O nome secreto das coisas
Andei, por esses dias, lembrando-me de quando fui eminência parda, segundo um dos maiores gênios (e seus parças) da produção e divulgação científica deste imenso e lerdo elefante, da intervenção no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte (IFRN). Vi-me, com a lembrança tardia, envolto nas brumas do “pençamemtu” woke – e resolvi debruçar-me sobre o teclado do PC para wokar e ser piegas, afinal estou quatro dias da semana num dos templos do ideário woke da pieguice barata e rasteira na aldeia de Poti.
Então, vamos lá.
***
Houve um tempo em que eu tinha medo do escuro. E de alma. E do Diabo. Tudo – o escuro, as almas e o Diabo – era a mesma coisa. Mas o escuro mesmo de que eu tinha medo não é o escuro inteiro, esse universo vasto que cobre o céu e embala os amantes, mas daquele escuro pequeno dos corredores da infância, onde os móveis pareciam bichos à espreita e os silêncios tinham dentes afiados ou garras cortantes. Minha mãe dizia: “Não tenha medo, meu filho. Essas coisas de quem você tem medo não fazem mal a ninguém. Malvados mesmos só os seres humanos.” Mas eu desconfiava, porque o medo não precisa de provas. Basta-lhe a imaginação.
O preconceito talvez nasça assim.
Primeiro, o susto. Depois, a distância. Mais adiante, o nome cruel, que assusta e violenta.
O diferente sempre assustou os homens. Provavelmente porque o diferente nos obrigue a reconhecer que o mundo não foi feito à nossa imagem. O outro carrega um idioma, uma cor, uma crença, um corpo, um amor ou um jeito de existir que desmonta nossas pequenas certezas domésticas – e ideológicas. E nós, frágeis criaturas, confundimos diferença com ameaça.
Os bichos atacam para sobreviver. Os homens, muitas vezes, atacam para esconder o próprio medo.
É curioso: quanto mais civilizada uma sociedade se diz, mais sofisticadas ficam as suas formas de ferir. Já não usamos lanças. Usamos palavras. E as palavras, ah, as palavras… Elas têm o poder misterioso de acariciar ou mutilar. Uma palavra pode ser colo. Outra, abismo.
Conheci gente que nunca levantou a mão contra ninguém, mas matou pessoas lentamente com ironias, apelidos, risos enviesados, humilhações públicas e comentários “inocentes”. Há violências que não deixam hematomas, apenas silêncios.
E o silêncio dói mais tempo.
Lembro-me do professor Barbosa, de História, na Escola Estadual Desembargador Floriano Cavalcanti, dizendo que as palavras têm memória, pois guardam dentro de si os séculos de amor e crueldade que os homens lhes emprestaram. Um termo pode nascer inocente e, ao longo da história, virar faca. Outro pode ser resgatado pelo afeto, como acontece quando uma avó chama o neto de “meu nego” e, naquela voz cansada, cabe o universo inteiro da ternura.
As palavras são estranhas criaturas. Elas dependem menos do dicionário e mais do coração de quem as pronuncia.
Há momentos, porém, em que elas revelam o subterrâneo da alma humana. Nos estádios, nas ruas, nas escolas, nas redes sociais, as ofensas explodem como esgoto rompido. O insulto racial, o deboche contra o pobre, a mulher, o homossexual, o nordestino, o estrangeiro – tudo isso não nasce da força. Nasce da pequenez. Quem humilha o outro está apenas tentando fugir da própria insignificância.
O preconceito é um espelho quebrado: nele, o agressor vê refletido aquilo que não suporta em si mesmo.
Vivemos num país curioso. Somos uma mistura de sangues, sotaques, cozinhas, crenças e saudades. Há portugueses nas esquinas, africanos nos tambores, indígenas nos rios, árabes e judeus nos comércios, italianos nas mesas de domingo. Somos filhos da travessia. Ainda assim, insistimos em inventar fronteiras invisíveis entre nós.
Talvez porque seja mais fácil odiar do que compreender. Mesmo porque compreender exige escuta. E escutar é uma arte rara.
Quem escuta de verdade descobre que toda pessoa carrega uma dor secreta. O homem arrogante talvez tenha sido humilhado na infância. A mulher amarga talvez tenha amado demais. O jovem agressivo talvez esteja apenas pedindo socorro com palavras tortas. Calma lá, meus três ou quatro leitores: não estou justificando a maldade. Há atos que precisam, sim, de limite, correção, força e justiça. Uma sociedade que banaliza a violência verbal e física termina transformando crueldade em espetáculo.
Educar não é abandonar a ideia de consequência. Amar também é dizer “não”.
Vivemos tempos, digamos, diferentes. As pessoas parecem cansadas umas das outras. Qualquer divergência vira guerra. Qualquer opinião vira sentença. Perdemos a sutileza da divergência saudável. Perdemos a delicadeza da convivência. E sem delicadeza a vida apodrece.
Apesar das circunstâncias, eu ainda acredito nos encontros humanos. Acredito naquele instante milagroso em que alguém olha para o outro sem classificá-lo primeiro. Sem perguntar sua origem, sua cor, sua religião ou seu voto. Apenas olha e reconhece: “Ali existe alguém parecido comigo naquilo que importa, alguém que sofre, sonha, teme a morte e deseja ser amado.”

Imagem feita com auxílio de IA
No fundo, é isso que queremos desde crianças: sermos acolhidos sem precisar pedir desculpas por existir.
Talvez o contrário do preconceito não seja a tolerância. A tolerância ainda carrega certa arrogância escondida, como quem diz: “Eu permito que você exista.” O contrário do preconceito talvez seja o encantamento. A capacidade de perceber beleza na diferença. Afinal, o mundo seria insuportavelmente triste e monótono se todos fossem iguais.
As árvores não têm inveja das rochas. Os rios não odeiam as montanhas. Os pássaros não expulsam o vento porque ele sopra diferente. Só os homens, às vezes, transformam diversidade em motivo de guerra.
E no entanto, apesar de tudo, continuo acreditando.
Acredito que a bondade ainda sobrevive nos pequenos gestos: na mão que ajuda, na escuta paciente, no abraço dado sem perguntas, na palavra usada como ponte e não como pedra.
No fim, talvez a civilização seja apenas isto: aprender a não ferir desnecessariamente o coração dos outros.