A sucessão de Cortez Pereira – parte 2

por Sérgio Trindade foi publicado em 18.jul.20

Quando a política perde o pudor e passa a devorar a si mesma, entre os fins dos anos 1960 e início dos anos 1970, o poder reage com a frieza dos quartéis. Foi exatamente isso o que ocorreu na sucessão de Cortez Pereira. Diante da autofagia explícita entre os seis nomes inicialmente encaminhados ao presidente Ernesto Geisel para a escolha do novo governador do Rio Grande do Norte, o Palácio do Planalto decidiu agir como quem varre o tabuleiro: zerou o jogo e ordenou que se buscassem outras opções. A ARENA potiguar, incapaz de produzir consenso, havia ultrapassado o limite tolerável até mesmo para um regime autoritário.

Da primeira lista – Antônio Florêncio, Dix-huit Rosado, Geraldo Bezerra, Moacyr Duarte, Osmundo Faria e Reginaldo Teófilo – apenas um resistiu à degola inicial: Osmundo Faria. Não por força própria, mas porque era apadrinhado pelo ministro do Exército, o general Dale Coutinho. Os demais foram caindo um a um, seja por denúncias, seja por vetos cruzados, seja pela simples incapacidade de unificar minimamente a classe política. No lugar deles surgiram novos nomes: Tarcísio Maia e Fernando Abbott Galvão. Um terceiro, Genário da Fonseca, chegou a ser cogitado, mas foi vetado pelo próprio governador Cortez Pereira, que ainda exercia influência decisiva naquele momento de transição.

Impasse na sucessão de Cortez Pereira

A inclusão do embaixador Fernando Abbott não nasceu no Rio Grande do Norte. À época, ele trabalhava na Assessoria de Relações Públicas da Presidência da República (AERP), órgão responsável pela propaganda oficial do governo federal. Seu nome, tudo indica, foi gestado nos gabinetes do Palácio do Planalto, como alternativa tecnocrática, distante das brigas locais. Algo parecido se deu com Tarcísio Maia, cuja entrada na disputa se deu por sugestão direta do chefe da Casa Civil, o general Golbery do Couto e Silva, homem que pensava o poder em perspectiva histórica e desconfiava das paixões provincianas e, por isso, tornou-se o grande estrategista do regime.

A morte súbita do general Dale Coutinho, porém, mudou tudo. Com o falecimento do ministro do Exército, as pretensões de Osmundo Faria foram sepultadas junto com o seu padrinho. Na política do regime, padrinho morto significava candidatura inviável. O tabuleiro voltou a se mover, e aqueles que haviam sido abatidos precocemente trataram de retornar ao jogo por outros meios.

O senador Dinarte Mariz, que já estava abatido com a possibilidade de ver Osmundo –  ligado a Aluízio Alves, seu desafeto histórico — alçado ao governo, percebeu que o momento exigia rapidez e cálculo. Alertado por Djalma Marinho, decidiu entrar de vez na disputa e passou a apoiar o nome de Tarcísio Maia. Sabia, mais do que ninguém, que Tarcísio mantinha amizade pessoal com Golbery do Couto e Silva, um vínculo que, naquele contexto, valia mais do que qualquer base eleitoral inexistente.

Dinarte procurou Golbery no Palácio do Planalto. O encontro, cercado de simbolismo, revelou muito da liturgia do poder naquele período. Golbery, informado da intenção do senador, foi direto ao ponto, com a frieza de quem já conhecia as alternativas:

– Senador, por onde anda Tarcísio Maia? Seria um bom nome para governar o Rio Grande do Norte?

Dinarte respondeu sem hesitar:

– Ótimo nome, ministro. É meu amigo e ainda é meu parente. Mas é bom ouvir o governador sobre o assunto.

A resposta era mais do que uma deferência protocolar. Era um reconhecimento de que, sem o aval de Cortez Pereira, nenhuma candidatura se sustentaria. Tarcísio Maia, até então fora do centro da disputa, passou a ser tratado como opção real.

Morando no Rio de Janeiro, Tarcísio foi informado por Dinarte sobre os detalhes da conversa. Não perdeu tempo. Telefonou imediatamente para Cortez Pereira, comunicou que seu nome estava na disputa, com o apoio explícito de Golbery e de Dinarte, e perguntou, sem rodeios, se haveria objeção por parte do governador. Cortez respondeu negativamente. Não apenas não vetou como deixou claro que não se opunha à candidatura. Ali, naquele telefonema, começou a ser pavimentado o caminho de Tarcísio Maia rumo ao Palácio Potengi.

No início de junho de 1974, Cortez Pereira viajou a Brasília para se reunir com o senador Petrônio Portela, coordenador nacional do processo de escolha dos governadores. A missão era fazer os ajustes finais e formalizar, por ordem superior, a inclusão do nome de Tarcísio Maia na lista definitiva. A sucessão, que meses antes parecia um campo minado, começava a ganhar contornos mais nítidos.

Em maio, restavam apenas dois nomes com chances reais: Tarcísio Maia e Fernando Abbott. A balança, porém, pendia claramente para o primeiro. Abbott, embora respeitado nos círculos de Brasília, era quase totalmente desconhecido das forças políticas do Rio Grande do Norte. Faltava-lhe capilaridade, história local, relações orgânicas. Tarcísio, ao contrário, trazia consigo uma biografia política construída desde os tempos da União Democrática Nacional (UDN), além de vínculos pessoais sólidos com figuras-chave do regime.

Na reunião em Brasília, a Cortez Pereira foi perguntado, uma vez mais, se haveria veto de sua parte ao nome de Tarcísio. A insistência revelava o trauma deixado pelo processo sucessório anterior. Cortez confirmou, novamente, que não apenas não vetava como reafirmava a amizade que os unia desde os tempos udenistas. Diante disso, a escolha ficou praticamente sacramentada. Faltava apenas cumprir o ritual.

Na tarde do mesmo dia, 2 de junho de 1974, Tarcísio Maia recebeu a confirmação definitiva. Golbery do Couto e Silva comunicou-lhe que seu nome havia sido escolhido para governar o Rio Grande do Norte no quatriênio 1975–1979. O anúncio oficial foi agendado para o dia 4 de junho.

Assim, depois de meses de intrigas, denúncias, vetos e mortes inesperadas, a sucessão se resolveu não por aclamação, mas por exaustão. Tarcísio Maia não emergiu como o candidato natural, tampouco como o preferido das bases inexistentes. Surgiu como solução possível quando todas as outras se tornaram inviáveis. Foi, talvez por isso mesmo, a escolha que mais abalou as estruturas do velho poder potiguar. Mas essa já é a história do governo — e não apenas da escolha.

posts relacionados
Logo do blog 'a história em detalhes'
por Sérgio Trindade
logo da agencia web escolar