Galvão Bueno: o homem que sabia contar jogos

por Sérgio Trindade foi publicado em 15.jun.26

O craque do jogo entre Brasil X Marrocos, para mim, não calçava chuteiras. Vestia palavras. Galvão Bueno, o veteraníssimo narrador que passou décadas na Rede Globo de Televisão, mostrou estar, sábado (13), em ótima forma, conduzindo a transmissão como nos seus melhores tempos, dando excelente dinâmica para a participação de Mauro Beting, Alexandre Pato e Fernanda Nardini, mantendo o ritmo da cobertura durante todo o jogo.

Eu ia assistir ao jogo pelo SporTV, mudei para a Globo e parei no SBT. Não me arrependi. Foi uma boa opção para acompanhar a estreia da seleção brasileira, porque Galvão é daqueles narradores que descrevem partidas, que contam histórias. A descrição pertence aos olhos; a história, à alma.

Na estreia da seleção brasileira na Copa, confesso que fui movido por uma curiosidade simples. Como quem muda de caminho para casa apenas para ver se a paisagem continua bonita, resolvi dar uma chance ao SBT. Não carregava grandes expectativas. Apenas o desejo de assistir ao jogo. Mas aconteceu algo curioso: antes mesmo de a bola encontrar seu rumo definitivo no gramado, quem já havia encontrado o seu era Galvão Bueno.

Os anos passam para todos. Passam para os atletas, para os artistas, para os professores e para os narradores. Mas existe uma espécie de juventude que não mora no corpo. Mora no ofício. E essa juventude aparece quando alguém continua amando aquilo que faz. Foi exatamente essa impressão que tive ao acompanhar a transmissão.

Durante décadas, Galvão foi presença constante na sala de milhões de brasileiros. Sua voz atravessou tardes de domingo, madrugadas olímpicas, corridas de Fórmula 1 e jogos do Brasil em Copas do Mundo. A sua voz informou e construiu memórias. Quando escutamos certas inflexões, certos bordões, não ouvimos apenas um narrador. Ouvimos pedaços da nossa própria vida. Por isso, talvez, tenha sido tão agradável vê-lo novamente em plena forma, conduzindo o espetáculo com a segurança de um maestro diante de uma orquestra experiente. Sem atropelos ou disputas por espaço. Sem aquela ansiedade de transformar qualquer lance ou comentário em um grito. Tudo parecia fluir com naturalidade. Mais, o experiente narrador distribuía a palavra. Mauro Beting surgia com suas observações precisas, sempre atento aos detalhes que escapam ao torcedor comum. Alexandre Pato oferecia a perspectiva de quem conheceu por dentro os vestiários e as tensões do jogo profissional. Fernanda Nardini acrescentava informação, contexto e leveza. E, acima de todos esses movimentos, estava Galvão, organizando o conjunto como quem conhece profundamente os tempos da narrativa.

Imagem feita com auxílio de IA

Os grandes profissionais raramente chamam atenção para o próprio trabalho. Fazem parecer fácil aquilo que é extremamente difícil.

Uma transmissão esportiva é uma espécie de dança. Há silêncios que precisam ser respeitados, momentos em que a emoção deve crescer, instantes em que a informação precisa entrar sem interromper a beleza da cena. Saber coordenar tudo isso exige técnica e sensibilidade. E sensibilidade não se aprende em manuais. Talvez seja por isso que alguns profissionais envelhecem e outros amadurecem. O amadurecimento acrescenta camadas e repertório. Acrescenta humanidade. E foi isso o que se viu na transmissão pilotada por Galvão. Enquanto a partida seguia seu curso, percebi que o jogo que acontecia na televisão tinha duas dimensões. Havia a disputa no campo e havia o prazer de assistir a alguém exercendo seu ofício com excelência. Um espetáculo discreto, muitas vezes invisível, mas profundamente inspirador.

Ao final da transmissão, ficou para mim uma conclusão simples: a estreia da seleção não foi boa e a maior surpresa da noite veio do microfone. Ainda mais porque vivemos num tempo em que tanta coisa parece descartável e apressada. E num tempo assim, é reconfortante encontrar um profissional demonstrando que experiência não é peso e, sim, patrimônio.

Naquela noite, entre passes, caneladas, gols, comentários e emoções, Galvão Bueno lembrou a todos uma verdade antiga: quando o talento encontra a paixão pelo que faz, o tempo deixa de ser adversário e passa a jogar no mesmo time.

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