O Zanolho de Notredame

por Sérgio Trindade foi publicado em 22.out.26

Notredame era uma cidade tão pequena que, se alguém espirrasse na praça principal, havia sempre um cidadão em Natividade, capital do estado a cinquenta quilômetros de distância, disposto a comentar o caso antes mesmo que o espirrador encontrasse um lenço para assoar o nariz. A economia local girava em torno da prefeitura, da igreja matriz, de três mercadinhos, uma farmácia e uma loja de material de construção onde três funcionários trabalhavam como burros de carga. O lugar não oferecia grandes oportunidades, mas tinha uma vantagem: ali, todo mundo conhecia todo mundo, inclusive os defeitos que ninguém havia pedido para ter.

Nesse ambiente de horizontes estreitos e ambições relativamente largas nasceu, em 1994, Childererico Quasímodo de Araújo. O pai, homem de imaginação exuberante e conhecimentos históricos duvidosos, insistira nos nomes depois de ouvir referências a personagens franceses numa conversa de bar. A mãe, que preferia nomes mais compatíveis com a certidão de nascimento de uma criança brasileira, ainda tentou argumentar, mas acabou vencida pela insistência paterna, pela intervenção de uma tia que entendia de numerologia e pela burocracia do cartório, que aceitava praticamente tudo desde que coubesse no formulário.

O menino nasceu vesgo. Não um pouco vesgo, daqueles que fazem os parentes inclinarem a cabeça para conferir se entenderam direito a direção do olhar, mas vesgo de maneira ostensiva, com cada olho parecendo ter recebido uma convocação para compromissos diferentes. Quando olhava para a mãe, ninguém sabia se estava procurando o pai. Quando olhava para o pai, havia sempre a possibilidade de estar observando o cachorro ou o gato da família. A família, inicialmente preocupada, logo descobriu que o estrabismo era uma condição menos grave do que o nome e, ao contrário deste, não podia ser corrigido no cartório.

Childerico cresceu entre as ruas poeirentas de Notredame, os bancos da escola e os corredores da igreja matriz, onde passou boa parte da infância servindo ao Senhor e, involuntariamente, proporcionando entretenimento aos fiéis. Estudou até concluir o ensino médio, sem que o desempenho escolar chegasse a produzir acontecimentos dignos de registro nos anais municipais. Na igreja, porém, encontrou uma atividade na qual sua disposição para obedecer, sua discrição e a familiaridade com os ambientes solenes lhe garantiam algum prestígio. Foi coronha, transportando objetos litúrgicos com a seriedade de um funcionário encarregado de uma operação de segurança nacional, e acabou promovido a sacristão, posto que lhe permitia circular pelos bastidores da fé sem precisar explicar a ninguém por que estava olhando para a direção aparentemente errada. Conhecia os horários das missas, sabia onde ficavam as alfaias, distinguia os objetos sagrados dos objetos apenas caros e aprendera que, em certas circunstâncias, o silêncio valia mais do que uma homilia inteira.

Nessa época ganhou o apelido de O Zanolho de Notredame. A alcunha, lançada por algum engraçadinho e adotada com a eficiência de uma epidemia, atravessou a cidade mais depressa do que qualquer notícia da prefeitura. Childerico fingia não se importar. Quando os rapazes riam à sua passagem, ele mantinha o sorriso e continuava caminhando, embora um de seus olhos parecesse acompanhar os zombadores e o outro estivesse empenhado em alguma investigação particular sobre a arquitetura do templo.

O jovem um dia descobriu uma vantagem em ser motivo de piada. As pessoas costumavam prestar atenção à caricatura e negligenciar o indivíduo. Enquanto os conhecidos se divertiam imaginando para onde Childerico olhava, poucos se perguntavam o que ele observava, o que guardava na memória ou que conclusões extraía das conversas alheias. A humilhação, quando administrada durante tempo suficiente, pode ensinar algumas lições, embora nem todas sejam edificantes.

Ao concluir o ensino médio, Childerico percebeu que Notredame era pequena demais para seus projetos, embora não necessariamente pequena demais para os projetos que viriam a torná-lo conhecido. A cidade oferecia poucas alternativas profissionais, e ele não tinha vocação para o magistério, para o comércio de miudezas ou para a carreira eclesiástica, que exigia uma devoção incompatível com certas curiosidades humanas. Resolveu estudar Turismo na Universidade Federal de Rio das Mortes, no campus Central, e partiu com uma mala, alguns livros e revistas e a convicção de que o mundo era muito maior do que a distância entre Notredame e Natividade.

