O altar e o tribunal

por Sérgio Trindade foi publicado em 25.jun.26

Assisto, desde a Copa de 2006, às partidas da seleção brasileira sem muita e, por vezes sem qualquer empolgação.

Houve um tempo em que o brasileiro discutia futebol como quem discutia religião. Hoje discute futebol como quem participa de uma assembleia de condomínio: ressentido, desconfiado e disposto a expulsar o síndico.

A diferença entre argentinos e brasileiros, desde os anos 1980, em dois nomes: Pelé e Maradona. Segue assim, só que os dois nomes hoje são Messi e Neymar. Entre Pelé e Maradona a discussão era para saber quem foi melhor. E ter Messi e Neymar tal questão nem é levantada.

Depois dos dois primeiros jogos da Argentina nesta Copa, após mais uma exibição grandiosa de Lionel Messi, assisti uma cena que, para nós, parece romance. Os comentaristas argentinos falavam dele com uma naturalidade reverente. Não havia debate e nem tribunal de inquisição, tampouco promotor público. Messi era Messi. Ponto final.

Imagine um jornalista portenho perguntando seriamente se Messi deveria ser convocado. Seria internado antes do intervalo comercial. Por uma questão simples: na Argentina, o craque não precisa apresentar certidão de santidade a cada quinze dias. Não precisa provar que dormiu cedo, que tomou sopa de legumes ou que atravessou a rua na faixa de pedestres. Basta jogar bola, e jogar bola, convenhamos, Messi faz como poucos mortais desde que Deus resolveu criar o pé esquerdo. O argentino pode até discordar do treinador, da tática, do esquema ou do horário do jogo. Há uma cláusula pétrea na constituição sentimental da pátria: Messi pertence à seleção.

Já no Brasil, Neymar parece ter sido condenado a uma espécie de prisão perpétua emocional. Não importa quantos gols faça. Não importa quantos passes precisos distribua. E nem mesmo que continue sendo, tecnicamente, um dos jogadores mais talentosos produzidos pelo futebol brasileiro neste século. Parcelas consideráveis da mídia tupiniquim continuam tratando Neymar como um réu reincidente. E não falo de crítica esportiva. É algo maior. Há uma necessidade quase litúrgica de julgá-lo.

Antes de seguir adianto: acho Neymar um craque dentro de campo. Como achava Romário e Ronaldo dois cracaços. Nunca quis saber o que dois faziam fora, desde que, coma camisa da seleção, fizessem gols e mais gols e jogadas geniais. Tenho o mesmo pensamento ainda hoje. Não me interessa a vida privada de Neymar, desde que, jogando pela seleção, jogue o fino.

Só que por cá Neymar é julgado pelo corte de cabelo, pelo uso de boné, pela(s) namorada(s) que coleciona, pela festa que deu, pelas amizades, pela dança etc. Se espirra, surge um especialista para explicar por que o espirro compromete o futuro da seleção.

Imagem feita com auxílio de IA

Os argentinos observam tudo isso com uma perplexidade divertida, porque, para eles, a lógica é simples: se um jogador extraordinário está apto fisicamente e possui qualidade técnica incomparável, ele deve ser convocado. Se não está fisicamente bem, mas poderá estar apto em alguns dias, é preciso aguardá-lo. Fim da conversa. Lá não existe esse prazer tropical de transformar o maior talento disponível em alvo permanente de um tribunal moral.

O argentino é passional, mas sua paixão tem coerência. Ele protege seus ídolos. O brasileiro moderno, ao contrário, parece sentir prazer em demolir os próprios monumentos. Foi assim com vários. Com Romário, com Ronaldo, com Ronaldinho, com Zico. Foi assim, em determinados momentos, até com Pelé. Neymar talvez tenha se tornado o caso mais emblemático. Há quem fale dele como se fosse um atacante mediano que, por algum acidente burocrático, vestiu a camisa da seleção.

E então surge a pergunta inevitável: imaginem Neymar nascendo em Rosário, Córdoba ou Mendoza, alguém acredita que os argentinos discutiriam sua convocação diariamente?

Claro que não. Ele seria tratado como o craque que é. Os programas esportivos exibiriam seus dribles em câmera lenta, acompanhados por música épica, as crianças usariam sua camisa, os velhos contariam suas jogadas nos cafés, os cronistas escreveriam artigos emocionados e qualquer técnico que cogitasse deixá-lo fora da seleção seria acusado de atentado contra a pátria.

No Brasil ocorre o inverso. Há quem pareça torcer mais pela derrota de Neymar do que pela vitória da própria seleção. É um fenômeno curioso. Um ressentimento doentio, um velho hábito nacional de destruir aquilo que admiramos, uma espécie de complexo de vira-lata evoluído, como se já não bastasse nos sentirmos inferiores, sendo necessário transformar em suspeito todo aquele que demonstra grandeza.

Messi, na Argentina, tornou-se uma unanimidade; Neymar, no Brasil, uma controvérsia. Os argentinos olham para Messi e enxergam o gênio. Muitos brasileiros olham para Neymar e procuram o defeito. Eles erguem estátuas, nós carregamos um martelo. E, enquanto Buenos Aires celebra seus heróis como relíquias nacionais, parte do Brasil continua reunida em assembleia permanente para decidir se o seu principal talento merece ou não entrar em campo. A resposta dos argentinos seria dada em três segundos, acompanhada de um gesto indignado: “Como assim não convocar?”. No Brasil, infelizmente, a discussão ainda rende mesas-redondas, editoriais, debates televisivos e intermináveis sessões de autoflagelação esportiva.

É por isso que Messi é uma devoção e Neymar, muitas vezes, uma acusação.

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