Quando Minas declarou guerra ao Oriente Médio

por Sérgio Trindade foi publicado em 31.maio.26

Sou vidrado em Minas Gerais. Já fui cinco vezes e a cada viagem descubro algo novo. Minas é, para mim, entre todos os estados brasileiros, o mais rico. Em todos os aspectos.

Estive lá em fevereiro, para uma temporada de duas semanas. Conheci o sul do estado, que eu ainda não havia visitado. Em Lambari, passei quase três dias, conversei com muita gente e soube de histórias deliciosas.

Uma delas, particularmente, chamou minha atenção. Escrevo-a abaixo, depois de pesquisar um pouquinho sobre ela. Menciono uma das fontes ao longo do texto e as demais ao final.

Quem me contou a história sugeriu que eu buscasse o documentário de Gustavo Jardim chamado A Hora do Primeiro Tiro. Consegui-o aqui em Natal com um amigo especialista em arqueologia virtual.

O título do documentário já era uma promessa alvissareira: alguma guerra, algum heroísmo. E de fato a história começava com uma notícia inquietante: em junho de 1967, Israel declarava guerra e anunciava a invasão da Jordânia com dezenas de tanques e milhares de soldados. Nada de extraordinário, afinal tratava-se da conhecida Guerra dos Seis Dias, conflito que entrou para os livros de História e que, de certo modo, parece nunca ter terminado completamente. A graça da história não era a guerra em si, mas o cenário onde ela parecia acontecer.

Na tela da TV apareceu um senhor, seu Nenguinha, rosto esculpido pelo tempo, pelo sol e pela poeira. Falava com a tranquilidade dos velhos que não precisam convencer ninguém de nada. E declarou, sem hesitação, que testemunhara tudo.

Aquilo me intrigou.

Como podia um homem que aparentemente jamais deixara sua pequena cidade às margens do Jequitinhonha ter presenciado uma invasão militar envolvendo Israel e Jordânia?

A resposta era bem mineira.

Naquele mesmo ano de 1967, governava Minas Gerais Israel Pinheiro, velho companheiro de Juscelino Kubitschek na aventura de construir Brasília, filho do também político de nomeada e precocemente falecido João Pinheiro. Era homem respeitado, sincero e sem meias-palavras, engenheiro competente, político influente.

E existia, quase na divisa entre Minas Gerais e Bahia, uma pequena cidade chamada Jordânia.

A tragédia estava pronta. Ou melhor, a comédia estava pronta. E acabada.

Naquele tempo, os sertões mineiros viviam distantes do mundo. As estradas eram ruins, os jornais chegavam tarde quando chegavam, o rádio pegava mal e a televisão era um luxo inacessível. Mesmo pegando mal, o rádio AM era a janela por onde entravam as notícias do planeta. E entravam também os equívocos.

Conta-se que numa manhã de 1967, por volta das seis e meia, a notícia saiu pelos alto-falantes invisíveis do rádio: “Israel invade a Jordânia com dezesseis tanques blindados e mil e seiscentos homens.”

Era uma informação perfeitamente correta. Só havia um detalhe: quem a ouviu acreditou que o Israel invasor era o governador. E que a Jordânia era a cidade. O primeiro morador que escutou a notícia correu desesperado para a casa do prefeito e quando chegou lá, encontrou outros cidadãos igualmente ofegantes. Todos traziam a mesma novidade. Todos acreditavam na mesma ameaça. Todos estavam convencidos de que Israel Pinheiro decidira acabar com o município.

O prefeito ouviu o relato. Pediu que ligassem o velho rádio de válvulas. Entre chiados, assovios e interferências, a notícia foi repetida. Israel invadia a Jordânia. Pronto. A dúvida desapareceu e o silêncio tomou conta da sala. Depois vieram os palavrões. O prefeito, dizem as testemunhas, descarregou sobre o governador uma coleção de pragas capaz de fazer corar um tropeiro. Bateu com força na mesa e anunciou: “Pode deixar ele vir. Nós vamos encarar.”

Imagem feita com auxílio de IA

Era um daqueles prefeitos de oposição, um dos poucos da região que não se alinhavam politicamente ao governador. E isso ajudava a tornar a história mais crível para os habitantes. O raciocínio era simples: Israel perdera a eleição no município e estava se vingando. Mandaria um exército. Destruiria a cidade. Era lógico. Ou quase.

Pouco depois o prefeito subiu na carroceria de um caminhão velho e começou a percorrer as ruas convocando voluntários.

Quem tivesse revólver deveria carregá-lo. Quem possuísse carabina deveria limpá-la. As garruchas precisavam estar prontas. Facões, foices, machados, enxadas e porretes deveriam ser reunidos imediatamente. Os lavradores foram chamados de volta das roças. As mulheres receberam ordem para esconder as crianças. As portas deveriam ser reforçadas. Água e mantimentos precisavam ser estocados. Uma guerra aproximava-se. E a pequena Jordânia não seria pega desprevenida.

É curioso como o medo organiza as pessoas. Em poucas horas, uma cidade inteira passou a viver dentro de uma realidade paralela. Os moradores conversavam em voz baixa. Olhavam desconfiados para o horizonte e tentavam adivinhar de qual estrada surgiriam os dezesseis tanques blindados. Os mais corajosos imaginavam emboscadas. Os mais prudentes calculavam rotas de fuga. Os mais exaltados sonhavam com glórias militares. Dividiram-se em grupos. Entrincheiraram-se nas três principais vias de acesso ao município. Esperaram – continuaram esperando. Enquanto isso, uma senhora chamada Juliana fazia biscoitos com outras quituteiras. Seu depoimento no documentário talvez tenha sido a parte mais impressionante de toda a história.

