O Instituto Kennedy e o bairro de Lagoa Nova
Estava “passeando” pela Hemeroteca da Biblioteca Nacional, coletando informações sobre política no Diário de Natal, quando me deparei com um anúncio de venda de terrenos no bairro de Lagoa Nova. Morei por anos numa Lagoa Nova que virou Capim Macio e, há cinco anos, voltei à Lagoa Nova, mais precisamente na rua dos Potiguares, onde residi por pouco mais de quatro anos, antes de se mudar para a rua dos Tororós.
O anúncio me chamou a atenção por ser do bairro que escolhi para, quem sabe, terminar meus dias e, também, por um detalhe, a saber, como o Instituto Kennedy catapultou a região.

Foto do Diário de Natal (setembro de 1964)
O anúncio foi feito, parece, não apenas para vender terrenos e, sim, para vender sonhos ou talvez sem saber, um pedaço da História. Publicado nas páginas do Diário de Natal, em setembro de 1964, o reclame do loteamento Parque Jardim Presidente Kennedy pertence, intuo, a esta última categoria. Oferece lotes e um futuro. Um futuro que, naqueles dias, ainda era um descampado de areia, cajueiros dispersos, estradas mal definidas e uma ou outra casa, mas que prometia transformar-se no endereço de uma nova Natal, uma cidade que começava a respirar para além de Tirol e Petrópolis.
A velha Natal ainda cabia confortavelmente entre a Ribeira, a Cidade Alta e os bairros elegantes que cresceram acompanhando a avenida Hermes da Fonseca e o popular Alecrim. Mas o progresso, palavra tão cara aos anos sessenta, já apontava para outras bandas. Lagoa Nova deixava de ser apenas um horizonte distante para tornar-se uma aposta. E toda aposta precisa de um argumento. Naquele anúncio o argumento tinha nome e sobrenome: Instituto Presidente Kennedy.
O texto fazia questão de registrar que o loteamento ficava “ao lado do maior instituto de educação do Estado, em construção”. Não era um detalhe. Era a alma da propaganda, afinal o Instituto surgia como uma espécie de farol capaz de iluminar toda aquela região ainda vazia. Comprar um terreno significava adquirir um lugar vizinho ao futuro.
É curioso como as cidades crescem. Nem sempre atrás das pessoas. Muitas vezes atrás das obras e mirando um novo tempo.

Montagem feita por IA a partir de imagens do Tok de História, de Natal de Ontem e do Diário de Natal
O Instituto Kennedy era fruto de um tempo em que o mundo se dividia entre Washington e Moscou. Em plena Guerra Fria, os Estados Unidos buscavam conquistar corações e governos latino-americanos com discursos, mas também e principalmente com investimentos. A Aliança para o Progresso, criada pelo presidente John Fitzgerald Kennedy, prometia escolas, hospitais, estradas e desenvolvimento como antídoto contra a expansão do comunismo. E o Rio Grande do Norte recebeu parte considerável desses recursos.
O nome do presidente norte-americano, assassinado onze meses antes da publicação daquele anúncio, transformou-se numa poderosa marca de modernidade. Era uma homenagem e uma espécie de selo de garantia, afinal um loteamento chamado Presidente Kennedy parecia carregar, no próprio nome, a promessa de um amanhã mais civilizado – e a publicidade entendia disso. Não por acaso, ao lado do desenho do loteamento, aparecia a fotografia de um casal jovem, elegante, sorridente. Aquele casal não estava ali para vender terrenos e, sim, para vender um estilo de vida. O recado era simples: quem comprasse um daqueles lotes estaria adquirindo muito mais que alguns metros quadrados. Compraria pertencimento, ascensão social e um lugar na cidade que ainda estava por nascer. As facilidades reforçavam a sedução: luz; água, ainda projetada; transporte, apenas duzentos metros; e quarenta meses para pagar, com entrada a combinar. Hoje parece pouco. Naquele tempo era um convite irresistível para funcionários públicos, professores, comerciantes e profissionais liberais que começavam a formar a nova classe média urbana. O financiamento transformava o sonho em prestação. E prestação, quase sempre, cabe melhor no bolso do que o sonho inteiro.
O mapa publicado no anúncio também fala. Ali aparecem as ruas dos Potiguares, dos Tororós, Miguel Castro e Amintas Barros e alguns poucos quarteirões desenhados sobre um vazio que ainda esperava ser preenchido. O curioso é perceber que aquilo que hoje constitui um dos espaços mais valorizados de Natal era representado quase como um loteamento de fronteira, porque a cidade terminava ali. Ou talvez começasse.
Vista pouco mais de sessenta anos depois, a propaganda ganha um valor que seus autores jamais imaginaram. Deixa de ser uma simples peça comercial para tornar-se documento histórico. Cada palavra revela uma cidade em construção e cada promessa indica o modo como o poder público e a iniciativa privada caminhavam de mãos dadas. O governo implantava um grande equipamento urbano, os empreendedores loteavam os terrenos vizinhos e a valorização chegava naturalmente, seguindo uma velha fórmula do urbanismo brasileiro. A escola atrai moradores e os moradores atraem comércio, o comércio pede ruas e as ruas valorizam os terrenos. E, assim, a cidade cresce.
Poucos anúncios conseguem contar tanto com tão pouco. Em meia página de jornal estão condensados os sonhos de uma geração, a influência da política internacional sobre uma capital nordestina, a força da publicidade imobiliária e o nascimento silencioso de um bairro que ainda não sabia que um dia estaria entre os mais importantes de Natal.
Talvez seja essa a maior beleza dos velhos jornais. Eles nunca imaginam que estão escrevendo a História. Apenas registram o presente e o tempo, um cronista paciente e infalível, encarrega-se de transformar um simples anúncio de venda de lotes em testemunha de uma cidade que decidiu crescer olhando para o horizonte. E foi justamente ali, entre a poeira das dunas vermelhas de Lagoa Nova e a sombra ainda imaginária do Instituto Kennedy, que Natal começou a desenhar uma parte importante do seu futuro.