A universidade ampliou seus horizontes, mas não melhorou a pontaria dos olhos alheios. Nos corredores, nas salas de aula e nas festas em que estudantes discutiam a transformação social enquanto tentavam descobrir quem pagaria a cerveja, Childerico voltou a ser objeto de comentários. Dessa vez, porém, a imaginação universitária produziu uma atualização da antiga crueldade: Quasímodo Cerveró. A combinação, inspirada em referências que circulavam entre os estudantes, parecia ter sido encomendada por uma comissão de humoristas sem qualquer compromisso com a delicadeza. Acostumado, ele recebeu o apelido com a serenidade de quem acabava de descobrir uma nova linha de crédito. Não protestou, não ameaçou recorrer à coordenação do curso e tampouco publicou nas redes sociais um manifesto sobre o preconceito contra os estrábicos. Limitou-se a sorrir, gesto que, em seu caso, tinha a vantagem adicional de deixar os interlocutores sem saber se estavam sendo cumprimentados, examinados ou discretamente ridicularizados.

Durante os anos de graduação universitária, estudou os fundamentos da hospitalidade, a organização de destinos turísticos, o planejamento de empreendimentos e os mecanismos pelos quais visitantes, serviços e recursos circulavam de um lugar para outro. Aprendeu que um hotel não era apenas um edifício com camas, recepção e toalhas limpas, mas uma estrutura capaz de reunir pessoas que, em outras circunstâncias, talvez não desejassem ser vistas juntas. Aprendeu também que um projeto bem apresentado podia despertar mais entusiasmo numa repartição pública do que uma necessidade real da população. Isso foi um achado. E achado não é roubado.

A universidade não ensinou Childerico a roubar, só a perceber oportunidades A universidade ensinou Turismo, e seria injusto responsabilizar uma instituição inteira pelas aplicações particulares que um diplomado resolve dar ao conhecimento adquirido. O que Childerico desedvolveu por conta própria foi uma interpretação muito peculiar da hospitalidade: receber bem, acomodar melhor e fazer com que os hóspedes se sentissem tão à vontade que esquecessem a inconveniência de explicar por que estavam ali.

Quando recebeu o diploma, voltou à região sem procurar emprego em agências de viagem, companhias aéreas ou empresas de excursões. Essas atividades tinham a desvantagem de exigir clientes interessados em viajar e de produzir receitas proporcionais ao trabalho realizado. Childerico preferiu empreender. Escolheu um terreno à margem da rodovia, levantou um edifício de fachada discreta e inaugurou a Pousada Indochina, nome que aproveitava uma parte de seu fascínio pelo Oriente e dispensava qualquer referência a santos, personagens literários ou políticos envolvidos em escândalos.

A pousada tinha quartos confortáveis, estacionamento amplo, café da manhã servido cedo e uma recepção onde ninguém demonstrava surpresa diante da chegada de um hóspede. O recepcionista era treinado para sorrir, pedir os documentos necessários e não manifestar curiosidade quando um visitante chegava acompanhado de alguém que não constava na agenda oficial. Havia ainda uma suíte presidencial no último andar, embora a pousada não recebesse presidentes da República, o que era uma pena para a República e um alívio para os funcionários.

Foi nessa suíte que o empreendimento encontrou sua verdadeira vocação.

Prefeitos, secretários municipais, empresários, intermediários e lobistas passaram a frequentar a Pousada Indochina. Chegavam em automóveis oficiais, veículos particulares ou carros alugados, conforme o grau de discrição exigido pela ocasião. Alguns traziam pastas volumosas, outros preferiam computadores e havia os que compareciam de mãos vazias, confiando na capacidade de terceiros para produzir documentos capazes de justificar qualquer coisa, desde um festival de música sertaneja até a revitalização turística de uma lagoa onde mal havia água para os peixes.

À mesa de reuniões, sob a iluminação cuidadosamente distribuída para evitar fotografias desfavoráveis, desenhavam-se projetos de grande ambição e utilidade duvidosa. Planejavam-se centros de convenções em municípios sem convenções, circuitos gastronômicos sem restaurantes suficientes para formar um circuito e festivais culturais cujo principal produto cultural era a assinatura dos contratos. As planilhas eram coloridas, as apresentações exibiam fotografias de destinos turísticos distantes e os relatórios empregavam expressões como sustentabilidade, inovação, inclusão produtiva e desenvolvimento regional, palavras que, reunidas em quantidade suficiente, adquiriam a propriedade extraordinária de tornar qualquer despesa aparentemente virtuosa. O presidente dos encontros era sempre Indochina. E ele o fazia sem levantar a voz. Mantinha um dos olhos aparentemente fixo na janela e o outro atento às reações dos presentes, embora ninguém pudesse afirmar com segurança que a distribuição das atenções obedecesse àquela descrição. Quando um prefeito hesitava diante de determinada cifra, o anfitrião inclinava-se sobre a mesa e explicava, com paciência quase sacerdotal, que o desenvolvimento exigia coragem, planejamento e uma visão estratégica do futuro. O prefeito, que até então não demonstrara especial interesse pelo futuro, passava a examiná-lo com a disposição de quem acabara de descobrir uma oportunidade de financiamento.

