A bola premiou o ABC
A vitória do ABC, ontem, não terminou quando o juiz apitou o fim do jogo. Ela começou justamente aí. O 1 a 0 sobre o Nacional-AM, diante de 31.059 torcedores na Arena das Dunas, foi uma espécie de certidão de nascimento de um futuro que o alvinegro havia perdido um ano atrás. O ABC está de volta à Série C em 2027.

Imagem feita com auxílio de IA
E vejam que curioso: o gol foi de Wallyson, de pênalti. Futebol tem dessas ironias. Às vezes, para devolver um clube ao lugar de onde ele caiu, é preciso uma bola parada, uma cobrança sem poesia aparente. Mas a poesia estava nas arquibancadas. Estava no estádio cheio, naquela gente que passou o ano inteiro carregando o ABC como quem carrega uma promessa.
O ABC já havia vencido em Manaus por 2 a 1 e chegava à Arena das Dunas com a vantagem do empate. Poderia ter jogado pelo regulamento, como quem fecha a porta e joga a chave pela janela. Não fez exatamente isso. Fez o que os times precisam fazer quando carregam uma camisa pesada: sofreu, combateu, administrou, esperou e, quando apareceu a oportunidade, bateu. Futebol também é isso: saber que há dias em que a coragem está em atacar e, principalmente, em não tremer.
Depois do gol abecedista, o Nacional precisou buscar dois. E o ABC passou a jogar um futebol de trincheira, com pouca conversa, muita perna, uma dividida aqui, outra ali, e a bola sendo tratada como propriedade particular. Não foi uma obra-prima e nem precisava ser, afinal em jogo de acesso, a beleza muitas vezes está na sobrevivência.
O ABC caiu para a Série D em 2025 e voltou imediatamente. Não houve tempo para a permanência na lama virar hábito. O clube encontrou no fundo da quarta divisão o caminho de volta à superfície. Eliminou Altos, Águia de Marabá, Luverdense e Nacional-AM e chegou à semifinal.
Agora começa outra história.
A Série D de 2026 é a maior da história, com 96 clubes. E a temporada trouxe uma novidade: seis acessos à Série C, não quatro. Os quatro semifinalistas subiram diretamente; os outros dois lugares serão decididos em playoffs entre os eliminados nas quartas. Os quatro que sobreviveram são ABC, Uberlândia, Gama e ASA. O Uberlândia eliminou o CSA por 3 a 0 no agregado; o Gama despachou o São José por 5 a 1; e o ASA precisou dos pênaltis para superar o Goiatuba, depois do empate por 1 a 1. Agora a bola deixa de ser apenas uma esfera de couro e começa a carregar sonhos. Nas semifinais, o ABC enfrentará o Uberlândia. Do outro lado, Gama e ASA. Os vencedores decidirão o título da Série D. Independente do que houver daí por diante, o ABC já ganhou uma coisa maior que uma semifinal: o direito de olhar novamente para cima.
Ontem, a Arena das Dunas viu um time vencer e um clube voltar a respirar. O futebol, com sua brutal simplicidade, uma vez mais nos lembrou de uma verdade que nenhum filósofo precisa explicar: cair faz parte. O que distingue os grandes é a capacidade de levantar antes que os outros se acostumem a vê-los no chão.
O ABC levantou. E voltou, grande, para casa. Se subir mais um degrau, para a série B, estará onde deve estar. Com calma, porque subida firme e segura é aquela feita degrau a degrau.