Caldeirão: o Estado, a fé e o sertão
Há pelo menos oito anos venho lendo, relendo e pesquisando sobre movimentos sertanejos que foram combatidos pelas forças do Estado: Canudos, Contestado, Juazeiro, cangaço, entre outros, e na vasta e intrincada tapeçaria da formação social brasileira, poucos episódios revelam de forma tão límpida e cristalina as fraturas da nossa pretensa modernização quanto o massacre do Caldeirão, ocorrido em maio de 1937 nas encostas da Serra do Araripe, no Ceará.
Sob a regência de Getúlio Vargas – nos momentos que antecediam a consolidação do arbítrio do Estado Novo –, o governo federal vislumbrou naquela comunidade sertaneja uma ameaça intolerável. O paradoxo é marcante: onde o olhar burocrático e legalista do Rio de Janeiro enxergava um “foco de subversão comunista” ou um perigoso “reduto de fanatismo religioso”, existia uma experiência comunitária pacífica, fincada na solidariedade rural, no cooperativismo e no patronato espiritual do beato José Lourenço.
Para compreender a tragédia do Caldeirão, convém recuar às matrizes psíquicas e sociais sobre o Brasil, um país moldado pela herança ibérica, pela cultura açucareira, pelo personalismo e pelo mandonismo local e que sempre nutriu profunda ambivalência em relação às formas organizativas autônomas.
No Caldeirão, expressava-se, de um lado, a sociabilidade sertaneja, na qual as relações humanas se tecem pelas vias do afeto, do parentesco espiritual e da comunhão direta, à margem das abstrações do direito civil moderno. O arraial liderado pelo beato José Lourenço era a expressão máxima dessa dinâmica: a solidariedade comunitária organizava o trabalho na terra, a colheita era partilhada com equidade, a autoridade moral emanava do exemplo de piedade e do carisma do líder, jamais do aparato coercitivo das leis formais. Do outro lado, o Estado brasileiro que se desenhava na década de 1930 pretendia erguer-se como o demiurgo supremo do progresso e da unidade nacional. Getúlio Vargas corporificava o ímpeto centralizador de uma elite urbanizada que buscava enquadrar o país em moldes operacionais, disciplinares, autoritários e fabris. Para essa razão de Estado nascente, profundamente imbuída de um positivismo autoritário e assombrada pelo fantasma do “perigo vermelho” após o levante de 1935, qualquer agrupamento humano que escapasse ao controle estrito das oligarquias locais ou da burocracia governamental convertia-se, quase automaticamente, em um foco infeccioso a ser debelado.
A autonomia do Caldeirão resultava incômoda porque os sertanejos demonstravam, na prática diária, que podiam viver, produzir e prosperar sem a intermediação dos correligionários dos coronéis e sem os ditames do governo central, e não porque pegassem em armas ou pregassem a subversão.
A reação do poder público revelou a violência constitutiva que amiúde acompanha a imposição da ordem no cenário nacional. Em uma operação de brutalidade desmedida, o Exército mobilizou cerca de duzentos homens armados por terra e dois aviões biplanos de bombardeio. O emprego da aviação militar para lançar bombas e metralhar camponeses indefesos nas matas da Serra do Araripe marcou um sinistro encontro entre a técnica militar moderna e a sanha repressiva arcaica. Os sobreviventes dos ataques aéreos foram implacavelmente caçados a tiros e facadas pelas tropas terrestres, suas casas foram reduzidas a cinzas e seus poços de água, envenenados. Estima-se que entre oitocentos e mil camponeses tenham sido assassinados e enterrados em valas comuns sepultadas pelo esquecimento oficial, enquanto o governo encarregava-se de censurar os relatórios para apagar qualquer vestígio documental do massacre.

Imagem feita com auxílio de IA
Tratava-se, em última análise, do histórico desentendimento entre duas ordens irreconciliáveis. O Brasil dos bacharéis e dos generais, pretendendo-se civilizado, ocidental e moderno, olhava para o sertão não com o desejo de compreendê-lo em sua densidade cultural e teológica, mas com a determinação inflexível de reduzi-lo à passividade. À semelhança do que ocorrera em Canudos e no Contestado – e no Rio Grande do Norte, na Serra de João do Vale –, o Estado preferiu criar o mito da conspiração a admitir que aqueles homens e mulheres haviam fundado uma comunidade funcional fundamentada na caridade cristã e no trabalho coletivo.
O apagamento sistemático dos registros oficiais pretendia transformar o Caldeirão de Santa Cruz em uma simples nota de rodapé esquecida no arquivo das nossas guerras no sertão. A memória histórica, no entanto, insiste em emergir e mostra que o episódio deixa expostas as vísceras de uma formação social na qual o Estado intervém não para mediar conflitos ou garantir direitos, mas para solapar a autonomia popular em nome da ordem.
Ao contemplar a sina daquela comunidade destruída pelas bombas da modernidade estatal, reconhecemos que a história da nossa integração nacional foi tantas vezes erguida sobre os escombros de almas cuja audácia foi tentar viver com dignidade no interior do Brasil.