Coronel João Medeiros: o tempo, o algodão e o sertão

por Sérgio Trindade foi publicado em 29.jul.26

Estou pesquisando sobre a vida do coronel João Medeiros, de Jardim do Seridó – de quem ouvi falar pela primeira ainda nos anos 1970 –, para escrever um artigo para uma revista acadêmica. Já coletei muita coisa e estou com o texto bem adiantado, mas antes de entregá-los aos editores da revista, resolvi escrever esta pequena crônica sobre o coronel.

João Silva, de Florânia, grande fazendeiro e amigo de meu pai, frequentemente se referia de maneira elogiosa ao coronel João Medeiros. Anos à frente, meu tio materno Joaquim Bezerra Filho, conhecido em Upanema como Neném de Quinca Bezerra, dizia que sua vida profissional tomou rumo alvissareiro quando, na década de 1960, passou “a puxar algodão para o coronel João Medeiros”. Doutor Manoel de Brito, nascido na Jardim de Seridó de João Medeiros, é outro que não cansa de elogiar o velho coronel seridoense.

O coronel João Medeiros parece ter sido aquele tipo de homem que parece ter nascido do barro da terra onde viveu. Não porque jamais tenham saído dela, mas porque, mesmo quando o destino o levava mais longe, mais ele continuava trazendo nos sapatos a poeira do caminho. Se alguém quiser conhecer um pedaço da história do Seridó sem abrir um livro, bastaria caminhar pelas ruas de Jardim do Seridó e perguntar por ele. Fatalmente ouviria menos uma biografia do que um punhado de lembranças.

O sertão nordestino tinha um jeito curioso de ensinar seus filhos. Não distribuía diplomas, distribuía estiagens; não concedia facilidades, oferecia desafios. Foi nesse magistério severo que João Medeiros aprendeu primeiro a lidar com a terra, com o gado e com a esperança, muito antes de descobrir as contas do comércio. O menino que ajudava o pai nas tarefas do campo não imaginava que, um dia, faria do algodão uma ponte entre aquele rincão castigado pelo sol inclemente e os grandes mercados do país e do exterior.

Há quem veja apenas sorte nas grandes trajetórias. O sertanejo, porém, sabe que a sorte costuma aparecer vestida de seca. Quando a estiagem de 1908 fez muitos enxergarem apenas ruína, João Medeiros percebeu uma oportunidade escondida entre os espinhos da caatinga. Comprou rebanhos que outros julgavam condenados, esperou a chuva como quem espera uma antiga promessa e, quando ela voltou, voltaram também os bois, os negócios e um futuro que parecia improvável. Mais tarde veio o algodão, o ouro branco que iluminou economicamente o Seridó durante algumas décadas. As plumas que saíam das lavouras carregavam fibras e levavam consigo também o esforço de uma gente acostumada a negociar com o céu.

João Medeiros percebeu cedo que não bastava vender o produto da terra. Era preciso transformá-lo e assim ele o fez. Instalou usinas, trouxe máquinas, ampliou mercados e fez de Jardim do Seridó um nome conhecido muito além das serras que cercavam a cidade. Aquele município interiorano passou a conversar, por meio de sua produção, com o mundo inteiro.

Imagem feita com auxílio de IA

O maior patrimônio do coronel João Medeiros talvez nunca tenha sido o algodão e, sim, a confiança. Num tempo em que um aperto de mão valia mais que um cartório, o crédito morava na palavra, não no papel timbrado. E João Medeiros tornou-se um desses homens cuja assinatura era precedida pela reputação. Foi fiador de pequenos produtores, parceiro de comerciantes e referência para quem precisava de auxílio. Construiu uma autoridade que não dependia apenas da riqueza acumulada, mas da impressão que deixava nas pessoas.

Chamavam-no coronel. Hoje a palavra desperta desconfianças, porque a memória nacional costuma associá-la ao arbítrio e ao mando bruto. O sertão, contudo, às vezes guarda exceções que desafiam as classificações apressadas. João Medeiros exercia influência política, frequentava governadores, participava das grandes articulações do Rio Grande do Norte, indicava caminhos para aliados e era ouvido nas decisões importantes. Ainda assim, preferia caminhar pelas ruas da cidade cumprimentando as pessoas pelo nome, visitando os jornais e acompanhando de perto o funcionamento de suas empresas. Era poderoso sem fazer questão de parecer distante.

O tempo, que nunca respeita impérios, também bateu à porta daquele construído com algodão e trabalho. A economia mudou de rumo. Vieram a mineração, as fábricas de óleo, de margarina, as confecções. Depois, já noutra geração, onde antes giravam máquinas industriais surgiram vitrines, corredores e consumidores. O Shopping Via Direta talvez seja, simbolicamente, uma continuação daquela velha venda de Jardim do Seridó; muda o cenário, permanecem o comércio e a capacidade de adaptação.

Penso, às vezes, que as cidades também envelhecem como as pessoas. Guardam rugas invisíveis nas fachadas antigas e lembranças escondidas nas praças. Em Jardim do Seridó existe uma praça que leva o nome de João Medeiros. Alguém poderá dizer que é apenas uma homenagem. Talvez seja mais do que isso. Talvez seja a maneira encontrada por uma cidade de agradecer a um homem que ajudou a transformá-la sem fazê-la esquecer de onde veio. Porque o sertão ensina outra lição, silenciosa e profunda: riqueza nenhuma substitui a memória. E há homens que continuam vivos não pelas empresas que fundaram, nem pelos cargos que ocuparam, mas porque, quando seus nomes são pronunciados, parece que o vento volta a soprar entre os juazeiros, trazendo consigo o cheiro da terra molhada e a velha certeza de que o trabalho, quando caminha de mãos dadas com a palavra, pode durar mais do que a própria vida.

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