A síndrome da torcida organizada

por Sérgio Trindade foi publicado em 31.jul.26

Pratico um esporte nacional que jamais entrará nas Olimpíadas porque seus amantes não suportariam dividir o pódio. Trata-se da arte de decidir quem é mais insuportável: o adversário político ou o próprio aliado.

Farei isso, por aqui, em três textos. Este é o primeiro. Já dei título, ainda provisório, aos outros dois: O dramático caso do homem que pertencia aos dois lados e O último isentão do apocalipse.

Eu, por exemplo, cultivo um hobby modesto. Não coleciono selos, moedas antigas, camisas de futebol, chaveiros, canecas de café… Eu coleciono rótulos. Basta provocar um lulista para imediatamente ser promovido a bolsonarista honorário. Cinco minutos depois, implico com um bolsonarista e recebo, com todas as honras, a carteirinha invisível de militante petista. Tudo numa velocidade impressionante.

Imagem feita com auxílio de IA

Albert Einstein levou alguns anos para formular a teoria da relatividade. O brasileiro médio resolve a identidade ideológica de um desconhecido em três comentários. Outro dia fiz um teste, digamos, científico. Escrevi que Lula já cometeu erros graves. Fui chamado de fascista. Em seguida, escrevi que Bolsonaro também cometeu erros graves. Virei comunista. Conclusão inevitável: existe um buraco de minhoca na política brasileira onde o cidadão atravessa o universo em segundos e troca de lado sem sair da cadeira.

O curioso é que ninguém parece interessado no que você pensa. O importante é descobrir em qual arquibancada você deveria estar sentado. Argumento virou detalhe. Uniforme é tudo.

Imagine a cena: você entra numa pizzaria e pede meia calabresa, meia portuguesa. Imediatamente aparece um sujeito indignado:

— Ah! Então o senhor odeia a calabresa

Antes que você explique, surge outro:

— Que absurdo! Claramente ele despreza a portuguesa!

E um terceiro encerra o debate:

— Não. Ele trabalha para o pessoal das bordas recheadas.

A política nacional está exatamente assim. Conseguiu transformar qualquer conversa num teste de DNA ideológico. Se você espirra durante um discurso, perguntam em quem votou. Se elogia uma medida de um governo, deduzem que aprova todas as outras. Se critica outra medida, concluem que deseja a queda da civilização ocidental. É um talento raro.

Nessas horas me lembro da frase de Millôr Fernandes, um dos poucos homens capazes de resumir uma época inteira em meia dúzia de palavras: “Ou está todo mundo louco ou eu estou completamente.”

Suspeito que Millôr tenha sido otimista. Se vivo fosse, ele provavelmente acrescentaria um adendo: “Se eu disser isso em voz alta, metade vai jurar que sou de esquerda e a outra metade vai garantir que sou de direita.”

A internet elevou essa modalidade à categoria de arte. As redes sociais funcionam como um grande estádio onde ninguém assiste ao jogo de futebol. Todos passam noventa minutos vaiando a torcida adversária. No intervalo, ainda encontram tempo para brigar com o juiz, o gandula, o vendedor de pipoca e alguém que apenas perguntou onde fica o banheiro.

Existe até uma lógica própria. Quanto mais moderada é uma opinião, mais radical parece a reação. A ponderação virou suspeita e a dúvida tornou-se evidência de traição. O bom senso, coitado, passou a ser interpretado como um sofisticado plano de infiltração.

Para não estressar, sigo alimentando meu passatempo predileto. Faço uma crítica aqui, outra acolá, observo a chuva de etiquetas e descubro, diariamente, que pertenço simultaneamente aos dois lados da mesma guerra. E grito: “É uma experiência fascinante”.

Tenho um receio que me atormenta dia e noite: no dia em que lulistas e bolsonaristas finalmente concordarem sobre alguma coisa, desconfio que será justamente a respeito de mim. Ambos concluirão, em perfeita harmonia democrática, que sou um infiltrado do outro lado. E, pela primeira vez em muitos anos, estarão unidos.

No erro.

Nesse dia pedirei ao Coach Cobarde Camafeu, o destestosteronizado, que apresente uns trabalhinhos mutretas.

posts relacionados
Logo do blog 'a história em detalhes'
por Sérgio Trindade
logo da agencia web escolar