O departamento contusões bate um bolão

por Sérgio Trindade foi publicado em 30.jun.26

Há um setor formado por personagem que ninguém aplaude, ninguém entrevista e que jamais levanta taça. Os seus funcionários não usam chuteiras, não vestem a camisa amarela e nem calção azul e sequer aparecem na fotografia oficial. Ainda assim, o setor tem sido um dos maiores responsáveis pela transformação da Seleção Brasileira nesta Copa. Refiro-me, com a devida solenidade, ao Departamento de Contusões. Sim, meus três ou quatro leitores, o setor resolveu mostrar serviço e tem sido um dos destaques da comissão técnica. E, convenhamos, tem acertado muito. Diria que tem sido o braço direito do técnico Carlo Ancelotti.

Carlo Ancelotti pode até ser o comandante, o auxiliar invisível, implacável e ortopédico, porém, vem fazendo alterações no elenco sem pedir licença à imprensa, à CBF, aos comentaristas e analistas e aos torcedores. Um estiramento muscular vale mais do que três reuniões táticas.

Foi esse auxiliar silencioso que já retirou Raphinha do palco. Começou a rondar Lucas Paquetá com uma insistência de cobrador de aluguel e, confirmou há pouco, que o meia do Flamengo está fora dos planos por tempo indeterminado. Casemiro, por enquanto, ainda resiste. Mas ninguém escapa para sempre das más (ou seriam boas?) intenções do músculo posterior da coxa. O futebol também possui seu anjo exterminador.

Como homem probo e honrado (?!), desejo sinceramente que os dois se recuperem e que Casemiro, se vier a ser tocado pelo Anjo Ludopédico, também não sofra tanto. Afinal, contusão não é troféu e dor nunca foi motivo de comemoração. Nenhum atleta merece ver sua carreira interrompida por um ligamento ou músculo rebelde ou por um tornozelo ou joelho que decide fazer oposição ao restante do corpo. Mas como  torcedor – essa criatura moralmente duvidosa – sou tomado por sentimentos que a razão desconhece. E isso é um drama. O cidadão lamenta o sofrimento do jogador; o torcedor olha para o campo e faz uma conta cruel. Descobre que, sem Raphinha, o time parece respirar melhor. Sem Paquetá, a bola encontra caminhos que antes ignorava. O jogo ganha uma leveza que andava escondida debaixo de tanta expectativa.

É uma perversidade? Talvez. O futebol, no entanto, jamais foi território da delicadeza. É, sim, uma selva em que a camisa pesa menos que o rendimento e a bola não distribui medalhas por serviços prestados. Ela apenas denuncia quem está ajudando e quem está ocupando espaço.

Casemiro representa outro dilema. Sua experiência é inquestionável. Já atravessou batalhas suficientes para escrever um tratado sobre sobrevivência em gramados hostis. O problema é que experiência, quando desacompanhada de intensidade insinuante, pode virar uma confortável cadeira de balanço em pleno meio-campo. Então, se ele também ficar de fora, o Brasil perderá um veterano, mas talvez descubra algo que lhe faz falta há algum tempo: velocidade para pressionar, coragem para atacar, leveza para criar e pernas capazes de transformar contra-ataques em avalanche.

O futebol tem dessas ironias que fariam um dramaturgo abandonar o teatro para comprar ingresso na arquibancada.

Os nomes, às vezes, aprisionam as equipes. A fama pesa como um piano nas costas do treinador. Escalar um medalhão exige menos coragem do que deixá-lo no banco. Por isso, o currículo costuma vencer o momento. Felizmente, a lesão não lê biografias. Ela simplesmente acontece, e quando acontece, abre espaço para que o futebol, um moleque insolente, lembre aos adultos que camisa de titular não é escritura de cartório ou aprovação em concurso público.

O verdadeiro reforço da Seleção não veio de laboratório algum, tampouco de qualquer inovação tática. Ele tem chegado de muletas, exames de imagem e boletins médicos.

É sem dúvidas uma conclusão desconfortável, entretanto, meus três ou quatro leitores, o futebol, como a vida, raramente consulta nossa sensibilidade antes de escrever suas epopeias e seus capítulos mais irônicos. E, por mais cruel que pareça admitir, há ocasiões em que um bom departamento de contusões melhora um time mais do que qualquer sessão de treinamento, confirmando uma lei de aço: a história, quando resolve mexer na escalação, não pede opinião a ninguém.

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