O Ideb e o desarranjo educacional
A estatística não chora, quando saem os números do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Quem chora somos nós.
Não confio, como Nélson Rodrigues, em unanimidades. Desconfio, às vezes, até de maioria. Já vi muita pereba eleita. Por sinal, perebas tem aos montes sentados em gabinetes refrigerados, lá postos por maioria.
Andamos fingindo que a educação brasileira vai bem porque inauguramos escolas pintadas de azul ou pastilhadas, distribuímos tablets, criamos slogans e tiramos fotografias diante de quadros brancos. O Ideb, inconveniente como um legista, sempre aparece levantando o lençol, olhando o cadáver e escrevendo a causa da morte. Não aceita discursos, não entrevista secretário, não participa de solenidades e constata… com a frieza dos números. É um sujeito de poucas palavras e certa crueldade. Às vezes muita. Ele pega duas perguntas aparentemente simples: o aluno aprendeu? Conseguiu avançar de série sem ser reprovado ou abandonar a escola? Depois cruza as respostas. É uma armadilha perfeita para os malandros da pedagogia. E o que não falta na gestão educacional brasileira é malandro e malandragem. Com o Ideb, porém… se a escola aprova todo mundo, mas ninguém sabe interpretar um parágrafo ou resolver uma conta de fração, o Ideb pune; se reprova metade da turma para melhorar artificialmente a nota das provas, o Ideb pune também. É um juiz incorruptível num país acostumado a absolver a própria incompetência. Sempre que o Brasil comparece diante desse tribunal, o resultado é tristemente atroz.
Num mundo em que países discutem inteligência artificial, robótica, computação quântica e exploração espacial, nós ainda buscamos fazer adolescentes aprenderem o mínimo do idioma pátrio e matemática. No Ensino Médio, etapa decisiva para qualquer projeto de desenvolvimento, o melhor estado brasileiro, o Paraná, alcançou nota 5,1. Sim, o campeão nacional mal ultrapassa a metade de uma escala que vai até dez. E aí, meus poucos leitores, façam um breve exercício de imaginação: numa corrida, o vencedor cruza a linha de chegada caminhando, mancando e carregando uma tipoia. Eis a educação brasileira.
Amazonas e Roraima estão com 3,8, como se o elevador da aprendizagem tivesse decidido morar definitivamente no subsolo. Se o campeão Paraná com 5,1 chegou aos pandarecos na linha de chegada, Amazonas e Roraima foram imediatamente para a UTI educacional. Infelizmente não há heróis na fotografia. Apenas derrotados em velocidades diferentes. E o drama fica ainda mais grotesco quando lembramos que estamos falando das disciplinas mais elementares da vida civilizada: compreender um texto e resolver problemas matemáticos básicos. Não estamos exigindo que nossos jovens recitem Ulisses em grego antigo ou leiam Shakespeare (em português mesmo) ou resolvam equações diferenciais. Queremos apenas que consigam interpretar um contrato, entender uma notícia ou calcular o troco da padaria. Parece – e é – pouco. Descobrimos, porém, que é muito.
E então chegamos ao Rio Grande do Norte. Ah, o Rio Grande do Norte…
Toda tragédia precisa de um personagem particularmente infeliz.
Durante anos, o estado ocupou o porão da educação brasileira. Era uma espécie de lanterna pedagógico nacional. Se existisse um campeonato mundial da insuficiência escolar, disputaríamos vaga direta. Agora veio a notícia: crescemos. Saltamos de 3,2 para 4,0 no Ensino Médio. Um avanço proporcional de 25%. Excelente. Merece reconhecimento. Seria desonesto negar.
Foram centenas de milhões investidos em reformas escolares, climatização, laboratórios, computadores, internet, expansão das escolas de tempo integral e criação dos Institutos Estaduais de Educação Profissional. Há aproximadamente 230 escolas beneficiadas por melhorias estruturais. O esforço existe, os recursos foram aplicados, os indicadores reagiram, mas é justamente aí que mora a ironia. Festejamos um sucesso e o sucesso é que deixamos de ser o último colocado. Isso mesmo. Não somos mais o lanterninha. Observem a dimensão da nossa felicidade. Não celebramos ter chegado ao topo. Celebramos ter saído do fundo do poço. Somos o náufrago que anuncia aos jornais:
– Excelente notícia! A água agora bate apenas no meu pescoço.
O Rio Grande do Norte melhorou, sem dúvida. Continua, porém, abaixo da média nacional. Continua enfrentando enormes dificuldades em matemática e carregando déficits históricos de aprendizagem. Continua preso a problemas estruturais que nenhuma cerimônia de inauguração, nem políticos e militantes e tampouco jornalistas pagos para repercutir notícias pretensiosamente grandiosas consegue esconder.
E Natal?
A capital do estado é uma daquelas cidades que escondem os seus pecados atrás de monumentos, avenidas largas e cartões-postais capazes de seduzir turistas de todos os continentes. A cidade, porém, parece ter escolhido esconder o seu maior drama atrás das portas das salas de aula, como mostraram as planilhas do Ideb. Existe uma cidade muito diferente daquela que aparece nas antigas fotografias do Morro do Careca ou nas atuais propagandas de verão, uma cidade onde a paisagem mais árida não é a das dunas, mas a da aprendizagem.
