O Sistema: a nossa jabuticaba política (3)

por Sérgio Trindade foi publicado em 26.fev.26

Com exposto nos dois artigos anteriores (https://historianosdetalhes.com.br/historia-do-rn/o-sistema-a-nossa-jabuticaba-politica-1/); (https://historianosdetalhes.com.br/politica/o-sistema-a-nossa-jabuticaba-politica-2/), o Sistema é a maior jabuticaba da política nacional, com a vantagem de que não precisa de estação para dar frutos, pois floresce no calor das crises e no pântano das conveniências. Como dito no primeiro artigo da série, há diagnóstico preciso de uma patologia antiga: Lula, o veterano que deu as cartas no cassino de Brasília por décadas, agora quer vestir o figurino do outsider. Vai investir no discurso de que é o candidato contra o Sistema.

É uma coreografia de espelhos. À esquerda e à direita, o Sistema funciona como um vilão camaleão. Para o petismo, ele veste terno da Faria Lima e toga de Curitiba; para o bolsonarismo e seus derivados, ele usa o manto do estamento burocrático e o martelo de decisões supremas. Em ambos os casos, a política é dita apodrecida, e apenas o líder e sua grei permanecem castos, imaculados e prontos para a assepsia. No fundo, o que chamam de Sistema é apenas a disfuncional democracia liberal brasileira, uma sina nossa, funcionando, com sua lentidão irritante, seus freios necessários e sua teimosa insistência em dizer que ninguém está acima da lei.

Imagem feita com auxílio de IA

Para entender por que o discurso de Lula e o da direita populista se chocam e se confundem, é preciso recorrer à biblioteca. O populismo é aquilo que cientista político holandês Cas Mudde batizou de “ideologia de centro fino”. Ele precisa de um hospedeiro. Ele se acopla ao socialismo para odiar o capital, ou ao nacionalismo para odiar o cosmopolitismo. Mas o DNA é o mesmo, a saber, a divisão da sociedade em dois campos homogêneos e antagônicos: o povo puro contra a elite corrupta.

O conluio de forças mencionado nos textos anteriores é o que a ciência política chama de the establishment. Na visão de Jan-Werner Müller, o populista não apenas critica as elites (o que é saudável na democracia), mas reivindica o monopólio moral da representação. Quando Lula diz que a política “apodreceu”, ele está operando a lógica exposta por Pierre Rosanvallon: a “contrademocracia”. Se as instituições mediadoras – imprensa, tribunais, parlamento – não ecoam a vontade do Líder, elas não são democráticas, são engrenagens do Sistema.

A direita populista elevou essa teoria ao status de guerra cultural. Se para o petismo o Sistema é uma espécie de Conselho de Administração da Burguesia, para a direita ele se tornou o Deep State. É a ideia de que existe um governo paralelo, não eleito, formado por burocratas, jornalistas e juízes, dedicados a sabotar o “mito” ou o “pai dos pobres”. Na prática, o ataque ao Sistema é o álibi perfeito para o fracasso da gestão. Se o PIB não cresce ou a inflação morde o prato do trabalhador, a culpa nunca é da caneta do Planalto e, sim, da mão invisível do Sistema que puxa o freio.

Nada simboliza melhor o choque desses discursos do que a relação de amor e ódio com o Supremo Tribunal Federal (STF). O STF virou a Geni da República, mas uma Geni que muda de dono conforme o vento.

Houve um tempo em que o Sistema habitava o gabinete de Joaquim Barbosa. Para a esquerda da época, o Judiciário era o braço armado da elite branca contra o projeto popular. O grito era contra a “judicialização da política”. Depois, o vento virou. Com a ascensão da direita populista, o Sistema mudou-se para os gabinetes de Alexandre de Moraes e seus pares. Para os novos puros e castos da direita, o tribunal tornou-se o epicentro do conluio que impediria o país de ser feliz.

