Mbappé e Raphinha: a diferença entre marra e lastro

por Sérgio Trindade foi publicado em 14.jul.26

Logo mais, às 16h, horário de Brasília, França e Espanha vão se enfrentar pela semifinal da Copa do Mundo 2026. É a terceira vez seguida que os franceses estrão disputando vaga na finalíssima. É também a terceira vez que Kylian Mbappé disputará vaga na final do Mundial de seleções.

Mbappé joga muita bola, é marrento e milongueiro, é artilheiro. Um craque. Cracaço. Dos maiores de todos os tempos. Pela idade que tem e pelo que já fez e poderá fazer, o gaulês corre o risco de ser tricampeão do mundo, como Pelé, e ser o maior artilheiro de todos os tempos dos Mundiais.

Antes da Copa do Mundo, Kylian Mbappé falou. Falou muito. Cutucou adversários, provocou, fez cara de quem já sabia o roteiro. Mas havia um detalhe: ele podia sustentar o discurso com futebol.

Na final da Copa de 2022, contra a Argentina, quando a França parecia morta e enterrada, foi Mbappé quem a ressuscitou. Fez três gols, chamou a responsabilidade e transformou uma derrota anunciada numa das maiores finais da história. Perdeu o título, mas saiu de campo gigante. Nesta Copa, em todos os jogos o craque francês jogou o fino. Individualmente e para o grupo. Foi protagonista, incomodando do primeiro ao último minuto em todos. Marrento? Sem dúvida. Milongueiro? Também. Contra o Paraguai, soube ser malandro, marrento e milongueiro. Enervou os adversários sem se deixar enervar. Mas, acima de tudo, Mbappé foi, em todos as partidas, um jogador que aparece quando a bola pesa.

Já o nosso Raphinha, o Raphinha dos Cremes e das Férias, aquele que se julga craque, parece seguir outro manual.

Antes de o Brasil enfrentar a Argentina pelas Eliminatórias, em Buenos Aires, resolveu engrossar a voz. Prometeu pancada, disse que pisaria nos argentinos dentro e fora de campo e alimentou uma rivalidade que dispensa marketing. Parecia que entraria em campo para decidir a partida sozinho. Entro e desapareceu. Gritou pirlimpimpim e ressurgiu num salão de beleza, fazendo escova e pondo base nas unhas. Enquanto os argentinos jogavam uma decisão como costumam jogar, Raphinha mal encontrou espaço para justificar a própria fanfarronice. O discurso ficou muito maior do que a atuação. Quem cantou de galo nos dias anteriores passou noventa minutos procurando um lugar para se esconder.

Imagem feita com auxílio de IA

No futebol existe uma regra não escrita: a provocação é permitida, quase obrigatória. Ela, porém, cobra um preço. Quem fala demais precisa jogar ainda mais. Romário fazia. Cristiano Ronaldo fez inúmeras vezes. Dario, o Peito de Aço, artilheiro nato, era mestre na arte. Mbappé, quase sempre, faz. A língua acompanha a bola. O problema começa quando a língua corre mais do que as pernas. Aí o valentão das entrevistas vira figurante da partida. E o microfone, que antes parecia uma espada, transforma-se numa conta que o campo cobra sem piedade.

No futebol, como na vida, há uma enorme diferença entre parecer e ser. Mbappé pode ser arrogante, senhor-de-si, teatral e até antipático. Mas quando a bola rola, normalmente faz aquilo que prometeu. Raphinha, naquele dia em Buenos Aires, prometeu uma guerra e acabou entregando um armistício. A diferença entre um e outro não está na marra. Está na capacidade de fazer da marra uma extensão do talento. Porque, meus caros três ou quatro leitores, falar é fácil. Difícil é não pôr ovos depois de cantar de galo.

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