A tardia (ou oportunista?) revolta fatimida

por Sérgio Trindade foi publicado em 28.abr.26

Há políticos que governam com obras, outros com decretos, alguns com silêncio e muitos com barulho. Fátima Bezerra prefere governar com a memória seletiva. É um método barato, reciclável e, no Brasil, quase sempre eficiente. Quando falta argumento, convoca-se a velha procissão dos culpados: as elites, as oligarquias, as famílias tradicionais, os donos do atraso e, prontamente, o passado comparece algemado para absolver o presente.

Agora, a governadora se queixa das elites potiguares que lhe teriam aplicado uma rasteira. No 8º Congresso Nacional do Partidos dos Trabalhadores (PT), em Brasília, ela disse que “as velhas elites fizeram uma manobra para me tirar da disputa, mas não conseguiram e nem vão conseguir tirar a cadeira de senador que é do PT e do povo do Rio Grande do Norte. (…) Eu quero dizer que eles não ousem subestimar a força de uma mulher que nunca se moveu por vaidade nem por projeto pessoal. Dei demonstração disso ao longo da minha vida, dos quase 40 anos de militância que eu tenho no Partido dos Trabalhadores. Se pensavam que nós íamos ficar assistindo a tudo isso parados, muito pelo contrário. Eu tô na luta com mais coragem ainda, com mais garra ainda, junto com a nossa militância” (https://saibamais.jor.br/2026/04/fatima-bezerra-velhas-elites-fizeram-manobra-para-me-tirar-da-disputa/). É óbvio ululante que a fala é uma referência ao vice-governador Walter Alves (MDB), que rompeu com o sistema liderado por Fátima e se aliou ao grupo de oposição chefiado por Allyson Bezerra (União Brasil) e inviabilizou o plano da governadora de afastar do comando administrativo do estado para se candidatar ao senado.

O tom é de vítima traída por forças tenebrosas. O dramalhão, contudo, perde impacto se atentarmos para um detalhe já indicado acima: uma das supostas forças obscuras atende pelo nome de Walter Alves, seu vice-governador, parceiro institucional, companheiro de chapa, em 2022, criatura que não surgiu de um castelo ou de um mosteiro medieval na semana passada. Já estava lá quando os fotógrafos sorriram, quando os palanques se ergueram, quando os discursos falaram em união.

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É sempre tocante ver alguém surpreender-se com aquilo que escolheu abraçar.

Lá vem, então, a velha cantilena petista sobre o atraso oligárquico, como se o Rio Grande do Norte fosse um museu de coronéis e o PT uma caravana de jacobinos desembarcada ontem. Convém lembrar que o partido da governadora já não tem idade para inocência. Cresceu, administrou, compôs, loteou, cedeu, recebeu e descobriu, como todos os partidos descobrem, que pureza ideológica é artigo de luxo e maioria parlamentar custa caro.

Vilfredo Pareto, que entendia de máscaras sociais, dizia que a história é o cemitério das aristocracias. Como não conhecia o Brasil, deixou de acrescentar que, nestes tristes trópicos, elas raramente morrem. Quando a morte de aproxima, as aristocracias trocam de sigla, de genro, de método e de discurso. Gaetano Mosca foi mais direto: sempre há uma minoria organizada mandando numa maioria desorganizada. Chamou isso de classe política. Nós chamamos de base aliada.

Não existe política sem elites. A questão nunca foi a existência delas, mas a quais interesses servem, como se renovam e quanto cobram pelo apoio. O resto é retórica para comício e indignação terceirizada. Por isso soa curiosa a súbita revolta fatimida contra as oligarquias familiares potiguares. Há duas décadas a governadora trafega entre elas com a naturalidade de quem conhece a mobília da casa. Não se trata de acusação moral; trata-se de constatação cronológica. Quem faz alianças longas não pode alegar desconhecimento de caráter alheio. Se o fez por pragmatismo, assuma o pragmatismo. Se o fez por necessidade, admita a necessidade. O que não combina é posar de Joana d’Arc depois de tantos jantares diplomáticos.

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Disse Fátima Bezerra que agora é vai se envolver na campanha: “Primeiro, pelo respeito e pelo amor que eu tenho ao povo do Rio Grande do Norte, e pelo respeito e pelo compromisso que a gente tem com o projeto nacional e com o projeto regional. Eu quero dizer aqui a vocês, inclusive com base em pesquisas internas que nós temos. Podem escrever, nós vamos levar Cadu Xavier ao segundo turno e eleger governador do estado. E a cadeira que honrosamente, enquanto senadora, eu ocupei em 2014, representando o povo do Rio Grande do Norte, essa cadeira vai voltar a ser do PT e do povo do Rio Grande do Norte, porque nós vamos eleger Samanda senadora no Rio Grande do Norte” (https://saibamais.jor.br/2026/04/fatima-bezerra-velhas-elites-fizeram-manobra-para-me-tirar-da-disputa/). E, claro, Fátima não abrirá mão das elites, pois neste mesmo ano, a governadora conta com o apoio de Henrique Eduardo Alves, da família Rosado, dos Soares (Assu) nomes que dificilmente entrariam num almanaque revolucionário. São representantes clássicos dessas linhagens políticas que, quando convém, viram demônios; quando ajudam, viram estadistas experientes. A moral muda conforme a necessidade do calendário eleitoral.

Nicolau Maquiavel talvez sorrisse: o príncipe deve saber usar o leão e a raposa. Por aqui, prefere-se usar a raposa no palanque e o leão no discurso. Ora, governar é lidar com o real, não com panfletos, diria Max Weber. Mas entre nós inventou-se uma terceira via ética: a da conveniência.

No fundo, a queixa de Fátima não é contra elites. É contra elites que, desta vez, não obedeceram. Enquanto serviam ao arranjo, eram parceiros democráticos. Ao primeiro movimento autônomo, regressaram à condição de oligarcas hereditários.

A política tem dessas sinceridades involuntárias. Quando o poder escapa, a ideologia costuma voltar correndo para buscar explicações.

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