Psicologia de estúdio e miséria analítica

por Sérgio Trindade foi publicado em 25.maio.26

Um dos instantes particularmente comoventes na vida intelectual brasileira é aquele em que uma pessoa descobre um conceito científico e passa a utilizá-lo como quem encontrou um facão novo para cortar a selva inteira da experiência humana. Foi exatamente essa sensação que tive ou ouvir, num programa numa rádio local, o diagnóstico de que o bolsonarismo radical é um simples caso de dissonância cognitiva. O comunicador falava com aquela segurança litúrgica dos comentaristas contemporâneos, uma mistura de seminarista tardio com terapeuta de condomínio. Li algo em algum canto sobre o fato, vasculhei e encontrei a análise e resolvi escrever sobre o assunto.

Pensei: enquanto o rádio falava, a cidade seguia vivendo. Um motoboy atravessava o sinal vermelho ou passava por sobre uma calçada, uma senhora reclamava do preço do tomate num supermercado, um aposentado lia jornal numa praça quase abandonada, uns jovens jogavam bola numa quadra de bairro. Nenhum deles parecia saber que sua tragédia política acabara de ser resolvida por um conceito pinçado da psicologia da segunda metade dos anos 1950.

O ponto nodal da fala do comunicador está justamente no fato de que ela reproduz, com sinal invertido, o mesmo mecanismo que pretende denunciar. Sim, ele acusa o radical bolsonarista de viver numa bolha cognitiva enquanto conforta a própria audiência com uma narrativa simplificada, moralmente higienizada, intelectualmente tranquilizadora e de fácil compreensão. Troca-se apenas o figurino. O fanático do WhatsApp vira objeto exótico; o comentarista universitário, sacerdote da razão. O problema é que a realidade política contemporânea não cabe facilmente nessas categorias domesticadas

Leon Festinger, ao formular, em 1957, a teoria da dissonância cognitiva descrevia precisamente o desconforto psicológico gerado por crenças contraditórias. O indivíduo tenta reduzir a tensão racionalizando, reinterpretando fatos ou alterando comportamentos. Ora, o radical político contemporâneo não parece desconfortável. Pelo contrário, ele parece serenamente instalado numa arquitetura simbólica que lhe oferece coerência afetiva, identidade moral, pertencimento grupal e, portanto, tranquilidade. Logo, o sujeito não vive em dissonância, mas em consonância, pois sua realidade é internamente lógica. Afinal, ela possui líderes, símbolos, fontes de autoridade, inimigos identificáveis e uma narrativa épica capaz de transformar frustração social em sentido existencial. É exatamente aí que a análise do comunicador se revela intelectualmente preguiçosa, pois psicologiza aquilo que deveria ser compreendido politicamente – e política antiga ou contemporânea não pode ser reduzida a ambulatório psiquiátrico.

O que estudiosos contemporâneos como Dan Kahan demonstram é que indivíduos altamente escolarizados também praticam raciocínio motivado. Não se trata de ignorância pura ou incapacidade lógica e, sim, de um mecanismo pelo qual as pessoas filtram informações de acordo com identidades grupais e compromissos culturais prévios. Quanto mais inteligente o indivíduo, mais sofisticada provavelmente será sua racionalização. Isso destrói a fantasia pedagógica tão querida por parte da intelligentsia brasileira, a saber, a ideia de que bastaria despejar informação correta sobre as massas para dissolver o radicalismo. A história recente mostra exatamente o contrário.

Há fanáticos muito bem-informados, consumidores compulsivos de dados, vídeos, podcasts e análises políticas. O problema não é ausência de informação e, sim, a disputa de legitimidade sobre quem possui autoridade para definir o que conta como verdade. E aqui, meus três ou quatro leitores, entramos numa questão que a fala do comunicador contorna como um padre evita bordeis: a crise das instituições tradicionais.

