuniu economistas que conheciam o problema havia anos. Pérsio Arida, André Lara Resende, Edmar Bacha, Pedro Malan, Gustavo Franco e outros participaram, em diferentes momentos e funções, da construção do programa. Não foi obra de um homem isolado, nem de uma fórmula surgida de repente numa sala de Brasília. Houve uma longa gestação intelectual e uma combinação de teoria, experiência e pragmatismo. Mais, havia uma diferença importante em relação aos planos anteriores: desta vez, o governo não pretendia anunciar um milagre, uma bala de prata.
Em 1993, começou o esforço de ajuste das contas públicas. A estabilização dependia de algo menos vistoso que uma troca de cédulas. O Estado precisava recuperar alguma capacidade de controlar suas próprias contas. O Fundo Social de Emergência, aprovado pelo Congresso em fevereiro de 1994, tornou-se um instrumento importante para dar maior flexibilidade à execução orçamentária. Não era a solução definitiva para o problema fiscal, mas fazia parte da arquitetura da estabilização. Na sequência veio a Unidade Real de Valor (URV), que entrou em vigor em 1º de março de 1994.
A URV era uma unidade de conta e não uma moeda, mas o brasileiro já a carregaria nas contas, embora não ainda no bolso. Os preços continuavam sendo pagos em cruzeiros reais, porém passavam a ter uma referência estável na URV, cujo valor acompanhava o dólar comercial como referência. Assim, enquanto o cruzeiro real perdia valor todos os dias, a URV procurava preservar a unidade de medida. Era como trocar a régua sem destruir os objetos que estavam sendo medidos. A diferença parecia abstrata, mas era decisiva. O plano não dizia ao padeiro quanto deveria cobrar pelo pão, nem ao supermercado quanto poderia cobrar pelo arroz e pelo feijão. Procurava fazer com que preços, salários e contratos pudessem migrar para uma unidade estável, eliminando progressivamente a confusão produzida pela inflação.
A operação tinha riscos e recebeu críticas. A oposição denunciava efeitos sobre os salários e acusava o governo de produzir arrocho. Não era uma discussão inventada, pois a conversão dos salários pela média dos quatro meses anteriores e a conversão de preços segundo critérios diferentes provocaram controvérsias. O governo, por sua vez, sustentava que o objetivo era justamente romper a engrenagem que fazia a inflação reproduzir-se.
Em 30 de março, Fernando Henrique deixou o Ministério da Fazenda para disputar a Presidência e o diplomata Rubens Ricupero assumiu a pasta, conduzindo a etapa final da implantação da nova moeda. Pedro Malan estava no Banco Central. A engrenagem continuou funcionando.
Em 1º de julho uma URV passou a valer um real. O cruzeiro real deixou de ser a moeda corrente. A conversão foi fixada em 2.750 cruzeiros reais por um real. A velha moeda, que durante tanto tempo parecera indestrutível, desapareceu sem solenidade compatível com sua longa agonia. O que parecia extraordinário aconteceu depois, com os preços parando de correr mês a mês.
A inflação, que durante anos parecera uma força da natureza, revelou que também era uma construção econômica. Não desapareceu por decreto, nem por patriotismo, nem porque o brasileiro tivesse subitamente aprendido a poupar. A engrenagem havia sido modificada. A URV havia preparado a transição e o Real forneceu a moeda estável. A política monetária, cambial e fiscal passou a sustentar a nova situação. E então ocorreu uma coisa que talvez nenhum economista pudesse medir inteiramente em suas tabelas: o dinheiro voltou a ter futuro. O consumidor começou a descobrir que podia entrar numa loja sem a necessidade de calcular quanto o produto custaria na semana seguinte, o salário deixou de ser apenas uma quantia a ser convertida imediatamente em mercadorias, a estabilidade dos preços alterou comportamentos, expectativas e relações sociais. Os institutos que mediam o índice de inflação observaram que o mecanismo da URV conseguiu enfrentar a inflação inercial justamente porque permitiu o alinhamento dos preços antes da substituição da moeda.
A política, sempre ela, estava lá, esperando atrás da economia.

Imagem feita com auxílio de IA
Em junho de 1994, antes que o Real pudesse mostrar toda a sua força eleitoral, Lula aparecia com ampla vantagem nas pesquisas de intenção de voto. Fernando Henrique ainda não parecia o candidato destinado a vencer a eleição. No mês seguinte, porém, o quadro mudou. A moeda nova começou a produzir aquilo que nenhum discurso de campanha conseguira produzir: uma experiência cotidiana de normalidade. Em agosto, Fernando Henrique passou à frente de Lula e em outubro venceu, no primeiro turno, com 54,3% dos votos, contra 27% de Lula. A estabilidade econômica havia se transformado em capital político.
É tentador, tantos anos depois, contar essa história como se tudo tivesse sido inevitável. Não foi. O Plano Real nasceu de uma mistura rara: ideias formuladas uma década antes, economistas que haviam aprendido com os fracassos anteriores, circunstâncias econômicas mais favoráveis, reservas internacionais elevadas, maior abertura da economia e, principalmente, a decisão política de não repetir os velhos atalhos. Mas foi também uma história com contradições, pois apesar de ter resolvido o problema da inflação, o Real abriu outro capítulo de problemas: juros elevados, política cambial, vulnerabilidade externa, necessidade de reformas fiscais e dificuldades para conciliar estabilidade com crescimento e emprego. A estabilização não transformou o Brasil num país sem problemas. Fez algo mais modesto e, talvez por isso mesmo, mais importante, devolvendo ao problema o tamanho que ele realmente tinha, porque antes do Real o brasileiro não discutia apenas inflação e, sim, a própria impossibilidade de confiar no amanhã. As incertezas do país permaneceram, porque nenhuma moeda poderia aboli-las. Por alguns anos, entretanto, permitiu que o futuro deixasse de ser uma ameaça imediata e isso é, provavelmente, a melhor maneira de compreender aquela virada.
O Real não foi apenas a troca de uma moeda por outra. Foi algo bem maior, foi a tentativa – finalmente bem-sucedida – de fazer o dinheiro parar de fugir.