A ilustre arte de fabricar campeões de papel
Existe uma magia peculiar na divulgação dos resultados do Exame Nacional do Ensino Médio, o nosso prosaico ENEM. Todos os anos, por volta da temporada em que as folhas dos balanços escolares precisam ser lustradas para o período de matrículas, instala-se na praça pública uma espécie de campeonato do saber. Pais aflitos, diretores de sobrolho franzido, professores roendo as unhas e publicitários inspirados debruçam-se sobre as planilhas do Ministério da Educação como devotos à espera do milagre da multiplicação das notas. Trata-se da feira anual dos rankings, essa maravilhosa engrenagem moderna em que a complexa, acidentada e quase sempre angustiante aventura do conhecimento humano é reduzida, com admirável desembaraço, a uma cifra com duas casas decimais.
Pois bem. Chega-nos às mãos um levantamento feito por um colega-professor que resolveu olhar para esse espetáculo não com a paixão dos torcedores, mas com a luneta fria da estatística. E o que ele revela é uma dessas comédias humanas que fariam a alegria dos cronistas de antanho. Descobre-se, sem surpresa, mas com renovada fascinação, que a matemática dos rankings de colégios guarda laços parentais estreitos com a arte do ilusionismo.
O truque mais elegante de todos atende pelo nome de média simples. Imagine vocês, meus três ou quatro leitores, uma instituição de ensino – chamemo-la de Colégio Sabedoria Exclusiva – que ostente uma turma diminuta, digamos, de dez ou doze alunos escolhidos a dedo, cercados de todos os mimos pedagógicos que uma mensalidade de quatro dígitos pode comprar. Ao lado dela, contemplemos um grande e frondoso colégio tradicional, cujos corredores abrigam centenas de jovens com suas inevitáveis oscilações de talento, esforço, crises existenciais, manhãs de preguiça e manhas adolescentes. Se tirarmos a média aritmética crua, o pequeno enclave de elite tem imensa chance de reluzir no topo do pódio. É a vitória do pequenino sobre o gigante, dirão os ingênuos. É apenas a lei dos grandes números a zombar da nossa boa-fé, dirão os estatísticos.
Quando se aplica o filtro das elites, isto é, quando se passa a comparar não o universo inteiro, mas apenas a ponta do iceberg, a tropa de choque dos X melhores alunos de cada escola, o cenário muda de figura com a rapidez de um truque de mágica de auditório. Aquelas escolas musculosas, com centenas de concluintes, revelam a sua verdadeira envergadura. Elas não vivem de um punhado de notáveis isolados; sustentam batalhões inteiros de jovens capazes de encarar a maratona das provas sem vergar o espinhaço. A média simples, descobre-se então, servia apenas para diluir a força do exército numeroso em favor das pequenas patrulhas de laboratório.
E há, claro, o capítulo da rede pública. No ranking geral das médias brutas, espremido entre as regras contábeis do ensino de massa, o setor público costuma figurar como parente pobre na foto de família. Mas basta ajustar a lente para os cortes fixos de desempenho superior que uma escola pública venha a emergir em meio à aridez educacional do estado, ombreando com a quase mediocridade de toda a elite escolar.
O estudo traz à luz um detalhe técnico saboroso: a famosa Razão Participantes/Concluintes. Trata-se daqueles ex-alunos que, tendo concluído o ensino médio no ano anterior, retornam ao campo de batalha após um ou dois anos de cursinho, lapidando as arestas do saber para conquistar as vagas mais disputadas da universidade pública.
O que toda essa ginástica de números e tabelas nos ensina, no fundo, ultrapassa os limites da pedagogia e adentra o terreno da sociologia da alma brasileira. Somos um país apaixonado por pódios rápidos. Queremos saber quem é o primeiro lugar, qual a melhor escola da cidade, qual a fórmula mágica capaz de garantir um passaporte sem escalas para as faculdades de Medicina, de Direito… Nessa busca sôfrega, esquecemo-nos de que a educação de um jovem é obra sutil, feita de leituras interrompidas, conversas de corredor, professores inspiradores e, sim, eventuais e salutares tropeços.
A métrica que transforma o conhecimento em mercadoria de vitrine produz bizarrias: escolas que criam turmas de elite isoladas do restante dos alunos para proteger a média da casa, campanhas publicitárias que lembram boletins de guerra e pais que navegam por planilhas como quem escolhe um ativo na Bolsa de Valores. Mas a realidade, teimosa como ela só, insiste em desmentir os panfletos. Como demonstra a análise cuidadosa do ENEM potiguar, a excelência escolar não é um evento de proveta nem uma abstração contábil. É construção de fôlego, que exige massa crítica, continuidade e a capacidade de fazer caminhar juntos não apenas dez prodígios de laboratório, mas centenas de mentes em formação.

Imagem feita com auxílio de IA
Ao fechar o relatório estatístico, resta a suspeita de que os rankings servem menos para medir a qualidade do ensino e mais para acalmar a ansiedade dos adultos. Os alunos povoam as salas de aula continuarão a ser muito mais complexos do que a nota média da sua instituição. Mas até que a sociedade entenda isso, continuaremos todos os anos a aplaudir o espetáculo do ilusionismo educacional, no qual quem ganha o troféu nem sempre é quem tem mais a ensinar, mas quem aprendeu primeiro a manejar as estatísticas.
Não temos nada a festejar. A educação do Brasil continua muito ruim e em meio ao ruim o Rio Grande do Norte está entre os piores.