Entre as coxilhas e as montanhas: a farsa dos modernos

por Sérgio Trindade foi publicado em 13.ago.26

Nos últimos tempos, no Brasil, tornou-se crime contra a democracia dizer que as urnas eletrônicas não são confiáveis. Juristas, politicólogos, jornalistas políticos e assemelhados passaram a apontar tal manifestação como descredibilizar o sistema eleitoral, como se existissem sistemas eleitorais perfeitos e máquinas (as urnas eletrônicas são máquinas) à prova de falhas.

Houve um tempo, nesse mesmo Brasil, no qual, mesmo não se vivendo numa democracia, era possível fazer críticas. Antes que algum apressadinho venha falar da ditadura de 1964 ou do Estado Novo, adianto-me para dizer que refiro-me à Primeira República (1889-1930).

A história oficial, uma solícita senhora que costuma passar a ferro as rugas das grandes figuras para vender biografias edificantes, cometeu com o Brasil mais um dos seus habituais descuidos. Ao longo de décadas, consagrou-se no imaginário da República a narrativa conveniente de que a modernidade desembarcou por aqui montada a cavalo, vestindo bombachas e sob o olhar enigmático e tutelar de Getúlio Vargas. Ao gaúcho baixinho, escorregadio como sabonete em chão de banheiro de molhado, atribuiu-se o monopólio da renovação política. O resto do país, coitado, teria assistido a essa marcha triunfal chupando o dedo ou rezando devotamente o terço.  ​Puro engano de bastidor. Basta espiar por debaixo das franjas da cortina do passado para constatar que a comédia do “novo” foi escrita a quatro mãos, e que o verdadeiro artífice das ideias mais arrojadas não usava esporas e, sim, paletó de casimira, colete bem cortado e falava com o sotaque pausado das serras de Minas Gerais.

​Olhemos para Porto Alegre, no final dos anos 1920. Getúlio ascende ao governo do Rio Grande do Sul vendendo-se como o ar fresco que varreria os mofados gabinetes do charque. Balela. Vargas era o “novo”, é verdade, mas trazia a tiracolo a bênção velhaca do patriarca Borges de Medeiros e o apoio cômodo de Assis Brasil. Sim, mantinha o respeitável Assis Brasil devidamente submetido, em posição de humilhante subalternidade no xadrez partidário. Fardas novas, velhos hábitos. Getúlio flertava com o futuro nas manchetes dos jornais, mas mantinha os pés bem fincados no velho coronelismo de estância, desconfiado, calculista e pragmático como uma raposa dos pampas.

​Enquanto isso, nas alterosas de Belo Horizonte, o cenário era outro – e consideravelmente mais sutil. Minas Gerais, que a historiografia apressada costuma pintar como uma espécie de reino do atraso, passava por uma verdadeira cirurgia plástica em sua vida pública. Desde o governo de Artur Bernardes, a elite mineira vinha trocando de pele: moços educados, bacharéis instruídos com anel de doutor e mentes arejadas começavam a renovar a bancada federal, rejuvenescendo os quadros da oligarquia local. E no topo dessa engrenagem figurava Antônio Carlos Ribeiro de Andrada.

​Aí reside a ironia fina e ácida que a posteridade engoliu sem mastigar. Quem escutava os discursos e os fogos da Revolução de 1930 imagina Vargas como o grande e solitário cavaleiro das liberdades democráticas. Ilusão de ótica. Se houve alguém naquela quadra que colocou o dedo na ferida dolorosa das regras do jogo, esse alguém foi o mineiro Antônio Carlos. Eleito para a presidência de Minas Gerais com uma plataforma que deixaria muito estancieiro de buço arrepiado, Antônio Carlos bradou em alto e bom som o que a política oligárquica mais temia: a urgência inadiável do voto secreto e a expansão do acesso à educação para as camadas subalternas, conforme expõe a historiadora Cláudia Maia Ribeiro Viscardi, no seu ótimo O Teatro das Oligarquias: uma revisão da “política do café com leite”.

​E Getúlio? Refratário à ideia até a alma. O gaúcho torcia abertamente o nariz para a ideia das urnas indevassáveis. O voto secreto era, para ele, uma complicação desnecessária, uma novidade perigosa que poderia escapar ao controle das rédeas do Estado. Por isso, preferia a penumbra do arranjo de bastidor, enquanto Antônio Carlos exigia a luz clara do escrutínio fechado. Enquanto o homem dos pampas vendia uma imagem de renovador mantendo as velhas estruturas, o sisudo mineiro propunha a reforma que rasgava a mortalha da República Velha por dentro.

Imagem feita com auxílio de IA

​Ambos encarnavam a contradição da época: eram homens gestados nas entranhas do poder oligárquico que abriam as portas para os novos tempos. Mas, no quesito coragem institucional e sintonia com a verdadeira modernização, o mineiro deu um baile retórico e político no gaúcho. O tempo passa, a poeira baixa e a verdade reaparece entre as folhas amareladas dos documentos: Getúlio levou os louros da glória e o busto em praça pública, mas foi Antônio Carlos quem enxergou primeiro que, sem o voto secreto, a tal democracia brasileira não passava de uma pia batismal para santos de pau a pique.

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