Sobre jabuticabas e punhais
Estou meloso, enfadonho, monocórdico, chato. Na verdade, sou tudo isso há muito tempo, mas venho caprichando na dose e isso tem gerado, nesta nova faceta que resolvi expor, mais sabores que dissabores. Então, vai, para gáudio de meus dois leitores mimimis, o segundo texto do meu percurso woke/piegas. É só, para caprichar e fazer o que a patota sempre faz, uma variante do primeiro. E depois virá uma nova variante, até que nem eu mais me suporte.
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Tenho um sítio com um imenso quintal, o qual sempre foi o meu laboratório de Deus. Observando as árvores, aprendi que elas não pedem licença para crescer ao lado umas das outras. Uma mangueira não se sente ameaçada por um pé de amora. Elas, as árvores, apenas são. Nós, humanos, porém, carregamos um bicho estranho dentro do peito: o medo. E o medo, uma espécie de jardineiro descuidado, costuma plantar em nós uma erva daninha chamada preconceito, um fóssil vivo, que nasce daquele tempo primitivo em que o “outro” era sempre um perigo. Se não fosse igual a mim, deveria ser abatido. Era a lei da selva, da sobrevivência bruta. O problema é que vestimos terno e gravata, aprendemos a usar talheres de prata, mas o medo ancestral continua lá, agachado, esperando um descuido da alma para saltar e sair esbofeteando todo mundo.
Hoje, não usamos mais tacapes, mas usamos algo muito mais afiado: a palavra. Ah, a palavra… Ela é uma criatura paradoxal. Pode ser um carinho, um sopro de esperança, um poema que faz a gente chorar de beleza. Mas pode ser também um punhal, uma adaga, uma faça, uma tesoura, uma chave de fenda. Termos que antes eram ninhos de afeto agora precisam de etiquetas e cautelas, porque o veneno da intolerância contaminou o dicionário. O que era abraço virou chibata.
Eu sempre disse que cozinhar é um ato de amor. Quando preparamos um banquete, misturamos temperos de mundos diferentes. O orégano da Itália, a pimenta do México, o azeite de Portugal, a manteiga das terras do Seridó arcaico, nunca velho. Ninguém diz que o manjericão vai destruir o tomate. Eles se somam e se tornam algo maior. A vida deveria ser assim. Mas nos campos de futebol, nas esquinas das redes sociais, a palavra é usada para esfolar. Insultos que tentam diminuir o outro para que a nossa própria pequenez não apareça tanto. Porque, no fundo, quem tem preconceito é alguém que se sente muito pequeno e precisa de um degrau feito de ofensas para parecer alto.
Precisamos de rigor. Não do rigor que esmaga a vida, mas do rigor que protege a convivência. Não podemos aceitar a desculpa do “foi sem querer” ou do “calor do momento”. O mal não pode ser um hábito. Numa casa onde não há limites, as crianças não crescem, elas se perdem. Num país onde a impunidade é a regra, o ódio se sente em casa, senta-se à mesa e serve-se do nosso futuro. É preciso a lei, sim. O rigor da justiça verdadeira é o muro que impede que as ervas daninhas retornem ao jardim.

Imagem feita com auxílio de IA
A história de nosso país é um mosaico de cores, gostos, sabores e sotaques. Gente que cruzou mares para plantar sonhos aqui, vinda de lugares distantes, com deuses e línguas diferentes. Eles não eram iguais, e foi justamente por isso que a colheita foi tão rica. O diferente não é uma ameaça e, sim, um convite à descoberta. Se todos fôssemos iguais, o mundo seria um imenso deserto de espelhos, e não haveria nada para aprender. A monotonia e o enfado imperariam.
Estamos gastando nossas melhores energias na guerra do desprezo. Gastamos tempo vigiando a cor da pele do vizinho, o Deus que ele invoca, a forma como ele ama e as pessoas a quem ele confere prestígio. Que desperdício de vida! Enquanto afiamos punhais de palavras, os frutos apodrecem no pé. O mundo clama por mudanças, por pão, por dignidade, por beleza, por ousadia. E a beleza não sobrevive onde o medo governa. Por isso, meus pouquíssimos leitores, mudar é preciso. É tempo de trocar os punhais pelas sementes, o que indicaria não uma mudança de fachada, mas uma mudança de solo. Precisamos adubar o coração com tolerância e regar a inteligência com o respeito. Só assim deixaremos de ser trogloditas civilizados para nos tornarmos, finalmente, humanos. Pois a vida é curta demais para ser gasta odiando o que ainda não tivemos a coragem de compreender.