A república das famílias e o teatro das antioligarquias

por Sérgio Trindade foi publicado em 12.mar.26

Depois de uns dias afastado do Rio Grande e me dedicando ao descanso, à leitura e a escreve um ou outro texto sobre assuntos diversos, resolvi voltar os olhos, novamente, para a província.

Neste belo elefante tornado desengonçado pela elite que o dirige, a palavra oligarquia é dessas que se pronunciam com o dedo em riste e o cenho franzido, como se fosse pecado mortal, herança maldita, praga bíblica. Todo candidato que se preze precisa, em algum momento, apontar para o horizonte e prometer a travessia do deserto, longe das famílias tradicionais, longe dos sobrenomes repetidos, longe do compadrio que atravessa gerações. É quase um ritual de iniciação.

Agora é a vez de Allyson Bezerra, prefeito de Mossoró e pré-candidato ao governo do estado, apresentar-se como resistência às oligarquias. Não é o primeiro. Antes dele, Wilma de Faria também vestiu o figurino de quem enfrentava os clãs tradicionais, ainda que viesse de uma família politicamente importante (Faria) e começasse a carreira política em outra família importante e estruturada (Maia) e tivesse construído alianças com velhos troncos do poder (Alves, Maia e Rosado). Depois, Fátima Bezerra repetiu o enredo: insurgente contra as elites familiares, mesmo abraçada a várias delas (Alves, Faria e Rosado) em nome da governabilidade.

Há algo de profundamente brasileiro nessa encenação. E para explicá-la talvez seja preciso recorrer não ao marketing eleitoral, mas aos clássicos da ciência política e do pensamento social brasileiro para compreender a ironia.

Comecemos pela teoria das elites, uma de minhas preferidas. O italiano Gaetano Mosca ensinou que toda sociedade é governada por uma minoria organizada, não importa o regime, o discurso ou a bandeira. Há sempre uma classe dirigente que controla os instrumentos do poder. Vilfredo Pareto refinou a ideia ao falar na circulação das elites: saem uns, entram outros, mas a estrutura oligárquica permanece. E Robert Michels foi ainda mais direto ao formular a lei de ferro da oligarquia, segundo a qual toda organização, inclusive partidos que nascem democráticos, tende a concentrar poder em poucos.

Aplicar essa lente ao Rio Grande do Norte não exige esforço hermenêutico sofisticado. Basta olhar para o nosso passado.

Imagem feita com auxílio de IA

Quando Wilma ressurgiu, me meados dos anos 1990, agora como liderança de oposição às velhas famílias que dominavam o Estado, havia ali um discurso legítimo de renovação. Mas o que se viu, com o tempo, foi a substituição de um arranjo por outro. A governadora que denunciava oligarquias construiu sua própria rede de fidelidades, alianças regionais, acordos com grupos tradicionais. A retórica do enfrentamento conviveu com a prática do pacto. Não se trata de julgamento moral e, sim, de constatação estrutural. Governar exige maioria. E maioria, no Brasil, constrói-se com alianças, muitas delas familiares. Por isso, Fátima Bezerra, oriunda de uma trajetória sindical e partidária marcada pelo discurso da luta popular, também ascendeu sob o signo da ruptura. Seu capital simbólico vinha do enfrentamento às elites tradicionais. No exercício do poder, contudo, precisou negociar com prefeitos, deputados, líderes regionais, muitos deles herdeiros de dinastias políticas. O pragmatismo substituiu o purismo e o que se apresentou como superação das oligarquias revelou-se convivência com elas, às vezes crítica, às vezes cúmplice, quase sempre necessária.

Agora vem Allyson repetindo o roteiro e apresentando-se como jovem gestor moderno, distante dos clãs históricos, muito embora circule entre sobrenomes conhecidos, dialogando com grupos familiares consolidados, costurando apoios que não brotaram do nada. A política não se faz no vazio sociológico. Ela se faz sobre estruturas pré-existentes de poder, logo, meus três ou quatro leitores, o problema não é a aliança e, sim, o discurso que transforma a própria prática em negação da realidade.

