A estrada, a fotografia e o tempo

por Sérgio Trindade foi publicado em 04.jun.26

As pesquisas eleitorais são curiosas porque vivem de uma contradição. Nascem para medir o presente, mas são consumidas como se anunciassem o futuro. O eleitor olha os números e procura uma profecia. O candidato olha os mesmos números e procura um caminho. O jornalista, por sua vez, procura uma história. E o eleitor quer olhar a vitória de seu(s) candidato(s) preferido(s).

A mais recente pesquisa do Instituto Potiguar de Pesquisas e Estatísticas (Insppe), registrada sob o número RN-06172/2026, encomendada pela Vírgula Comunicação e divulgada pela Clube FM, TV Clube e Clube News, oferece material abundante para as três coisas: profecias, caminhos, histórias…

Imagem feita com auxílio de IA

No cenário para o governo do estado, o ex-prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra, aparece na liderança com 34,93% das intenções de voto. Não é pouca coisa. É uma vantagem confortável sobre o ex-prefeito de Natal, Álvaro Dias, que registra 23,07%. Mais atrás surgem Cadu Xavier, com 6,60%; Rodrigo Vieira, com 1%; Dário Barbosa, com 0,87%; e Robério Paulino, com 0,67%. A pesquisa revela mais. Ela revela um detalhe que costuma escapar aos entusiastas dos percentuais. Brancos, nulos e indecisos somam 32,87% do eleitorado. Em outras palavras, quase um terço dos entrevistados ainda não embarcou em nenhuma das canoas disponíveis. E é aí que a fotografia ganha movimento, pois quem conhece a história política do Rio Grande do Norte sabe que eleições raramente são decididas apenas por números. São decididas por alianças, rupturas, vaidades, ressentimentos, acidentes de percurso e o imponderável. A política, principalmente no Nordeste, continua sendo uma atividade profundamente humana. E seres humanos possuem o defeito – ou a virtude – de mudar de ideia. Por estas bandas, isso quase nunca falha.

A disputa pelas duas vagas do senado confirma essa impressão de estrada aberta, com o senador Styvenson Valentim liderando com 19,60% das citações na soma dos dois votos permitidos ao eleitor. Atrás dele trava-se batalha animada: a senadora Zenaide Maia aparece com 12,30%, enquanto Rafael Motta registra 8,23%. Considerando a margem de erro de 2,5 pontos percentuais, os dois encontram-se em situação de empate técnico na disputa pela segunda vaga. Correndo por fora, aparecem Coronel Hélio, com 5,53%; Flávio Rocha, com 4,10%; Samanda Alves, com 4,03%; Sandro Pimentel, com 2,70%; e Rosália Fernandes, com 2,47%. Novamente, chama atenção o contingente dos que ainda não escolheram. Não sabem em quem votar para o senado 25,70% dos entrevistados. Outros 15,33% declararam intenção de votar em branco ou anular.

É um retrato interessante do eleitor contemporâneo. Durante décadas, a política potiguar era dominada por famílias, tradições, fidelidades e cartas marcadas quase hereditárias. Havia quem nascesse, crescesse e envelhecesse votando no mesmo grupo. Hoje o eleitor parece mais cauteloso, menos fiel, mais desconfiado e mais ressabiado. O comportamento lembra o comprador de feira que circula por todas as bancas antes de escolher as frutas e verduras. Examina, compara, pergunta o preço, pechincha e adia a decisão, porque aprendeu que promessas, como mangas e batatinhas, precisam ser apalpadas antes da compra.

Naturalmente, nenhuma pesquisa está livre das paixões que acompanham a política. Uns celebram os números quando estão na frente e os desqualificam quando ficam atrás. Outros fazem exatamente o contrário. Mas há um aspecto digno de registro neste levantamento. O Insppe procura apresentar-se como – e é – uma instituição ancorada em corpo técnico universitário, metodologia transparente e conhecimento da realidade local. Estatísticos e cientistas políticos marcam o passo da empresa. Num mercado frequentemente marcado por desconfianças, é uma credencial relevante. Os números, portanto, merecem atenção. Não veneração, afinal, pesquisas são como aquelas fotografias antigas encontradas em caixas de sapato. Elas mostram quem estava sorrindo, quem ocupava o centro da cena, quem parecia destinado ao protagonismo e quem será esquecido. O que não mostram é tudo o que aconteceu depois – e é justamente esse depois que faz a história.

Foram ouvidas 1.500 pessoas entre os dias 26 e 28 de maio. A margem de erro é de 2,5 pontos percentuais para mais ou para menos, com intervalo de confiança de 95%. Por ora, a fotografia registra Allyson à frente na corrida pelo governo e Styvenson liderando para o senado. O restante continua entregue ao velho artesão das eleições brasileiras: o tempo.

E o tempo, nunca devemos esquecer, possui o hábito irritante de desmentir certezas.

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