A ironia é que ambos usam o Judiciário como escudo quando convém e como alvo quando o calo aperta. Lula, que hoje desfruta da reabilitação garantida pelas cortes, já foi o maior crítico do que chamava de ditadura da toga durante a Lava Jato. A direita, que pedia intervenção no tribunal, esquece que foi o mesmo Sistema que permitiu a sobrevivência política de seus líderes em diversos momentos.

Vilfredo Pareto, o sociólogo das elites e um dos que mais admiro, daria uma risada curta no canto da página. Para ele, a história é um “cemitério de aristocracias”. O populista é apenas uma elite que ainda não se sentou à cabeceira da mesa. Quando se sentar, ele vira o Sistema. Mas, como o poder exige um inimigo para se manter coeso, ele continua gritando contra o fantasma que ele mesmo já habita. É o governo com alma de guerrilha.

Na história do Brasil, a busca pela pureza na política sempre terminou em sujeira debaixo do tapete. Jânio Quadros queria varrer a corrupção; terminou varrido pela própria instabilidade. Collor era o caçador de marajás contra o Sistema; terminou caçado e cassado pelo próprio esquema.

Quando um líder se vende como o único puro contra uma política apodrecida, ele está matando a possibilidade do compromisso. Se o outro é o Sistema e o Sistema é o mal, não se negocia com ele; destrói-se ele. É assim que morrem as democracias modernas, não com um tanque na rua, mas com o cupim do discurso populista corroendo a legitimidade de quem pensa diferente.

Lula ao tentar se descolar do Sistema, e a direita ao tentar implodi-lo, cometem o mesmo erro de avaliação histórica. O Sistema brasileiro, um emaranhado de burocracia, clientelismo e garantismo, não é uma conspiração estrangeira. É o nosso espelho. É o resultado de séculos de patrimonialismo, no qual o público e o privado se abraçam num samba ou num forró indecente. O populista não quer acabar com o patrimonialismo; ele quer apenas ser o novo dono do patrimônio.

Não existe nada mais Sistema do que um líder que governa há décadas, direta ou indiretamente, e continua se dizendo perseguido. O populismo de direita e o de esquerda são, no fundo, formas de narcisismo político. Eles acreditam que a história começa com eles. Ao investir no discurso de que a política apodreceu, o líder autoriza seus seguidores a ignorarem as regras da civilidade. Se o juiz é o Sistema, eu não preciso obedecer à sentença. Se o jornalista é o Sistema, eu posso linchá-lo virtualmente. Se o Congresso é o Sistema, eu posso fechar os olhos para o orçamento secreto desde que ele sirva à minha grei.

O conluio de forças que impediria o país de ser feliz é, na verdade, a realidade batendo à porta. A felicidade de uma nação não vem da assepsia de um líder messiânico, mas do funcionamento institucional e funcional que garante que o poder seja limitado. O que o populista chama de Sistema é, muitas vezes, apenas a Lei se exprimindo.

Lula agora quer ser o rebelde com causa. Depois de três mandatos e uma estrutura partidária que é o próprio esqueleto do presidencialismo de coalizão, ele descobriu que o Sistema é o culpado pelas promessas que não saíram do papel. É o dono da padaria reclamando que o pão está caro ou que tem bromato. Então, os marqueteiros, no Planalto, juram que o discurso do nós contra eles é o que mantém a base aquecida. Na vida real, é o que mantém o país dividido e as reformas na gaveta. O populismo é uma dieta de calorias vazias: sacia a fome de revanche, mas não nutre o Estado.

A direita populista, por sua vez, opera o Sistema com uma mão e aponta o dedo com a outra. Ataca o Judiciário de manhã, mas corre para pedir liminares à tarde. O Sistema é o vilão perfeito porque ele não tem rosto, não tem CPF e não pode se defender nas redes sociais.

Hannah Arendt dizia que o objetivo da propaganda totalitária não é fazer as pessoas acreditarem em uma mentira, mas garantir que ninguém mais acredite em nada. Ao dizerem que tudo está apodrecido, os populistas destroem o solo no qual a democracia cresce. Se nada presta, o salvador vira a única bússola.

O problema é que bússolas de populistas costumam apontar sempre para o próprio umbigo.

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