Sem rendição, assim é a Argentina de Messi
Inglaterra e Argentina fizeram, hoje, uma partida metafísica. Brincando com o destino, produziram um espetáculo dividido em dois atos absolutamente inconciliáveis. O primeiro parecia escrito por um burocrata do Ministério da Educação. O segundo, por um poeta apaixonado pelo caos.
Os quarenta e cinco minutos iniciais foram um monumento à esterilidade. A bola rolava como um funcionário público em fim de expediente, sem entusiasmo, sem pressa e sem qualquer compromisso com a eficiência e/ou com a beleza. Os jogadores corriam muito, trombavam mais ainda e reclamavam do árbitro com a convicção dos inocentes que acabam de ser condenados à forca. Chutaram três vezes ao gol, todos sem direção. Repito porque ninguém acreditaria. Três míseros chutes – e nenhum encontrou o gol. Era como assistir a dois espadachins duelando durante uma hora para, ao final, descobrir que ambos haviam esquecido as espadas em casa. O gramado tornou-se uma sala de espera onde vinte e dois homens aguardavam que alguma coisa extraordinária acontecesse. Não aconteceu.
O futebol, uma espécie de artista de circo que vive de improvisar milagres, havia abandonado o estádio sem deixar bilhete. O destino, porém, decidiu aparecer depois do intervalo, e veio como um sujeito debochado que adora humilhar previsões. E então começou outro jogo. Não uma continuação daquela velhacaria dos quarenta e cinco minutos iniciais.
Os quinze minutos iniciais da segunda etapa pareciam disputados por equipes diferentes daquelas que haviam protagonizado a sonolência anterior. A Argentina passou a jogar com a urgência dos condenados. A Inglaterra, por sua vez, encontrou espaços e golpeou primeiro e fez o gol exatamente como surgem certas injustiças da vida, quando ninguém mais espera: um a zero.
Nesse instante, milhares de argentinos sentiram o coração escorregar para dentro dos sapatos. Mas, meus três ou quatro leitores, há uma doença antiga que acomete algumas seleções. Chama-se medo de vencer. É um vírus. Não provoca febre e não altera exames laboratoriais. Apenas transforma guerreiros em fiscais de professores.
A Inglaterra foi contaminada imediatamente. Recuou. Depois recuou mais um pouco. E, por via das dúvidas, resolveu continuar recuando, até, como se diz na infantaria, molhar o fundo das calças. Abdicou do ataque como um monge renuncia aos prazeres da carne. Cada jogador inglês parecia convencido de que a melhor maneira de ganhar uma partida era esquecer que existia um gol do outro lado do campo.
Covardia nunca foi estratégia. É uma espécie de superstição. E o futebol detesta supersticiosos.
Enquanto isso, a Argentina crescia. Era um time que se comporta como uma maré, uma avalanche um incêndio morro acima. Cada ataque empurrava os ingleses alguns metros para trás e cada dividida fazia tremer uma muralha construída sobre areia. Martelava, martelava, martelava e martelava, até que chegou Enzo Fernández e desferiu um chute forte mas sem peso de fora da área… um chute que rasgou o tecido da realidade. A bola saiu de seus pés como um projétil lançado pelos deuses do futebol, atravessou o espaço sem pedir licença e explodiu nas redes, como um ato de rebelião contra o medo.
O estádio mudou de temperatura. Os ingleses descobriram que o empate pode ser mais cruel do que a derrota anunciada. O pânico instalou-se em cada passe errado, em cada bola rifada, em cada olhar aflito. O relógio ainda caminhava, mas o destino já havia escolhido seu favorito. Cinco minutos depois apareceu Lautaro Martínez, um eficiente centroavante, daqueles que têm o dom sobrenatural de farejar tragédias antes dos demais.
Lautaro percebeu que a Inglaterra estava morta, embora ainda respirasse. Bastava empurrá-la para dentro do abismo. Foi exatamente o que fez. Dois a um. De virada. Uma virada histórica. Merecida. E ali estava a velha moral que o futebol insiste em repetir desde que inventaram uma bola de couro: não vence necessariamente o mais talentoso. Nem sempre o mais organizado. Muito menos o mais bonito. Vence, quase sempre, aquele que se recusa a negociar com o medo.

Imagem feita com auxílio de IA
A Inglaterra teve a vitória nas mãos e a tratou como quem segura um passarinho com força excessiva: acabou sufocando o próprio triunfo, enquanto a Argentina fez o contrário. Abraçou o risco e enfrentou o relógio, desafiou a lógica e descobriu, no minuto quarenta e no minuto quarenta e cinco do segundo tempo, aquilo que todo torcedor aprende cedo: o futebol é o único lugar do mundo onde a coragem costuma chegar exatamente quando a esperança começa a ir embora.