O rei que o Brasil aprendeu a esperar
A esperança, como se sabe, é uma coisa que não gosta de ficar parada. Aprendi isso lendo – e lendo principalmente sobre a campanha de Aluízio Alves, em 1960. Uma campanha que se fez andando.
No caso do rei D. Sebastião, a esperança chegou ao Brasil nas caravelas e aqui encontrou uma terra onde o sofrimento tinha muitas formas e poucos remédios. O mito do rei desaparecido encontrou ainda a figura de São Sebastião, o santo das flechas, e as duas imagens acabaram se misturando na imaginação popular.
Em 1565, Estácio de Sá, na luta para expulsar os franceses, fundou São Sebastião do Rio de Janeiro e o santo guerreiro tornou-se protetor das armas portuguesas contra franceses e tamoios. E correu a história de que ele próprio aparecera no campo de batalha, invisível para uns, terrível para outros, recebendo no corpo as flechas destinadas aos soldados lusitanos. Era, meus três ou quatro leitores, uma estranha coincidência: um santo atravessado por flechas e um rei desaparecido numa guerra santa em terras brasílicas, onde a flecha também era uma presença cotidiana. A história parecia encontrar sua própria linguagem.

Imagem feita com auxílio de IA
Com o passar dos séculos, o sebastianismo desceu dos salões para as palhoças, os terreiros, os mocambos e o sertão. Deixou de ser apenas a espera pelo retorno de um rei português e se transformou na espera por uma justiça que nunca chegava. Para o negro escravizado, para o índio expulso de sua terra, para o sertanejo esquecido, o rei escondido passou a representar uma esperança simples e terrível, a saber, a de que alguém, algum dia, viesse pôr o mundo em ordem.
Na Bahia, em Pernambuco e no Maranhão, a imaginação fez o resto. Dom Sebastião já não estaria nos desertos da África. Estaria encantado na Ilha de Lençóis, no Maranhão, transformado num touro negro com uma estrela na testa. O rei europeu vestia-se de lenda tropical. O nevoeiro português ganhava maresia, areia, pajelança e calor. No sertão a espera ficou mais grave. Haveria Pedra Bonita e Canudos e nestes e noutros rincões o que chegava não era simplesmente uma velha história portuguesa e, sim, a necessidade de acreditar que a miséria não podia ser a última palavra. Talvez por isso o sebastianismo tenha sobrevivido tanto tempo. Era sobre D. Sebastião, mas era acima de tudo sobre os homens que precisavam dele, sobre como um povo acostumado ao abandono aprende a esperar pelo impossível, quando a realidade fecha todas as portas e a esperança inventa uma janela.
E assim o rei atravessou o Atlântico, e ficou. Ficou no imaginário, nas histórias contadas à noite, nos sertões secos, nas praias do Maranhão, na alma daqueles que esperam alguma reparação para uma vida que parece ter sido escrita sem eles.
O brasileiro continuou entre os séculos XVII e XX e segue no século XXI com os pés no chão e os olhos no mar, no aguardo do nevoeiro, uma espera tão absurda e tão humana que talvez explique por que certas lendas sobrevivem aos próprios reis.