A bola não lê estatísticas

por Sérgio Trindade foi publicado em 05.jul.26

Sexta-feira encerrou-se a fase 16avos da Copa do Mundo dos Canadá-Estados Unidos-México e ontem (sábado) começaram as oitavas de final, confirmando a regra de que Aristóteles, o genial filósofo da antiguidade clássica, sofreria horrores para explicar o quão ilógico é o futebol. Por isso, meus três ou quatro leitores, inicio esta crônica fazendo uma advertência: Copa do Mundo é um péssimo lugar para quem gosta de lógica. A lógica chega bem-vestida, de gravata, carregando estatísticas, probabilidades e algoritmos, o futebol a recebe com um sorriso educado, manda sentar na arquibancada e, logo depois do apito inicial, expulsa-a do estádio sem direito a VAR.

Se vocês, meus três ou quatro leitores, têm alguma dúvida, comecemos pelo caso do velho Eixo. A Itália, tetracampeã do mundo e uma das potências futebolísticas, nem apareceu na festa. Por sinal, a outrora poderosa Itália levou falta em 2018, 2022 e agora. Alemanha e Japão compareceram apenas para descobrir que a segunda fase era uma sala de espera para o aeroporto. A Alemanha, ressaltemos, é também uma tetracampeã e desde 2018 patina no mundiais – foi eliminada na primeira fase em 2018 e em 2022. Desde 1945, meus caros, quando a segunda guerra mundial caminhava para seu desfecho, o Eixo não sofria um bombardeio tão eficiente. A História, às vezes, tem um estranho senso de humor. Felizmente, hoje tudo se resume a onze sujeitos correndo atrás de uma bola, que é um destino bem mais civilizado do que correr para, com tanques, canhões, fuzis e metralhadoras, formar impérios.

Imagem feita com auxílio de IA

A Espanha, por sua vez, entrou em campo carregando aquela pose de favorita que só os espanhóis e os garçons de restaurantes muito caros conseguem sustentar. Fez uma boa partida contra a Áustria, é verdade. Boa até demais para quem enfrentava um adversário cuja principal qualidade parecia ser a disciplina para não perder de muito. Mas ainda ficou a sensação de que a Invencível Armada espanhola ludopédica tem a empáfia de sua xará que foi destruída, de forma humilhante, pelo incipiente futuro império inglês. Ela navega bem e tem bons marinheiros, mas ninguém mais desvia do caminho só porque ela apareceu no horizonte. Tanto que até a vitória contra o insípido futebol austríaco, os espanhóis jogaram um futebol de passes infindos que saía de lugar algum para lugar nenhum, um jogo de roda-roda que a levou de forma claudicante à segunda fase. Ainda carrega certo favoritismo pelo aura que tem e não exatamente pelo que é.

A França resolveu confirmar aquilo que todo mundo suspeitava. Ou quase todo mundo. Porque sempre existe aquele torcedor que acredita que favoritismo é invenção da imprensa e que Luxemburgo pode ganhar uma Copa se “encaixar”. A França atropelou a Suécia sem pedir licença. Os suecos produziram um futebol tão frio, tão sem gosto, tão desprovido de tempero, que parecia ter sido preparado por uma geladeira. Enquanto isso, o elenco francês, cada vez mais cosmopolita, lembra menos um país e mais uma reunião das Nações Unidas com chuteiras, funciona maravilhosamente. Vai para a terceira fase do Mundial como a maior favorita.

Canadá e África do Sul fizeram uma partida que deu dor de cabeça em budista. Sabemos quando assistimos uma partida histórica, daquelas que enriquecem o futebol, Pois bem, a peleja entre o norte mais extremo da América e o sul mais extremo da África teve uma virtude: acabar. Foram quase 90 minutos de futebol tão sofrível que, em alguns momentos, parecia um amistoso organizado às pressas para inaugurar um estacionamento. O Canadá venceu, o que não significa necessariamente que jogou bem. Apenas jogou menos mal, que, em certos confrontos, já é uma conquista respeitável.

Os Estados Unidos derrotaram a Bósnia, embora a palavra “derrotaram” talvez seja exagerada. A Bósnia parecia ter esquecido que existia uma Copa em andamento. Jogou um futebol tão desinteressante e desinteressado que prestou uma homenagem involuntária à Itália. Sim, como os italianos foram eliminados por aquela equipe, talvez possamos concluir quase que oficialmente que o futebol apresentado pela Azzurra morreu, foi velado e o enterro aconteceu sem cobertura da televisão.

Mas nada, absolutamente nada, preparou o público para a Argentina. O roteiro parecia pronto. A campeã do mundo pisaria em campo como um lobo faminto diante de um cordeiro distraído conduzido por Vozinha. Cabo Verde entraria apenas para cumprir tabela, trocar camisas no fim e contar aos netos que enfrentou os campeões. Só esqueceram – como um dia disse Garrincha sobre os russos quando de Vicente Feola ensaiava jogadas antes do jogo contra o império huno, em 1958 – de combinar Cabo Verde. E o pequeno país africano resolveu interpretar outro roteiro. Em vez de cordeiro, apresentou-se como um daqueles ossos que nem o cachorro mais paciente consegue roer. Segurando-o estava Vozinha, o célebre arqueiro caboverdiano. A Argentina rondava, mordia, cercava, ameaçava. Cabo Verde respondia com uma coragem que costuma faltar justamente aos times pequenos quando encontram os gigantes. Durante mais de cento e quinze minutos, o lobo argentino descobriu que a fome não garante o jantar.

E aí está uma das maiores virtudes do futebol. No basquete, no vôlei, no handebol e em tantos outros esportes, a superioridade técnica costuma cobrar seu preço rapidamente. No futebol, não. No futebol, um país com pouco mais de meio milhão de habitantes pode fazer uma potência mundial envelhecer vinte anos em duas horas. Pode obrigar uma seleção estrelada a olhar para o relógio como um estudante durante a prova de matemática. Pode transformar milhões de torcedores confiantes em especialistas instantâneos em cardiologia.

A Argentina passou de fase. Os livros de história e de estatística registrarão apenas isso. Daqui a vinte anos, alguém consultará o placar, verá o vencedor e imaginará uma classificação tranquila. É a crueldade dos números. Eles nunca contam o tamanho do susto. E talvez seja exatamente por isso que continuamos vendo futebol. Porque ali, dentro das quatro linhas, os favoritos nem sempre costumam vencer ou quando vencem nem sempre o fazem de forma soberana e consagradora.

O futebol, o impossível é apenas um favorito que ainda não entrou em campo. A Copa do Mundo está sempre aí pata demonstrar que a diferença entre um gigante e um anão às vezes cabe inteira dentro de uma bola que insiste em não obedecer à lógica.

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