Leonila Félix: a flor de ferro no chão da Natal de 1935
Interessei-me há quase duas décadas por José Praxedes, um dos membros da junta comunista que “governou” o Rio Grande do Norte em 1935, porque o sapateiro fôra aluno, na segunda década do século XX, Escola de Artesãos e Artífices do Rio Grande do Norte e, à época do meu interesse, eu ingressara como professor no então Centro Federal de Educação Tecnológica do Rio Grande do Norte (Cefet-RN), hoje Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte (IFRN), um dos inúmeros nomes que a escola de Praxedes teve.
José Praxedes é um personagem interessante, sem dúvida. Mas muito mais interessante é a jovem Leonila Félix (Leonila Octávia de Almeida), jovem casada com Epifânio Guilhermino (Epiphanio Guilhermino) e que aparece, de passagem, em páginas e páginas de livros e artigos sobre o movimento comunista que virou o Brasil de pernas para o ar. Epifânio, ressalto, era motorista de táxi e o responsável por reunir carros e caminhões para os revoltosos.
Depois de me deparar com várias menções a Leonila, parei um pouco as leituras sobre Praxedes e fui buscar informações sobre essa mulher perdida nos escaninhos da História e descobri que ela está nas páginas de João Medeiros Filho (82 horas de subversão – Intentona Comunista de 1935), de Homero Costa (A insurreição Comunista de 1935: Natal – O Primeiro Ato da Tragédia), de Graciliano Ramos (Memórias do Cárcere), entre outros.
A Natal de 1935 tinha o hábito de dormir cedo sob o manto das brisas atlânticas, mas acordou, no meio da noite de um dia de novembro, com o estampido seco da história. Não era o ensaio de um bloco de Carnaval, nem o foguetório de Santo Antônio. Era a “Intentona”, nome de batismo pesado, carregado de uma heresia política, dado à insurreição comunista que pretendia tingir de vermelho o azul do Potengi. No centro desse turbilhão, entre o fardamento de praça de Epifânio Guilhermino e o sonho de um mundo sem donos, estava Leonila. Graciliano Ramos assim se refere a ela: “Duas mulheres achegaram-se, uma branca, nova, bonita, uma pequena cafuza de olhos espertos. Fiquei sabendo que a primeira se chamava Leonila e era casada com Epifânio Guilhermino. (…) Naquele momento o meu desejo era evitar a presença de Leonila e Maria Joana, livrar-me dos restos do vestuário pesado. Em tal situação, o recurso melhor seria pedir aos passageiros machos que formassem diante de mim uma espécie de cerca humana e, protegido por ela, despir-me, arranjar-me convenientemente. Devo ter feito isso, não me lembro. Sei que me achei metido no pijama. Dobrei cuidadosamente a calça e o paletó, arrumei-os sobre a maleta e conservei os meus troços à vista, pois eram tudo quanto eu possuía e ali dentro começavam a representar enorme valor. (…) As duas mulheres passavam, depois desapareciam além das cortinas estendidas ao fundo. Nenhuma comunicação conosco. O riso acolhedor de Maria Joana lhe banhava o rosto negro, mas Leonila tinha uma sisudez fria de metal. Sertaneja, provavelmente, educara-se e vivera no horror ao homem. Ausência de palestras, de familiaridade. Escondia-se, levava a outra para a fornalha, iam assar, frigir-se, derreter-se na temperatura medonha”.
Epifânio Guilhermino foi figura proeminente da Insurreição Comunista de 1935, na qual Natal foi o ato 01 da tragédia, como bem referencia o professor e pesquisador Homero de Olivera Costa, numa das de obras mais importantes sobre aquele evento histórico. Era comandante de um grupo e é apontado, em alguns trabalhos e nos depoimentos prestados por muita gente à polícia, como frio e brutal. Leonila, sua mulher, vestia roupas de homem e andava armada. Era, portanto, tão revolucionária quanto o marido.
Falar de Leonila não é tarefa para historiadores de gabinete, presos a datas e decretos. É tarefa para quem entende o silêncio das mulheres que, na sombra dos maridos insurgentes, sustentaram o peso do mundo quando o sonho ruiu. Se Epifânio era o braço armado, o sargento que via na insurreição a redenção da caserna e do operariado, Leonila era a estrutura invisível. A bibliografia sobre o 35, de Hélio Silva a Glauco Carneiro, costuma ser generosa com os generais da derrota, mas avarenta com as mulheres da base (pouco aparecem ela, Amélia Gomes, Chica Pinote, Chica Gaveta, entre outras).
Na ficção, Leonila poderia ser uma personagem de Os Subterrâneos da Liberdade, aquela figura que guarda o panfleto sob o colchão e o segredo no peito. Ou a Maria Moura, de Rachel de Queiroz. Mas a Leonila de Natal é mais real que as personagens de Jorge Amado e tão ou mais telúrica do que a personagem-título da obra de Rachel de Queiroz. Ela não habitava o realismo socialista ou os campos das páginas de papel. Não. Ela habitava as ruas de uma Natal que, por quatro dias, acreditou ser o centro de uma revolução mundial.

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Diz-se, nas entrelinhas dos depoimentos colhidos pelo Tribunal de Segurança Nacional, que a casa do casal Guilhermino era o porto seguro das conspirações. Enquanto Epifânio articulava com Giocondo Dias e os sargentos do 21º BC, Leonila geria a escassez e o perigo. No movimento de 35 em Natal, o único lugar onde os rebeldes de fato tomaram o poder e formaram um “Governo Popular”, uma mulher foi fio de prumo, afinal Leonila não era apenas a “esposa do militante”. No código de ética da clandestinidade, a mulher era a inteligência logística. Era quem percebia a aproximação da polícia pelo som dos passos no calçamento.
Quando o sol de novembro se pôs sobre o fracasso do movimento e as tropas legalistas subiram a ladeira de Cidade Alta, o destino de Leonila e Epifânio selou-se no ferro. A repressão de Vargas não conhecia a fidalguia potiguar. Epifânio e Leonila, os rebeldes, enfrentaram o cárcere. E Leonila ainda enfrentou o pior dos exílios, a saber, a solidão do estigma, afinal ser mulher de comunista em 1935, na pequena e provinciana Natal, era carregar uma letra escarlate invisível.
O que aconteceu no café da manhã de Leonila quando os canhões silenciaram? A memorialística de Graciliano Ramos, expressa em Memórias do Cárcere, dá-nos o tom do desespero dos que ficaram. Leonila sobreviveu na resistência do cotidiano. Se a história oficial a esquece nos rodapés, a memória afetiva da cidade a guarda como a personificação daquela dignidade silenciosa de quem apostou tudo numa utopia e perdeu o jogo, mas não a honra.
Leonila é a metáfora da Natal insurgente. Uma cidade que, de tempos em tempos, tenta romper com as oligarquias e o conservadorismo, para logo em seguida ser devolvida ao seu lugar de Presépio. Ela e Epifânio foram o verso e o reverso de uma mesma moeda cunhada no idealismo. Ele, o fogo do levante; ela, a brasa que permaneceu acesa sob as cinzas da derrota, cuidando para que o nome Guilhermino não fosse apenas um prontuário no DOPS, mas uma lembrança de que, um dia, o povo de Natal ousou subir as escadas do Palácio do Catete, começando por aqui, com um cravo vermelho na mão.
Ao fim e ao cabo, Leonila permanece como uma dessas sombras, uma mulher que não pediu licença para ser história, mas que a história, em sua pressa masculina, esqueceu de documentar com a devida justiça.