Onde foi parar o filé com fritas?
O garçom passou tentando equilibrar uma bandeja com tulipas de cerveja, mas a política, meus três ou quatro leitores, estava mesmo era na tela da televisão, ali no canto do bar. Na sabatina da Rede Globo, no horário nobre, Flávio Bolsonaro desfilava a arte solene de não responder a quase nada. Não assisti na hora, só às 2 e pouco da madrugada, quando cheguei do MADA, com cheiro de maconha, que fumei passivamente durante parte da noite e da madrugada.
Olhei da varanda do apartamento o bairro de Lagoa Nova, no espaço entre a Tororós, Potiguares e Antônio Basílio. O trânsito da avenida Bernardo Vieira, sempre intenso, estava chiando pouco. A madrugada silenciosa pedia um pouco de ternura. Assisti calado, enquanto comia uma fatia de pizza, ao candidato do PL receber uma pergunta reta, cristalina, daquelas que pedem apenas um sim ou um não ou algo igualmente direto, embora não monossilábico. Renata Lo Prete, sempre competente e firme, quis saber do prato principal. Flávio, no entanto, preferiu falar sobre o tempo, a iluminação pública das cidades ou a receita de bolo de sua finada avó. A cena, confesso, trouxe-me uma saudade amarga de Paulo Salim Maluf. Ah, o velho Maluf! Foi um artista na arte de engabelar entrevistadores, um mestre do drible sem bola, um poeta da desconexão. O entrevistador perguntava ao homem sobre o rombo do orçamento, e ele, com aquele sorriso de cera e voz pausada, como uma Monalisa curtida pelo sol tropical, respondia sobre o asfaltamento da Radial Leste. Nunca houve ninguém como ele para transformar um debate em uma sinfonia de irrelevâncias.
Hoje, a mocidade aprendeu a lição, mas falta-lhe o charme da velhacaria clássica. Flávio usava a mesma estratégia consagrada: Renata lo Prette perguntava, ele fugia, ela insistia no assunto, fincava os pés na questão, e o senador e postulante à cadeira presidencial simplesmente flutuava para outra dimensão. Repito: sem a graça de Maluf. A sabatina quase virou um convescote, um aqueles encontros de botequim em que um sujeito apaixonado fala da ingrata e o amigo, distraído, responde recomendando um bom xarope para tosse.
É uma pena ver que a política brasileira perdeu a elegância até para nos enganar. Antes, a esquiva tinha uma certa música, um samba ou um forró com letra na qual a gente fingia acreditar só para não estragar a noite. Agora, é o puro e simples fingimento de surdez. O candidato escuta A, pensa em B e responde Z com a cara mais lavada do mundo, enquanto a jornalista gasta a voz tentando puxá-lo de volta ao mundo real. Parece que a vida pública virou uma grande conversa de surdos. Ninguém quer saber da verdade. O que importa é gastar o tempo do cronômetro. É a mesma e velha comédia de costumes, só que sem a poesia malandra dos velhos tempos.

Imagem feita com auxílio de IA
O saldo de tudo, para nós, era perguntar ao garçom que carregava bandejas com tulipas de cerveja quando chegaria o filé com fritas. O poder, porém, antecipou-se ao garçom e, sem nos responder, diz com a maior polidez do mundo, que amanhã talvez chova, sei lá, em Recife ou Porto Alegre.
Cansado, fui tomar banho para tirar o cheiro de maconha do corpo e dormir o sono dos justos.
Em tempo: não assisti, como dito acima, à sabatina de Flávio Bolsonaro ao vivo; somente agora pela manhã, assisti à de Lula. Se alguém me perguntar quem foi melhor na sabatina da Rede Globo, Flávio ou Lula, afirmo e reafirmo: ruim de fala, Flávio foi bem treinado e não fez papel ridículo. Foi mais apertado do que Lula e mentiu melhor do que Lula, porque não se aventurou a responder diretamente às perguntas feitas. Penso que Lula não se preparou adequadamente para a sabatina e creio que o foco dele, no momento, não é mais a televisão, o rádio ou os jornais e sim as redes sociais, como é possível constatar pelo efeito manada criado por André Janones, piloto da comunicação digital do candidato do PT, e as ruas, ocupadas com mais intensidade pela militância de esquerda.
Flávio não foi bem, Lula também não foi bem e quem pior está é o Brasil.