A universidade dos números fantasiosos
Era uma universidade respeitada. Atendia a mais de 8 mil estudantes. Era o que diziam os números. E os números, como se sabe, não costumam discutir com ninguém, sobretudo quando recebem um bom tratamento estatístico.
Tinha mais de seiscentos professores, distribuídos por vinte e um cursos superiores e oito programas de pós-graduação, sendo quatro especializações, dois mestrados e dois doutorados. Esses dados eram divulgados com indisfarçável orgulho, como se cada professor fosse uma usina de conhecimento e cada curso, uma pequena fábrica de gênios. Os relatórios anuais eram verdadeiras obras de ficção, embora classificados como documentos administrativos.
Entre os seiscentos professores, havia uns cinquenta que pareciam ter descoberto uma modalidade particularmente confortável de vida acadêmica. Quase não davam aulas, pouco apareciam nos corredores e, quando apareciam, tinham sempre alguma coisa muito importante a fazer em outro lugar. Eram pesquisadores. A palavra, pronunciada com a solenidade de quem anuncia a descoberta de uma nova galáxia, produzia nos interlocutores uma mistura de respeito e constrangimento. Todos recebiam bolsas generosas, viajavam para congressos, mostras científicas e simpósios, participavam de seminários e voltavam com certificados, fotografias e a convicção de que a ciência havia dado mais um passo, ainda que ninguém soubesse exatamente em qual direção.
Um dia, alguém resolveu estudar o fenômeno. Não se tratava de uma investigação científica, porque ninguém queria correr o risco de descobrir alguma coisa. Era apenas uma curiosidade administrativa, dessas que surgem quando alguém olha uma planilha por tempo demais. Transcorridos uns dias e consultadas algumas planilhas, chegou-se a uma equação: PB + PV = PS. A fórmula parecia simples. PB significava Pesquisadores Bolsistas; PV, Pesquisadores Viajantes; PS, Pesquisadores.
A descoberta provocou certo desconforto, porque tinha a inconveniência de ser compreensível e naquela universidade as coisas compreensíveis costumavam ser vistas com desconfiança. O ideal era que um problema tivesse pelo menos três comissões, duas portarias e um vocabulário suficientemente complicado para impedir que alguém chegasse a uma conclusão. Sem contar os sumiço de indícios, provas e até pessoas.
Para seguir o script, a equação foi encaminhada a uma comissão de estudos, a qual reuniu-se durante três meses. No primeiro, discutiu a legitimidade dos sinais matemáticos. No segundo, questionou o emprego do termo salafrário, considerado excessivamente coloquial para um documento institucional. No terceiro, concluiu que a fórmula precisava de maior aprofundamento teórico e metodológico.
O relatório final recomendou a criação de um grupo de trabalho.
Enquanto isso, os pesquisadores continuaram pesquisando. Alguns estudavam a desigualdade social em países distantes, embora não tivessem muito tempo para conversar com os alunos que enfrentavam dificuldades no próprio curso. Outros investigavam os efeitos da mobilidade acadêmica sobre a produção do conhecimento, passando boa parte do ano em aeroportos. Havia ainda os especialistas em produtividade científica, que publicavam artigos sobre a importância de publicar artigos. Não eram necessariamente incompetentes. Alguns tinham currículo invejável, dominavam idiomas, conheciam e eram capazes de pronunciar expressões em inglês com uma naturalidade que intimidava até os dicionários. O problema era que, em certos casos, a excelência acadêmica parecia funcionar como um salvo-conduto para a ausência.

Imagem feta com auxílio de IA
A universidade precisava dos números. Sem eles, como justificaria sua importância? Seiscentos professores impressionavam mais do que quinhentos e cinquenta, ainda que cinquenta estivessem ocupados demais com insignificâncias para ensinar. Oito programas de pós-graduação produziam uma impressão de grandeza que nenhuma discussão sobre resultados concretos conseguiria superar.
A administração compreendeu que o problema não estava nos números, mas na interpretação deles. Afinal, seiscentos professores continuavam sendo seiscentos professores, independentemente de quantos entrassem em sala de aula. E um pesquisador continuava sendo pesquisador mesmo quando sua pesquisa não chegava a lugar algum. A instituição não podia ser responsabilizada pelas expectativas exageradas que a sociedade depositava nas palavras. Para resolver isso, a comissão voltou a se reunir e apresentou uma nova fórmula, mais adequada aos padrões acadêmicos: PB + PV = PS, desde que respeitadas as especificidades institucionais.
A ressalva foi considerada brilhante. O documento recebeu elogios, foi aprovado por unanimidade e encaminhado para publicação nos anais de um congresso internacional.
A administração e os cinquenta pesquisadores ficaram satisfeitos. Os alunos continuaram esperando professores, e os professores que efetivamente davam aulas continuaram dando aulas, agora com a vantagem de poder afirmar que trabalhavam numa universidade de excelência reconhecida.
No ano seguinte, a instituição anunciou um novo recorde de produtividade científica. O número de publicações havia crescido, assim como o de viagens, bolsas e relatórios. A universidade festejou a conquista com uma cerimônia solene, na qual se falou muito em compromisso e referenciamento social, inovação e futuro.
Na semana que antecedeu as aulas, alguém perguntou se os resultados tinham melhorado.
Houve um breve silêncio. Refeita da surpresa, a mesa diretora anunciou a criação de uma comissão para estudar o significado da palavra resultado.