Onde a bola não entra por acaso
Conheço muita gente que ainda acredita que o futebol termina quando o juiz apita o fim do jogo. Coitados. Esse pessoal vive da mesma ilusão do sujeito que pensa que deputado e senador trabalham somente na hora da sessão ou que cartola (hoje convenientemente chamado de empresário) compra jogador porque gosta de futebol. Ora, meus três ou quatro leitores, a bola é apenas o último elo de uma corrente enorme de dinheiro, vaidade, glamour, medo e poder. E é justamente aí que mora o mérito de Jogada de Risco, nova série do Globoplay.
A série parte de uma verdade antiga, conhecida de qualquer repórter que já tenha tomado um café ou uma cerveja na porta de um clube: o jogo mais importante quase nunca acontece dentro do gramado. A decisão costuma ser tomada antes, num escritório refrigerado, num jantar discreto, numa ligação que ninguém gravou ou numa festa onde sobra champanhe e falta vergonha.
O ex-jogador Maurício, vivido por Cauã Reymond, poderia ser qualquer atacante promissor que desapareceu do noticiário sem que ninguém entendesse direito por quê. O torcedor costuma culpar o joelho ou o tornozelo ou o púbis. Até pode ter sido. Mas muitas vezes a contusão mais grave acontece na assinatura de um contrato ou na administração feita por quem enxerga o filho como um bilhete premiado. É assim, por vezes, no futebol: um pai pode ser mais perigoso que um zagueiro argentino.
Derrotado como atleta, Maurício troca o campo pelos bastidores e descobre rapidamente que negociar jogadores exige menos conhecimento de futebol do que de natureza humana. O empresário (adotemos o conceito) precisa conversar com presidente de clube, patrocinador, jornalista, advogado, agente de apostas, investidor e, quando sobra tempo, com o próprio jogador. Este é, por sinal, geralmente o último a saber da própria carreira.

Imagem feita com auxílio de IA
A série acerta ao fugir daquele romantismo infantil em que o futebol seria uma ilha cercada apenas por chuteiras. Não é – e nunca foi – desde que a bola virou negócio e com ele apareceram os negociantes. E onde circula dinheiro demais, surgem inevitavelmente os atravessadores da moral.
Doping, apostas, prostituição de luxo, chantagem, corrupção, saúde mental, disputas milionárias… Parece exagero? Só para quem acompanha futebol olhando exclusivamente para o placar. Quem frequenta os corredores ou lê as entrelinhas do que é escrito ou dito sobre o assunto sabe que a tabela do campeonato é muito menos complicada do que a tabela dos interesses.
Há um personagem especialmente simbólico em Jogada de Risco: Rita, interpretada por Leticia Colin. Ex-prostituta de luxo, transforma-se em empresária do entretenimento adulto e faz a ponte entre jogadores, empresários, procuradores, parças e festas milionárias. Muita gente poderá achar que é licença poética, mas não é. O futebol profissional sempre orbitou um universo onde fama instantânea, juventude, dinheiro fácil e solidão produzem uma combinação explosiva.
O atacante de vinte anos que ontem morava numa casa simples pode acordar milionário na terça-feira e, na sexta, estar cercado por gente interessada em tudo, menos no seu futebol.
Esse filme já passou centenas de vezes.
Outra virtude da série está justamente em não apontar o dedo para um caso específico. Cauã Reymond explica que ouviu dezenas de relatos verdadeiros, mas preferiu entender os mecanismos em vez de colecionar nomes. É uma decisão inteligente. Escândalos passam e o sistema permanece, porque o problema nunca foi um dirigente corrupto ou um empresário inescrupuloso isoladamente e, sim, a engrenagem que transforma exceção em rotina.
É curioso observar como boa parte do público ainda reage com espanto quando surgem denúncias envolvendo apostas esportivas ou manipulação de resultados. Como se o futebol fosse um convento invadido por pecadores ocasionais. Todos parecem que o futebol movimenta bilhões e onde há bilhões, aparece todo tipo de santo. E também todo tipo de diabo.
A figura do miliciano cobrando dívidas do protagonista pode parecer um elemento dramático exagerado. Infelizmente não é. Aquilo também conversa com uma realidade conhecida. O dinheiro do futebol frequentemente cruza fronteiras que jamais deveriam se encontrar: crime organizado, lavagem de recursos, influência política e poder econômico. Não é novidade. Só mudou o tamanho das cifras.
Há ainda outro aspecto interessante. A série mostra empresários administrando carreiras e, também, imagens. Hoje, um drible vale menos que uma postagem bem calculada. Um contrato publicitário pode render mais do que uma temporada inteira. O atleta tornou-se produto, marca, investimento financeiro e ativo digital.
O craque agora precisa jogar duas partidas por semana: uma no estádio, outra nas redes sociais.
Jogada de Risco trata menos de futebol e mais de poder. O esporte aparece como palco de uma velha disputa humana: quem manda, quem lucra e quem paga a conta. O torcedor participa da trama, pois continua comprando ingresso acreditando que tudo será decidido pelo talento de onze homens correndo atrás da bola. É bonito acreditar nisso. O futebol precisa dessa inocência para continuar encantando multidões. No entanto, basta abrir a porta dos vestiários para descobrir que a partida verdadeira começou muito antes do apito inicial.
E, quase sempre, termina muito depois do último gol. Ou do apito final.