O Brasil, como lembrou Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil, construiu-se sobre a confusão entre o público e o privado. O homem cordial não é cordial por ser simpático, mas por agir a partir dos laços pessoais, afetivos, familiares. A política brasileira não se organizou prioritariamente em torno de instituições impessoais, mas de relações de proximidade. O Estado tornou-se extensão da casa. Por linha próxima segue Raymundo Faoro, em Os donos do poder. Ali, Faoro mostrou como o patrimonialismo moldou a formação do Estado brasileiro, como a máquina pública não se separou nitidamente dos interesses privados das elites dirigentes e como foi criado um estamento burocrático que, embora não idêntico às famílias tradicionais, dialoga com elas e frequentemente se entrelaça por laços de parentesco, casamento, compadrio.

No Nordeste, frise-se, essa herança assumiu feições ainda mais nítidas. A propriedade da terra, o controle de recursos escassos e a mediação com o poder central produziram dinastias políticas que atravessaram décadas e até séculos. Não por acaso, sobrenomes repetem-se em prefeituras, assembleias, secretarias. É um fenômeno estrutural. Diante disso, a promessa de “acabar com as oligarquias” soa como promessa de acabar com a gravidade.

A crítica às oligarquias familiares pode ser legítima quando denuncia práticas de nepotismo, captura de recursos públicos, perpetuação de privilégios. Torna-se vazia, entretanto, quando ignora que a própria dinâmica partidária reproduz concentração de poder. Partidos que falam em democratização interna frequentemente são comandados por diretórios fechados, lideranças carismáticas, núcleos restritos de decisão. A oligarquia muda de endereço, não desaparece.

Há também uma dimensão simbólica nesse discurso. No imaginário político potiguar, a palavra oligarquia associa-se a figuras históricas que dominaram o estado por longos períodos. Criticá-las rende aplauso fácil. É uma forma de se posicionar como outsider, mesmo quando se está profundamente inserido no jogo. No entanto, como ensinava Michels, até os outsiders organizam-se e criam sua própria elite dirigente. O movimento que nasce contra a concentração de poder tende, com o tempo, a concentrá-lo.

Wilma criticou as velhas famílias, mas governou com alianças amplas. Fátima denunciou estruturas tradicionais, mas precisou delas para sustentar maioria. Allyson acusa o passado, mas negocia, no presente, com ele. Não há nisso escândalo. Há política.

O que soa artificial é a narrativa de pureza. Certamente fosse mais honesto admitir que a política é, por natureza, oligárquica, no sentido técnico do termo. Sempre haverá poucos decidindo por muitos. A questão relevante não é eliminar as elites, mas controlá-las, renová-las, submetê-las a regras claras e fiscalização efetiva. Portanto, meus três ou quatro leitores, o eleitor potiguar não ganha nada com a ilusão de que surgirá um governante imune às estruturas familiares e às redes de poder. Ganha, sim, se exigir transparência, limites institucionais, respeito à legalidade e eficiência administrativa. O debate deveria deslocar-se da fantasia da ruptura absoluta para a qualidade da gestão concreta.

Há, no fundo, uma certa melancolia nessa repetição histórica. Cada geração acredita estar inaugurando um novo tempo. Cada campanha promete romper com o passado oligárquico. E, ao final, o que se vê é a circulação de elites descrita por Pareto: mudam os rostos, permanecem as engrenagens. O movimento ocorre no mundo todo. Brasil e  Rio Grande do Norte, portanto, não são exceção, mas laboratórios.

O verdadeiro gesto revolucionário seria provavelmente abandonar o discurso messiânico e assumir a complexidade. Reconhecer que alianças são inevitáveis, que famílias continuarão influentes, que partidos concentram poder e que o desafio não é negar isso, mas regular, fiscalizar e equilibrar. Enquanto isso não acontece, seguiremos assistindo ao teatro das antioligarquias: candidatos que denunciam estruturas das quais participam, governantes que criticam dinastias enquanto constroem as suas e eleitores que aplaudem a retórica e se surpreendem com a prática.

No alpendre da história potiguar, as cadeiras mudam de lugar. Mas a sala continua a mesma. E as famílias, com seus sobrenomes longos e memórias mais longas ainda, seguem sentadas à mesa do poder, convidadas ou indispensáveis. Não por maldade. Por estrutura.

O primeiro passo para amadurecer o debate político no estado é reconhecer que não há política sem elite, não há governo sem minoria dirigente, não há pureza institucional em sociedades moldadas pela intimidade entre Estado e família. O resto, meus poucos e caríssimos leitores, é só discurso de campanha. Demagógico.

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