O PEI do menino e outras emissões gasosas da pedagogia brazuca
Havia, na Escola Federal da República das Necessidades Pedagógicas Incontroláveis, uma entidade mais temida do que auditoria do TCU, visita do MEC, MPF pedindo suspensão de concursos e surto de cupim na sala dos arquivos: o PEI (Plano de Ensino Individualizado).
Nome pomposo, técnico, burocrático e, veremos, parte de algo volátil. Nome que parece ter sido inventado por uma junta de educadores alimentados exclusivamente por chá de camomila e artigos da Capes.
Mas o povo, essa força indomável da fonética popular, transformou a sigla numa tragédia escatológica da língua portuguesa.
Porque ninguém diz “o PEI”. Não. As pessoas dizem: “Cadê o PEI do aluno fulano”, “Cadê o PEI do aluno sicrano”, “Cadê o PEI do aluno beltrano”? E pronto.
Nascia o “peido de X, de Y, de Z”. É novo Bráulio, referência de pinto em meados dos anos 1990.
A educação brasileira talvez sobreviva à evasão escolar, ao teto de gastos, ao Novo Ensino Médio, ao velho Ensino Médio, ao pós-novo Ensino Médio, a Reitores analfabetos, a acadêmicos que têm fixação em discutir ânus e até aos banheiros sem papel higiênico. Dificilmente sobreviverá, porém, ao fato de que uma política nacional de inclusão virou, involuntariamente, um festival permanente de cacófatos.
A reunião começou séria. Sempre começa séria. Professor de federal adora começar sério. É quase uma religião. Há sempre um notebook aberto, um semblante de funcionário da ONU em missão humanitária e alguém dizendo:
– Precisamos refletir sobre os indicadores do ENADE.
Essa frase produz imediatamente o mesmo efeito psicológico de uma música tibetana tocada ao contrário.
Silêncio. Olhares mortos. Almas deixando o corpo.
O ENADE, para quem desconhece, é uma espécie de vestibular tardio cuja função principal parece ser provar que ninguém aprendeu nada e que a culpa, naturalmente, é do professor.
Os alunos vão mal. A instituição vai mal. Os coordenadores entram em estado vegetativo. E algum iluminado em Brasília conclui que a solução está em mais formulários. Sempre mais formulários.
Então surge o debate.
– Mas como fica o PEI dos alunos no ENADE?
Pergunta legítima. Porque dentro da instituição o aluno recebe prova adaptada, linguagem simplificada, questões diretas, apoio psicológico, mediação pedagógica, acolhimento afetivo, chá de erva-doce. E, se bobear, massagem chinesa. Sem finalização.
Mas no ENADE não existe nada disso. O ENADE chega como um gladiador romano. Sem afeto, sem acolhimento, sem emojis pedagógicos, sem rapapés e salamaleques. A prova pergunta tudo ao mesmo tempo: conceito, análise, interpretação, crítica social, interdisciplinaridade, sustentabilidade, geopolítica, saúde emocional e, se houver espaço, o número da chuteira de Garrincha na Copa de 62 e o modelo da calcinha da moça que ia dormir com Romário na Copa de 94.
Aí um professor explicou:
– O PEI determina que a pergunta não pode ter múltiplos comandos.
Outro completou:
– Também não pode ser discursiva.
Outro tomou café (isso não pode faltar no serviço público) e resumiu:
– Então no ENADE esse menino morre na primeira página.
Pesado?
Talvez.
Mas ali não havia crueldade pura e, sim, um esgotamento cômico. Uma espécie de humor terminal que nasce quando a burocracia encontra a realidade e ambas decidem se estrangular mutuamente. Porque o professor brasileiro moderno virou uma criatura mitológica: metade pedagogo, metade despachante. Ele ensina, acolhe, adapta, flexibiliza, preenche relatório, alimenta sistema, participa de comissão, escreve parecer e ainda precisa responder por indicadores nacionais produzidos por um modelo de avaliação que parece elaborado por um robô alemão deprimido.
Nisso alguém disse:
– Esse PEI dos alunos eu nunca obedeci.
Frase perigosíssima. Mas dita num tom tão confessional quanto alguém admitindo que coloca ketchup na pizza.
Outro respondeu:
– Eles estão PEIdidos.
E a reunião acabou. Não oficialmente. Mas espiritualmente acabou ali. Porque o Brasil tem esse talento raro: consegue transformar qualquer tragédia administrativa em programa humorístico involuntário.
Imagine um estrangeiro ouvindo aquilo sem contexto: “O PEI do Bráulio.” “O PEI do João.” “O PEI do curso inteiro.”

Imagem feita com auxílio de IA
Pareceria uma convenção internacional de gastroenterologia. E talvez seja essa a metáfora perfeita da educação nacional: um sistema inteiro funcionando à base de pressão interna, desconforto coletivo, ruídos constrangedores que todos fingem não perceber e gases putrefatos.
Enquanto isso, os burocratas seguem produzindo documentos com siglas cada vez mais fatais. Um iluminado criará o Fator Universal de Recuperação Inclusiva e Coordenada. Sigla: Furico.
E alguém perguntará, numa reunião pedagógica: “Cadê o Furico de X, de Y, de Z?
O silêncio será misericordioso. Em seguida virá a gargalhada. Porque o humor é a última defesa do professor diante da insanidade organizada. E o professor brasileiro já percebeu que, sem rir, enlouquece.
Ou pior: vira gestor. E irá criar siglas bizarramente flatulentas.