Os deuses resolveram jogar xadrez

por Sérgio Trindade foi publicado em 20.jul.26

É o meu último texto sobre a Copa do Mundo de 2026 (há um outro que estará nas páginas do Diário do RN, o qual escrevi algumas antes do jogo final).

Antes de tudo, faço uma advertência: o jogo final entre Argentina e Espanha não cabe na estatística. Ela pertence, como várias outras, ao departamento das tragédias, no qual o destino escreve a súmula antes de o juiz apitar. Foi um jogo de futebol, é fato. Entretanto, antes e acima de tudo, foi um duelo entre o bisturi e a faca, entre a paciência de um relojoeiro e o desespero de um condenado, pois durante cento e vinte minutos o gol foi uma miragem. Andou pelo gramado como uma assombração, mostrando-se apenas para desaparecer logo em seguida. Em vários momentos, a bola parecia amaldiçoada. Não queria beijar as redes. Preferia vagar de pé em pé, indiferente ao sofrimento de milhões de torcedores.

Os dez minutos iniciais foram uma mentira, como por vezes é o futebol. Sim, meus três ou quatro leitores, o futebol adora mentir. E o que assistiríamos ao longo do duelo pareceria um festival de ataques, um carnaval de dribles, uma tempestade de gols. Ledo engano. Bastou o relógio avançar um pouco para que o jogo mergulhasse numa solenidade quase burocrática. A Espanha tomando posse da bola como um banqueiro segura o cofre, sem emprestá-la, sem perdê-la, sem dividi-la, sem rifá-la. Era dona da esfera e fazia questão de exibir o título de propriedade, tocando daqui pr’ali, desenhando triângulos, retângulos, trapézios e outros coisas capazes de emocionar um professor de matemática, mas incapazes de fazer estremecer o goleiro Dibu Martínez.

Yamal, esse menino que alguns já tratam como se tivesse inventado o próprio futebol, encontrou pela frente uma muralha invisível. Foi mal uma vez, duas vezes, três vezes, quatro vezes. Quando finalmente não mal foi, acertando uma conclusão, Dibu recolheu o balão de couro com a tranquilidade de quem apanha o leite na porta de casa. Não houve milagre, só rotina. Do outro lado, Messi vivia um daqueles dias em que até os deuses descobrem que são mortais. O gênio argentino caminhava pelo campo cercado por espanhóis como um rei deposto atravessando uma multidão hostil. Cada toque na bola era imediatamente seguido por duas, três, quatro camisas vermelhas. O camisa 10 portenho parecia carregar um piano nas costas e uma cruz nos ombros.

Terminou o primeiro tempo e o placar mostrava dois zeros. Nunca dois zeros disseram tanto. Eram dois monumentos à esterilidade ofensiva. Dois irmãos siameses abraçados pela prudência.

Veio a etapa final. E ela foi irmã gêmea da primeira.

A Espanha continuou dona da casa, da bola, do relógio, do espetáculo e da paisagem. Controlava tudo. Ditava o ritmo. Respirava antes de a Argentina respirar. Mas havia um detalhe cruel: faltava-lhe o punhal. Os argentinos, por sua vez, pareciam sobreviver por aparelhos. Durante os 90min, sequer acertaram um chute na direção do gol espanhol. Era como assistir a um boxeador cambaleante tentando vencer uma luta apenas pela força da tradição.

Enzo Fernández acabou expulso nos acréscimos. O segundo cartão amarelo caiu sobre a Argentina como uma sentença escrita pelo próprio destino. Qualquer mortal imaginaria que ali terminava a história. Os argentinos, porém, não são mortais comuns quando jogam futebol. São criaturas estranhas. Quanto mais sofrem, mais acreditam; quanto mais apanham, mais avançam. Há algo de religioso naquela camisa branca e azul listrada. Ela transforma o desespero em combustível. E com um homem a menos, a Albiceleste fez aquilo que qualquer equipe sensata faria: amarrou o jogo, mastigou cada segundo, transformou cada lateral numa conferência internacional e cada falta numa tese de doutorado. Precisava chegar à prorrogação. E chegou.

A prorrogação começou como começam os pesadelos: sem aviso. Massacre espanhol durante o primeiro tempo, sem sucesso; no segundo tempo, antes que muita gente encontrasse novamente o sofá, Ferran Torres apareceu. Bastaram alguns segundos para que a muralha argentina fosse finalmente vazada. O gol caiu como um raio. Entrou sem pedir licença e, naquele instante, parecia que o mundo inteiro vestia vermelho.

O futebol, às vezes, produz cenas que fariam um dramaturgo abandonar a literatura por absoluta falta de imaginação. Nico Williams, faltando poucos minutos para os cento e vinte, teve a chance de decretar a sentença definitiva. Bastava empurrar a bola para dentro. Simples. Infantil. Elementar. Mas o futebol é uma divindade debochada e Nico preferiu enfeitar, brincar, flertar com a bola. Durante um segundo, desafiou os deuses, e os deuses quase responderam.

Imagem feita com auxílio de IA

A Argentina se recusou a morrer. Foi para o ataque sem organização alguma, mas com muita fé; sem qualquer estratégia, só com desespero. Pôs a alma na ponta das chuteiras, como se cada corrida fosse a última de sua vida.  Meus três ou quatro leitores sabem que existe uma lei antiga, antiquíssima, mais velha que o próprio futebol: quem desperdiça a misericórdia costuma receber o castigo. Desta vez, porém, a punição não veio. A Espanha escapou do próprio pecado. Os minutos finais foram um cerco argentino movido mais pelo orgulho do que pelas pernas. Os espanhóis resistiram como uma fortaleza medieval cercada por um exército desesperado. A Espanha vencia por um gol. Apenas um. Quando o árbitro encerrou a batalha, apitando o fim da partida, nasceu um bicampeão do mundo. Foi uma vitória que pesou toneladas e premiou a melhor seleção.

 

posts relacionados
Logo do blog 'a história em detalhes'
por Sérgio Trindade
logo da agencia web escolar