A imolação do professor (ou o vírus sublime da ignorância)
Confesso com a boca cheia d’água e o coração em migalhas: sou um masoquista hediondo. Participo a cada quinze dias de reuniões pedagógicas, daquelas em que muito se fala e pouco se encaminha de concreto. Uma perda de tempo quase absoluta. Um monumento à inutilidade.
Sou um crápula juramentado, como diria Odorico Paraguaçu. Tenho pela dor uma vocação de santo ou de cão abandonado. Só a volúpia do chicote me consola nesta vida vil e inútil da labuta docente. Quem duvida observe a minha folha de serviços ao sofrimento extra educação: torço com desespero abjeto pelo ABC, um clube virtuoso que me maltrata sempre que dele espero alguma coisa; babo (ou babava?) de paixão pelo Clube de Regatas Vasco da Gama, uma relíquia venerável que não ganha um campeonato desde quase a invenção da internet e ainda chora, de joelhos, sob as botas de couro do falecido Eurico Miranda, misto de anjo e carrasco cruzmaltino. Para culminar o meu banquete de espinhos, chorei lágrimas de sangue com os sete a um que a Alemanha nos aplicou em 2014 e apertei o botão da urna numa candidata à Presidência que foi escorraçada por um grupo e, hoje, anda à sombra dele, como cão sarnento.
Mas nada disso basta para a minha fome de suplício. Não. Para atingir o ápice do calvário, resolvi cometer o ato mais obsceno dos século XX e XXI: fiz-me professor. Ah, o mestre-escola, essa figura patética que a hipocrisia das famílias e a canalhice dos discursos oficiais coroam com flores de defunto. Dizem nas redes de televisão e no esgoto das redes sociais, com aquele tom untuoso de bispo em dia de procissão, que o professor é a pedra angular da nação. Mentira! Uma paquidérmica mentira de mesa de bar. O professor é o serviçal mais achincalhado da praça, um coitado que apanha de chicote dobrado nos gabinetes da burocracia estatal e nas reuniões das ilustres famílias das classes média, média alta e alta.
Projetos pedagógicos mirabolantes, fichas cadastrais, cadernetas dos infernos, PEI dos (argh!!!) dos alunos com necessidades específicas, deliberações untadas de amor presumido… Um asco!
O burocrata, um monstro de gravata que nunca viu um aluno babando de tédio na primeira fileira ou esculhambando o ambiente na última, exige que o professor seja um burocrata completo. Dar aula? Estudar? Uma bobagem, um luxo de diletante. O aluno é um mero detalhe na engrenagem. O que importa é o formulário preenchido em três vias, com carimbo e firma reconhecida em cartório. Ou passado no sistema com QR Code.
Se esses idiotas da burocracia tivessem um pingo de pudor – ou se tivessem a audácia dos alucinados genuínos –, não inventariam mais reuniões pedagógicas. Não! Eles iriam direto ao Criador, intercederiam junto aos astros para diminuir a rotação da Terra, espichariam o ano em mais duzentos dias… Só assim o miserável do professor conseguiria dar conta da papelada e ainda guardar cinco minutos para dormir, brincar com os filhos ou, vejam que aberração moral, ler um livro.
A sociedade – uma beldade que finge amor à pátria – sente o que pelo professor? Ama? “Nem tanto”, sussurra o canalha no auditório. Respeita? “Nem tanto”, murmura o representante de família que engaiola o filho na escola privada (ou mesmo na escola pública) como quem joga um vira-lata no canil. A família, por sinal, não quer um educador, quer um babá de terno, um lacaio pago a preço de banana para aguentar o herdeiro mimado e histérico e, às vezes, boçal. E se o menino não aprende a tabuada, a culpa é do professor, o ser ignóbil que maltrata a juventude com a sua presença incômoda.

Imagem feita com auxílio de IA
Falar em educação neste país é de uma monotonia de velório. Ninguém suporta mais. O sujeito abre a boca para dizer educação e a plateia boceja uma saliva podre. Duvidam? Então puxem pela memória e observem Cristovam Buarque, um homem que pregou a salvação pela escola e colheu nas urnas a esmola de três por cento dos votos há uns anos. Professores, merendeiras e inspetores de alunos não votaram nele. Porque educação não dá voto. Ela não tem o apelo da carne e nem tem a pimenta do escândalo.
Pois eu digo aos meus pares: educadores do Brasil, uni-vos! Vamos vomitar na cara da burguesia e do proletariado. Vamos continuar espalhando o vírus da ignorância pelas alamedas elegantes e pelas vielas das urbes. É a única revolução possível: a revolução pela peste. Quando o herdeiro do doutor começar a balbuciar a escuridão do analfabetismo, aí sim, entre lágrimas e ranger de dentes, a nação há de construir a sua primeira escola.
É a obra a ser feita.
Até a próxima reunião pedagógica. Até a próxima reunião de pais. E até a próxima tragédia eleitoral.