A realidade é mais fantástica do que qualquer ficção, e o Ideb confirma a sentença com a frieza, registrando e revelando que a rede municipal de Natal alcançou 4,6 nos anos iniciais do Ensino Fundamental, mas despencou para 3,4 nos anos finais, numa queda tão violenta que parece transformar a adolescência numa máquina de fabricar ignorância, como se o aluno atravessasse os primeiros anos aprendendo a caminhar e os últimos desaprendendo a pensar.
É verdade que Natal aparece na 16ª posição entre as capitais brasileiras nos anos finais do Ensino Fundamental, o que impede qualquer exagero estatístico sobre um suposto último lugar. A colocação está longe, entretanto, de representar conforto, porque a distância que separa a cidade das capitais líderes é um abismo educacional, daqueles que não se vencem com discursos de inauguração nem com solenidades administrativas, já que Teresina atingiu 5,7, Goiânia 5,6 e Curitiba 5,4, enquanto Natal permanece estacionada em 3,4, contemplando o pelotão da frente como quem observa um navio desaparecer no horizonte.
Estou, sempre que discuto educação, cada vez mais debruçado sobre números. Não ando muito interessado em teorias pedagógicas arrojadas, Quando vejo os números convenço-me de que a educação não precisa de ideias mirabolantes, nem de conceitos rebuscabos e vazios, tampouco de modismos.

Imagem feita com auxílio de IA
O fracasso estrutural da educação brasileira é fruto de um mecanismo institucional que produz a ilusão da inclusão universal enquanto consolida, em massa, o analfabetismo funcional, fenômeno que não decorre de erro acidental, mas do funcionamento articulado de uma engrenagem de reprodução e marginalização social. Arrotamos a formação de cidadãos críticos e conscientes, mas formamos uma massa de analfabetos para ser manipulada por uma companhia de espertos encastelados em postos de mando. É uma espécie de pedagogia do desarranjo, que se estabelece como um mecanismo institucional que produz a ilusão de inclusão universal enquanto consolida, em massa, o analfabetismo funcional. Esse fenômeno não decorre de um erro acidental, mas do funcionamento articulado de uma engrenagem de reprodução e marginalização social.
Amparo o que afirmo em dois autores: Christian Baudelot e Roger Establet. Ambos construíram uma teoria da escola dual., a qual constitui uma rede destinada às massas, uma estrutura voltada à mera contenção social e à aprovação burocrática. Entrega-se o certificado, mas nega-se o conhecimento, assegurando que o estudante permaneça no degrau mais baixo da pirâmide produtiva. O sistema celebra o acesso físico ao prédio escolar e a expansão das matrículas para maquiagem estatística, mas priva o aluno daquilo que Pierre Bourdieu chamou de capital cultural indispensável, a saber, a leitura fluida, a interpretação crítica e o raciocínio matemático. Acolhe-se o corpo do estudante na sala de aula para, em seguida, expulsar sua inteligência do mundo civilizado.
O brasileiro possui um talento extraordinário para transformar pequenos melhoras em epopeias nacionais. Se um paciente passa da UTI para a enfermaria, já aparecem discursos sobre a medicina revolucionária. Se uma escola sobe alguns décimos no Ideb, surgem pronunciamentos como se Harvard estivesse pedindo consultoria. A estatística, entretanto, conserva uma elegância cruel. Ela mostra, e esconde. E o que esconde é mais sensível do que o que mostra.
Enquanto discutimos qual governo merece o troféu pela subida de alguns pontos, milhões de estudantes atravessam toda a educação básica incapazes de dominar competências mínimas. É um milagre negativo, pois conseguimos fabricar certificados em velocidade industrial e conhecimento em marcha lentíssima. Existe uma superstição nacional segundo a qual prédio bonito ensina. Não ensina. Tudo ajuda, ar-condicionado, Internet, laboratórios, mas nenhuma parede recém-pintada consegue convencer um aluno a compreender Machado de Assis ou resolver uma equação de segundo grau., por uma questão simples: a pedagogia não mora no concreto. Ela mora na sala de aula e na formação do professor, na gestão competente e na continuidade das políticas públicas. Mora, sobretudo, na coragem de admitir que existe um problema gigantesco. E aí reside nossa maior deficiência: temos medo do diagnóstico e preferimos o marketing.
O Ideb chega de dois em dois anos como aquele parente inconveniente que aparece no almoço de domingo e diz exatamente aquilo que ninguém deseja ouvir. Por isso incomoda tanto. Chega destruindo narrativas, não importa quem esteja governando. Não importa a ideologia, tampouco o partido, porque os números possuem um defeito gravíssimo: eles não militam.
Seguimos produzindo gerações inteiras de jovens que entrarão no mercado de trabalho disputando empregos com inteligência artificial, automação e concorrência global. É uma luta desigual, pois é como mandar um escoteiro enfrentar um batalhão de tanques. Depois perguntamos por que a produtividade brasileira é baixa, por que a renda cresce lentamente, por que faltam engenheiros, técnicos qualificados, pesquisadores e inovação, sem reconhecer que a resposta estava sentada na carteira escolar desde o primeiro ano do ensino fundamental. Ignoramo-la durante décadas.
O problema do Brasil não é apenas a pobreza e, sim, a extraordinária capacidade de transformar a mediocridade em motivo de desfile. Enquanto comemorarmos o fato de deixar a lanterna sem perguntar por que continuamos tão distantes da luz, estaremos apenas mudando de lugar dentro da escuridão. O Ideb, portanto, meus três ou quatro leitores, não condena o Brasil, apenas retira o espelho da parede, coloca-o diante do nosso rosto e pergunta, com uma frieza insuportável:
– É este mesmo o país educado que vocês imaginavam ver?