Os projetos avançavam. Os recursos públicos saíam das contas municipais, percorriam contratos, consultorias, empresas e subcontratações, até que a população, sempre muito paciente, recebia alguma placa comemorativa, uma obra incompleta ou um evento cuja lembrança mais duradoura era o trânsito interrompido. Os relatórios finais, naturalmente, registravam resultados positivos. Se faltava público, havia sido uma experiência de turismo segmentado; se a obra não terminava, tratava-se de uma execução por etapas; se ninguém conseguia explicar o destino de parte do dinheiro, o problema era de comunicação institucional.

O antigo sacristão compreendia a importância dos rituais. Assim como a missa exigia vestes apropriadas, objetos organizados e uma sequência de gestos reconhecíveis, a administração dos negócios públicos dependia de assinaturas, carimbos, pareceres e cerimônias de inauguração. Em ambos os casos, havia pessoas encarregadas de conferir legitimidade ao procedimento. A diferença era que, na igreja, ao menos se esperava que a cerimônia conduzisse a alguma forma de elevação espiritual.

Certa dia, pela manhã, enquanto o café esfriava numa bandeja da suíte presidencial, um secretário municipal perguntou a Childerico se não havia risco de alguém descobrir que o projeto de revitalização turística apresentado na véspera era, para dizer o mínimo, muito mais vistoso no papel do que na realidade. O secretário olhava para a porta, como se esperasse que a Polícia Federal entrasse a qualquer momento com uma ordem judicial e uma equipe de televisão. Com calma, Childerico ajeitou o nó da gravata, examinou a planilha e deixou escapar um sorriso que poderia significar tranquilidade, desprezo ou apenas a dificuldade habitual de interpretar seu rosto.

–  Meu amigo, você precisa distinguir um projeto malfeito de um projeto mal explicado. O primeiro exige correção; o segundo, uma boa assessoria de comunicação. O que não podemos permitir é que uma dificuldade de interpretação prejudique uma iniciativa tão importante para o desenvolvimento regional.

O secretário pareceu aliviado. Não compreendera nada, mas percebeu que a resposta continha a palavra desenvolvimento, que era exatamente a palavra de que precisava para se sentir menos culpado. Pediu mais café, aprovou o encaminhamento e voltou ao município convencido de que participava de uma operação sofisticada de modernização administrativa.

Com o passar dos anos, a Pousada Indochina prosperou e Childerico deixou de ser apenas o rapaz de Notredame cujo olhar provocava risos. Tornou-se um anfitrião respeitado por gente que, em público, costumava pronunciar discursos sobre ética, transparência e responsabilidade administrativa. Na recepção, continuava cumprimentando os hóspedes com a mesma cordialidade. Os funcionários sabiam que a discrição era uma exigência profissional, e não uma virtude espontânea, ainda que ninguém recebesse adicional de insalubridade moral por trabalhar na suíte presidencial.

Imagem feita com auxílio de IA

Em Notredame, a história do menino que servia ao altar e depois construiu uma pousada chegou a adquirir contornos de lenda. Alguns admiravam o empreendedor; outros desconfiavam de sua fortuna; muitos preferiam não perguntar nada, pois tinham parentes empregados na prefeitura, conhecidos que prestavam serviços à pousada ou projetos próprios aguardando aprovação. A cidade continuava pequena, mas a rede de interesses que se estendia entre ela, Natividade e por grande parte de Rio das Mortes era suficientemente grande para acomodar muitas consciências desconfortáveis.

Childerico, vale destacar, não abandonou inteiramente os hábitos da juventude. Em certas noites, quando a pousada ficava silenciosa e os últimos hóspedes se recolhiam, caminhava até uma pequena capela que mandara construir nos fundos do terreno. Sentava-se num banco, observava o crucifixo e permanecia alguns minutos em silêncio. Não se sabe se rezava por perdão, agradecia pela prosperidade ou apenas conferia se alguém o observava. A fé, afinal, admite uma variedade de usos, e a consciência humana costuma ser ainda mais versátil.

Na parede da capela, mandou instalar, como uma homenagem aos ensinamentos recebidos na infância, explicou certa vez a um visitante, uma placa com uma frase sobre honestidade, humildade e serviço ao próximo. O visitante, que acabara de assinar um contrato de consultoria turística de valor considerável, emocionou-se diante da placa e comentou que o país precisava de mais homens assim.

Childerico agradeceu sem corrigir a impressão, afinal passara a vida inteira aprendendo que as pessoas enxergam aquilo que desejam enxergar. Em Notredame, tinham visto um menino vesgo; na universidade, um personagem de piada; na Pousada Indochina, um empresário competente, um articulador habilidoso, um homem que conhecia os caminhos da administração pública, sabia receber seus convidados e, acima de tudo, desviar dinheiro público.

Talvez fosse essa a maior lição de sua trajetória: não era necessário convencer todo mundo de que se olhava na direção certa. Bastava que ninguém conseguisse provar para onde, afinal, se estava olhando.

Enquanto as autoridades continuassem confundindo a solenidade dos procedimentos com a honestidade dos propósitos, o antigo Zanolho de Notredame poderia dormir tranquilo, com um olho fechado para a realidade e o outro, certamente, atento à próxima oportunidade, aquela que sempre lhe fazia mais ladrão.

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