Os castos do ludopédio
Na segunda-feira (18), apareceu diante das câmeras o técnico da Seleção Brasileira, aquele italiano de sobrancelha monástica e expressão de cardeal cansado: Carlo Ancelotti. Entrou na sala como quem chega para um velório elegante. E talvez fosse mesmo. Porque toda convocação do selecionado pátrio, hoje, parece missa de sétimo dia da esperança nacional.
O evento foi cafona. O cenário, burocrático. O ambiente tinha a vibração de convenção de síndicos. Faltava apenas um jarro de flores artificiais e um garçom distribuindo empadas e pasteis frios e cerveja e refrigerantes quentes. Chamaram goleiros, chamaram zagueiros, chamaram meio-campistas e chamaram atacantes. Confirmaram Neymar, ressuscitado mais uma vez pelo sentimentalismo nacional. Confirmaram Danilo, o que fez metade do país ranger os dentes e a outra metade perguntar: “Mas esse ainda joga?”
Até aí, nada demais. O futebol brasileiro vive há anos entre o hospício e o necrotério. O escândalo começou depois.
Surgiram os sacerdotes da virtude jornalística. Os mesmos. Sempre os mesmos. A patrulha da honestidade universal. Acusaram Ancelotti de ter cedido às pressões por Neymar em troca de renovação contratual. Traduzindo para o português das ruas: insinuaram que o italiano se vendeu. Que entrou no mercado persa da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) como um mascate moral, trocando convocação por estabilidade no emprego.

Imagem feita com auxílio de IA
Ora, Ancelotti fez o que Cafu, Romário e Ronaldo Fenômeno disseram que fariam e, até onde é possível supor, os três jogadores, dois deles cracaços, não estão na carteira de pagamentos da CBF. Mesmo a crônica esportiva esteve dividida entre levar ou não levar Neymar. Os torcedor comum, o que acompanha e o que não acompanha futebol, não fechou posição – mas foi possível ouvir vibração no recinto quando foi pronunciado, por Ancelotti, o nome do craque do Santos.
É curioso como certas redações brasileiras se transformaram em tribunais de guerra. Não precisam de prova. Não precisam de indício. Não precisam sequer de lógica. Basta uma suspeita vagabunda e pronto: erguem a forca, acendem a fogueira, começam a dançar ao redor do condenado e aguardam o carrasco executar a tarefa. Há nesses sujeitos um prazer quase erótico em chamar os outros de corruptos. Eles acordam às sete da matina, tomam café, abrem o notebook, “pensam” e escrevem: “Quem destruirei hoje em nome da ética?”
É o farisaísmo de botequim promovido a método analítico.
E o mais espantoso: fazem isso com a solenidade dos santos. Falam como se carregassem as tábuas da lei debaixo do braço. Olham para o mundo com a superioridade moral de um Torquemada diante de uma prostituta arrependida.
Ora, vejam, meus três ou quatro leitores. Ancelotti pode errar convocação, pode montar mal o time, pode insistir em veteranos, pode transformar o meio-campo numa procissão de tartarugas artríticas. Tudo isso é discutível. Futebol é precisamente o território da discordância apaixonada. Mas acusar um homem de ter se vendido é outra coisa. É canalhice com crachá. E há, aí um detalhe sublime a destacar: muitos dos acusadores vivem da indústria da suspeita. São profissionais do veneno. Precisam diariamente fabricar um vilão para alimentar o moinho da indignação permanente. Sem escândalo, morrem de fome espiritual. Então, caros, o que incomoda essa gente não é a eventual corrupção dos outros. O que incomoda é o monopólio da virtude. Eles se imaginam os últimos homens honestos da Terra. Uma confraria de arcanjos de podcast.
Se Carlo Ancelotti convoca Neymar, é corrupto. Se não convoca, é covarde. Se sorri, é cínico. Se fica sério, é arrogante. Porque a patota quer um réu permanente, nunca um treinador. É assim que age grande parte da mídia esportiva tupiniquim: menos interessada na bola do que no pelotão de fuzilamento. Porque hoje já não basta perder partidas. É preciso assassinar moralmente as pessoas entre um intervalo comercial e outro.