O cálculo da felicidade e o farol de Mill

por Sérgio Trindade foi publicado em 04.maio.26

Escrevi há mais de duas décadas uma monografia sobre a ética utilitarista de John Stuart Mill. Foi um meu trabalho de conclusão de curso na Licenciatura em Filosofia (UFRN).

Não, eu não sou filósofo. Só graduado em Filosofia; habilitado para lecionar nos ensinos fundamental e médio. Filósofo é algo superior; aquele que carrega o título não necessariamente é graduado em Filosofia. Nem precisa ser graduado em nada, por sinal.

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Diz-se que a educação de John Stuart Mill foi uma experiência laboratorial que faria os pedagogos modernos tremerem de indignação. Antes que pudesse se ocupar das distrações próprias da infância, o pequeno John já se via às voltas com o grego e o latim, sob a batuta rigorosa de seu pai, James Mill. Não frequentou universidades. Sua academia foi a biblioteca paterna e o convívio com mentes do calibre de David Ricardo, um dos pais da Economia. O resultado dessa estufa intelectual foi um homem que, em pleno século XIX, tentou equilibrar o rigor da economia clássica com as nuances, por vezes imensuráveis, da alma humana.

Imagem feita com auxílio de IA

Há mais de vinte anos, debrucei-me sobre a obra deste inglês que parece cada vez mais contemporâneo. No cenário atual, no qual a política muitas vezes se perde em polarizações estéreis, revisitar o utilitarismo de Mill é um exercício de arqueologia filosófica e, também, uma necessidade de sanidade pública.

O utilitarismo, tal como herdado de Jeremy Bentham, era uma doutrina de contadores. Bentham, com sua “tabela de dor e prazer”, pensava ser possível governar a sociedade por meio do cálculo aritmético: bastava somar as unidades de prazer, subtrair as de dor, e o saldo positivo indicava o caminho do bem. Era o império da quantidade. Mill, porém, percebeu que a vida humana não cabe em uma planilha.

Em um movimento de elegância intelectual, ele inseriu a qualidade na equação. Para Mill, a felicidade de um homem não pode ser comparada à de um gato, pela simples razão de o ser humano possuir faculdades superiores, as quais exigem prazeres mais elevados, a saber, a arte, a poesia, o exercício da razão. “Felicidade”, sentenciou ele, “não é apenas satisfação”, mas um ideal de desenvolvimento humano que pressupõe espontaneidade e cultivo mental.

Mill viveu a efervescência da Revolução Industrial, aquele momento em que a humanidade trocou o arado pelo motor a vapor, e a burguesia, triunfante, redesenhou as instituições. Nesse mundo de engrenagens e chaminés, a questão central tornou-se o limite: até onde o Estado pode avançar sobre o indivíduo?

A resposta de Mill, detalhada em seu clássico A Liberdade, é de uma clareza solar. A liberdade não é absoluta, mas deve ser total naquilo que diz respeito apenas ao indivíduo. O limite reside no impacto ao outro. É aqui que sua ética utilitarista se funde com sua visão política: as regras de conduta só se justificam se contribuírem para a felicidade geral.

Mas Mill não era um ingênuo defensor do laissez-faire absoluto. Embora seus Princípios de Economia Política servissem como um manual grandioso do liberalismo inglês, ele tinha olhos atentos para a distribuição da riqueza. Para ele, as leis da produção podem ser naturais, a distribuição da riqueza, porém, é uma construção humana, dependente de costumes e decisões políticas. Ele via na participação dos trabalhadores e no sufrágio universal – incluindo, com vanguarda rara, o voto feminino – a única vacina contra o egoísmo das classes dirigentes.

O grande desafio do utilitarismo sempre foi o choque entre o bem comum e a justiça individual. Se dois atos geram o mesmo “saldo” de felicidade, mas um deles é injusto, como escolher? Mill tentou resolver isso distinguindo o “utilitarismo de ato” do “utilitarismo de regra”. Não se trata de calcular o prazer a cada passo, mas de seguir regras que, historicamente, provaram-se benéficas à humanidade.

Ainda assim, as fissuras aparecem. Nas sociedades marcadas pela exploração, a felicidade da maioria muitas vezes foi construída sobre a penúria de uma minoria, do escravo em Roma ao servo no feudalismo. No capitalismo moderno, o “útil” corre o risco de ser confundido apenas com o “lucrativo”.

Ao final de sua jornada, Mill parece buscar algo que transcenda o mero cálculo. Ele chega a sugerir que o utilitarismo elevado poderia ocupar o lugar da religião, cultivando nos homens um sentido de unidade e preocupação com o bem geral. Mais do que isso, ele nos oferece a imagem do “gênio”, não como um ser isolado em sua torre, mas como uma luz-guia capaz de transformar o desejo em amor pela virtude.

Passados mais de vinte anos desde que escrevi sobre ele, e quase dois séculos desde que Mill caminhava pelas ruas de Londres, a lição persiste. Em um mundo que parece cada vez mais movido por impulsos ególatras e algoritmos de prazer imediato, Mill nos lembra que a verdadeira liberdade exige autodisciplina e que a justiça não é um subproduto do mercado, mas uma conquista da razão consciente.

Talvez, como ele sugeria, o segredo não esteja em buscar a felicidade como um fim em si, mas em encontrá-la enquanto trabalhamos para elevar o nível da sociedade em que vivemos.

É uma ideia que, como o estilo de um bom cronista, nunca sai de moda.

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