A análise dele pressupõe que professores e universidades ainda ocupam naturalmente o lugar de árbitros morais da sociedade. Isso talvez funcionasse parcialmente num mundo de mediações centralizadas, quando jornais, universidades e grandes emissoras monopolizavam a circulação simbólica. A internet, porém, demoliu essa estrutura com a delicadeza de um caminhão desgovernado e boa parte da população passou a enxergar instituições acadêmicas não como espaços neutros de produção de conhecimento, mas como atores políticos inseridos em disputas ideológicas. Ignorar isso não é sofisticação analítica, é nostalgia corporativa.

Max Weber compreendia algo fundamental sobre legitimidade: o poder se sustenta apenas na racionalidade institucional e, também, em formas carismáticas de autoridade. Em contextos de crise, figuras carismáticas conseguem deslocar a fonte da verdade das instituições para a relação emocional entre líder e seguidores. É precisamente isso que fenômenos populistas (de direita ou de esquerda) contemporâneos realizam. A verdade deixa de emanar do procedimento racional-legal e passa a emergir do vínculo afetivo entre comunidade e liderança. O seguidor acredita porque pertence, porque reconhecer o líder significa reconhecer a própria identidade social. Bolsonaro é um polo do debate; Lula, o outro.

Reduzir tudo isso a uma espécie de pane mental coletiva é como tentar explicar um terremoto dizendo apenas que “o chão resolveu tremer”. Além disso, há um aspecto quase aristocrático no diagnóstico universitário do radicalismo. Existe uma satisfação moral em imaginar o outro como cognitivamente inferior. A elite intelectual brasileira frequentemente interpreta divergência popular como déficit educacional, nunca como reação histórica concreta a processos de exclusão, ressentimento cultural, colapso de confiança institucional, entre outros.

É um paternalismo elegante.

Imagem feita com auxílio de IA

Muitos comentaristas ainda operam segundo um imaginário iluminista tardio, acreditando que a sociedade funciona como uma grande sala de aula onde professores esclarecidos conduzem massas emocionalmente desorientadas rumo à racionalidade republicana. O século XXI não é uma sala de aula, talvez seja uma guerra de pertencimentos.

A cientista política norte-americana Liliana Mason mostra como identidades partidárias contemporâneas deixaram de ser apenas preferências eleitorais e passaram a organizar dimensões afetivas profundas da vida social. Política virou identidade totalizante: estética, moralidade, linguagem, sociabilidade, consumo cultural. O adversário deixa de ser alguém que pensa diferente e passa a representar ameaça existencial. Reduzir esse fenômeno a “dissonância cognitiva” produz exatamente o tipo de simplificação moral que alimenta a própria polarização que denuncia, transformando conflitos estruturais em patologia individual e evitando discutir desigualdade simbólica, perda de legitimidade institucional, ressentimentos regionais, precarização econômica e mutações tecnológicas da esfera pública. O que se faz é optar pelo conforto do diagnóstico psicológico portátil.

Há nisso alguma coisa profundamente brasileira. O país ama explicações rápidas com vocabulário sofisticado. É nossa versão tropical da escolástica medieval. Antigamente diagnosticávamos possessão demoníaca; hoje diagnosticamos negacionismo cognitivo. Mudam os termos, permanece intacta a necessidade de converter conflito político em enfermidade moral, enquanto o país real continua ali fora, irritado, fragmentado, desconfiado, movido por paixões contraditórias e cada vez menos disposto a aceitar a tutela simbólica de velhas autoridades culturais.

O mais irônico é que ao tentar demonstrar superioridade racional sobre os radicais bolsonaristas, certos intelectuais (e os pretensamente intelectuais) acabam revelando apenas outra forma de tribalismo. Uma tribo mais bem vestida, mais escolarizada, com chancela formal universitária e com melhor bibliografia, mas ainda assim apenas uma tribo, que se imagina iluminada, enquanto caminha alegremente dentro dos próprios labirintos afetivos, convencida de que apenas o outro enlouqueceu.

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