Ela contou que uma das mulheres, ao ouvir a notícia da invasão, entrou em verdadeiro desespero. De repente escutou o barulho de um avião. Convenceu-se de que o ataque começara. E correu. Correu tanto que acabou se metendo dentro de um forno de lenha – e morreu torrada. Pode ser exagero ou invenção. Pode ser memória transformada em lenda. Há verdades, entretanto, que sobrevivem justamente porque parecem impossíveis. E a imagem daquela mulher preferindo o fogo ao exército invasor possui uma força que nenhum historiador conseguiria melhorar.

Enquanto a população permanecia mobilizada, alguns emissários foram enviados secretamente a cidades vizinhas. Era preciso buscar reforços. Almenara foi procurada. Depois Governador Valadares. A missão consistia em conseguir armas, homens, mantimentos e apoio. Os enviados chegaram aflitos. Explicaram a situação. Narraram a iminente invasão e pediram ajuda. O prefeito de Almenara ficou sem saber o que dizer. Mas teve a prudência que às vezes salva o mundo. Resolveu investigar. Partiu para Governador Valadares. Lá encontrou alguém mais bem informado. Foi então que a névoa começou a se dissipar. Não havia guerra nenhuma em Minas Gerais. Não havia tropas do governador marchando sobre Jordânia e nem tanques atravessando o Jequitinhonha. A invasão ocorria do outro lado do planeta. Na chamada Terra Santa. O conflito era entre países. Não entre prefeitos e governadores.

Munido dessa revelação extraordinária, o emissário regressou. Chegou à cidade. Explicou tudo. Falou sobre o Oriente Médio. Falou sobre Israel. Falou sobre a Jordânia. Falou sobre uma guerra distante. Mas descobriu algo que todos os portadores da verdade aprendem cedo ou tarde: as pessoas raramente acreditam nela. Ninguém acreditou. Pelo contrário. Muitos passaram a suspeitar que aquela explicação fazia parte de uma estratégia inimiga. Mentiras de guerra. Propaganda enganosa. Ardis do governador. E a resistência, portanto, permaneceu firme. Os voluntários continuaram em suas posições. Alguns já viam Israel Pinheiro como uma espécie de encarnação do próprio demônio.

Foi então que surgiu uma solução moderna para um problema medieval. Panfletos foram confeccionados. Muitos panfletos. Neles explicava-se que a guerra acontecia no Oriente Médio e que a mineira Jordânia não corria perigo. Israel Pinheiro não pretendia invadir a cidade. Todos podiam voltar para casa. Havia, porém, outro problema: como distribuir os papéis?

Resolveram usar um helicóptero.

Conta-se que o aparelho precisou voar em altitude segura, pois nunca se sabe quando uma população armada e desconfiada pode interpretar um helicóptero como o início da ofensiva.

Do céu caíram os panfletos. Sobre a praça. Sobre as ruas. Sobre os telhados. Sobre a perplexidade coletiva. E foi somente depois de ler aquelas folhas impressas que a maioria finalmente se convenceu: a guerra não era ali! Os tanques não viriam. O governador não era um conquistador oriental. A paz estava restaurada. Mesmo assim, alguns teimosos permaneceram escondidos durante semanas e outros continuaram na tocaia por meses, esperando o inimigo, esperando os blindados, a glória e algo que nunca chegou.

Tadeu Martins, cordelista amigo do violeiro Chico Lobo, registrou mais tarde uma frase atribuída ao prefeito. Segundo ele, o homem ainda estufava o peito e dizia: “Se o doutor Israel viesse mesmo, ele voltava desmoralizado porque nós arrasava o exército dele.”

A frase é boa. Não pela gramática. Mas pela humanidade. Há nela uma mistura de coragem, ingenuidade, dureza  leveza e orgulho municipal que define muito bem certas cidades brasileiras.

Depois de ouvir pela primeira vez a história, de assistir o documentário e de ler sites, blogs, etc, fiquei imaginando Israel Pinheiro recebendo notícia daquela confusão em seu gabinete do Palácio da Liberdade. Talvez alguém tenha lhe contado ou ele talvez tenha lido algum relatório (se é que ele soube de algo). Se soube, certamente deu boas gargalhadas. Porque às vezes o Brasil produz episódios tão improváveis que nem a ficção ousaria inventar. A história em questão vale mais do que uma simples anedota, porque ele fala de um tempo e de um país no qual a distância – não apenas da distância geográfica, mas a distância entre informação e compreensão, entre notícia e interpretação, entre o mundo e os lugares esquecidos pelo mundo – construiu nossa identidade. Os sertões mineiros daquela época viviam cercados de montanhas, estradas ruins, isolamento e silêncios. Uma frase mal-entendida podia provocar uma mobilização militar. Uma notícia distante podia transformar-se numa ameaça local. O rádio encurtava as distâncias, mas nem sempre esclarecia os significados.

Provavelmente por isso essa história continua viva. Porque ela nos faz rir e também nos faz pensar, visto que entre a verdade e aquilo que entendemos dela existe um caminho longo e sinuoso, tortuoso mesmo e cheio de armadilhas.

 

https://fdcl.com.br/site/a-invasao-de-jordania/

https://blogdobanu.blogspot.com/2020/01/jordania-x-israel-uma-guerra-no.html?m=1

https://www.youtube.com/watch?app=desktop&v=rq4VOf5Niog&pp=0gcJCY4Bo7VqN5tD

 

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